Vítor Bento mostra-se cético sobre a União da Poupança e dos Investimentos

O presidente da associação de bancos duvida que o novo projeto de Bruxelas mude o jogo e diz que a Europa tem poupança de sobra, mas faltam instrumentos para investir com segurança e escala.

A União Europeia tem um novo projeto para transformar os mercados de capitais do continente. Chama-se União da Poupança e dos Investimentos, mas Vítor Bento, presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB), não se mostra muito esperançoso nesse projeto.

“Sou cético em relação ao projeto da União da Poupança e Investimentos porque tenho sempre um ceticismo em relação a projetos que mudam de nome, mas os problemas persistem”, referiu o economista esta quinta-feira no decorrer do Fórum Económico Seguros organizado pela Associação Portuguesa de Seguradores (APS), num painel dedicado às perspetivas para a economia portuguesa.

Na base do argumento de Vítor Bento está a ideia de que este projeto é continuação da chamada União dos Mercados de Capitais (CMU, na sigla inglesa de Capital Markets Union), projeto que a União Europeia tentou construir durante a última década sem ter alcançado os resultados esperados e que tem o mesmo objetivo da União da Poupança e dos Investimentos: criar um mercado único de capitais que permita às empresas europeias aceder mais facilmente a financiamento e aos aforradores investir além-fronteiras.

Para Vítor Bento, a mudança de designação não é suficiente para garantir resultados diferentes, classificando a União da Poupança e dos Investimentos como “um tingimento do Capital Markets Union”.

A integração financeira europeia, para ser sólida, não se faz à pressa nem com projetos que ignoram as resistências estruturais dos diferentes Estados-membros, alerta Vítor Bento.

Porém, no mesmo Fórum, Maria Luís Albuquerque, comissária europeia para os Serviços Financeiros e União da Poupança e dos Investimentos, apresentou uma leitura bem mais confiante sobre o projeto.

Para a comissária europeia que tutela o dossier em Bruxelas, não se trata de um mero exercício de rebranding, mas de uma resposta estrutural a um momento histórico marcado por tensões geopolíticas, fragmentação económica e aceleração tecnológica.

“É precisamente este o espírito da União da Poupança e dos Investimentos: criar um sistema financeiro mais integrado, capaz de transformar a poupança europeia em crescimento económico e oportunidades reais”, afirmou, defendendo as seguradoras como peça central desse novo modelo — não como simples gestoras de risco, mas como “motor de investimento, inovação e crescimento económico europeu.”

Ainda assim, o presidente da APB deixou a porta aberta ao otimismo, assumindo-se como “um cético, mas aberto à esperança” porque tem “sempre esperança que possa estar enganado nos momentos negativos e que a realidade acabe por ser melhor”.

Para que a esperança se concretize, Vítor Bento defende que Bruxelas siga o único caminho que, na sua visão, pode levar o projeto ao sucesso: a criação de um chamado 28.º regime. Trata-se de um quadro jurídico e regulatório europeu autónomo — paralelo aos 27 sistemas nacionais já existentes –, ao qual as grandes empresas e investidores poderiam aderir voluntariamente.

Começa todo de novo, tem as suas regras próprias, tem os seus sistemas de arbitragem próprios, tem o seu valor próprio e as grandes empresas e os grandes participantes podem fazer o opt-in nesse regime”, explicou Vítor Bento, acrescentando que, a partir desse regime, “se quiser, uniformizam-se com ele ou não, mas há um regime que funciona por si só.”

O modelo não é novidade conceptual na Europa. Vítor Bento recordou que “o projeto de maior sucesso que a União Europeia pôs em marcha até hoje foi a União Monetária”, o processo que culminou na criação do euro, mas sublinhou que esse êxito teve um custo em tempo: demorou dez anos a construir. A lição é clara: a integração financeira europeia, para ser sólida, não se faz à pressa nem com projetos que ignoram as resistências estruturais dos diferentes Estados-membros.

O problema da Europa não é a falta de poupança, mas a falta de instrumentos de captação de poupança e de instituições instrumentais que façam chegar a poupança aos investidores.

Vítor Bento

Presidente da Associação Portuguesa de Bancos

Além do ceticismo sobre a arquitetura institucional da União de Poupança e Investimento, Vítor Bento desmontou também um dos argumentos mais recorrentes no debate europeu: a ideia de que a Europa não tem poupança suficiente para financiar as suas necessidades.

Para o presidente da APB, o diagnóstico está errado. “O problema da Europa não é a falta de poupança, mas a falta de instrumentos de captação de poupança e de instituições instrumentais que façam chegar a poupança aos investidores”, sublinhando ainda que “a Europa tem poupança mais do que suficiente para financiar as suas necessidades.” O verdadeiro problema, insistiu, está na intermediação: “O que é preciso é haver instrumentos de captação e de intermediação de aplicação das poupanças.”

A intervenção de Vítor Bento no fórum da APS chega num momento em que a União da Poupança e dos Investimentos ocupa um lugar central na agenda económica europeia, com a Comissão Europeia a pressionar para que os mercados de capitais do continente se tornem mais competitivos face aos dos EUA.

O ceticismo do presidente da APB é, por isso, um sinal de alerta vindo de dentro do setor financeiro: mudar o nome do projeto não basta, é preciso mudar a abordagem. A presença de Maria Luís Albuquerque no mesmo fórum, com medidas concretas em cima da mesa, sugere que essa mensagem pode já estar a chegar a Bruxelas.

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