Medina alerta para queda das exportações e défice de investimento
O ex-ministro das Finanças mostra-se preocupado com a queda do peso das exportações no PIB, após ter saltado de 30% para 50%, e nota que o investimento não chega para repor o stock de capital.
Portugal tem dois problemas estruturais que merecem atenção imediata: a erosão do peso das exportações no PIB e o persistente défice de investimento. O diagnóstico é de Fernando Medina, ministro das Finanças entre 2022 e 2024, que se mostrou crítico relativamente ao rumo da economia portuguesa esta quinta-feira no Fórum Económico Seguros organizado pela Associação Portuguesa de Seguradores (APS).
“Tenho uma preocupação de curto prazo que é o que está a acontecer às nossas exportações”, disse Fernando Medina no decorrer de um painel sobre as expectativas para a economia nacional.
O ex-governante recorda que uma das grandes conquistas do programa de ajustamento foi precisamente a viragem exportadora do país, com Portugal a passar de um rácio de exportações de cerca de 30% do PIB para 50%, revelando-se essencial na garantia do equilíbrio das contas externas.
O problema, segundo Fernando Medina, é que esse feito está a ser desfeito paulatinamente. “Atualmente, esse o rácio de exportações sobre o produto tem diminuído de uma forma sistemática”, alertou o ex-ministro, defendendo que esta é a “variável-chave que nos vai garantir o equilíbrio externo de novo” e que, por isso, deve ser tratada como prioridade.
O investimento está há muitos anos abaixo do que é necessário para a reposição do stock de capital.
O segundo grande sinal de alerta tem a ver com o investimento, uma variável que Fernando Medina considera subvalorizada no debate económico.
O ex-ministro das Finanças sublinha que “o investimento está há muitos anos abaixo do que é necessário para a reposição do stock de capital”, o que significa que, ano após ano, Portugal gasta menos do que precisaria só para manter em bom estado daquilo que já tem, sem sequer falar em crescer.
A estes dois problemas estruturais, Fernando Medina acrescenta uma crítica à forma como Portugal tem conseguido reduzir a dívida pública. Apesar de reconhecer como positivo o facto de o rácio da dívida face ao produto ter voltado a cair em 2025 para 89.7% do PIB, o ex-governante chama a atenção para o custo desse resultado, sublinhando a importância da “forma como lá se chega”.
Na sua leitura, o “mau equilíbrio financeiro” em que o país se encontra explica-se, em parte, precisamente pela incapacidade de concretizar investimento, levando a uma maior contenção da despesa e, por arrasto, a própria dívida.
O Governo tem estado a gerir os mecanismos e as subvenções para não haver perdas para o país com transferências para o Banco de Fomento, mas isso não aumenta a capacidade de investimento das empresas.
Também o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e os fundos comunitários saíram da intervenção de Fernando Medina com uma avaliação crítica. O investimento “deveria ser muito ascendente na execução do PRR e dos programas comunitários”, defendeu, mas fez questão de distinguir entre gerir dinheiro e criar capacidade produtiva.
“O Governo tem estado a gerir os mecanismos e as subvenções para não haver perdas para o país com transferências para o Banco de Fomento, mas isso não aumenta a capacidade de investimento das empresas”, apontou, deixando claro que, na sua visão, evitar devolver dinheiro a Bruxelas não é o mesmo que aproveitar bem os fundos europeus.
No fundo, o diagnóstico de Fernando Medina aponta para uma economia que consolidou as contas públicas — e bem, na sua ótica — mas tem-no feito à custa de um investimento insuficiente e de uma base exportadora que começa a dar sinais de retrocesso. Para o ex-ministro das Finanças, estes são os verdadeiros desafios que Portugal precisa de enfrentar com urgência, antes que o desequilíbrio externo volte a bater à porta.
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