Bondalti está “surpresa” com rejeição da OPA pela administração da Ercros

Bondalti sublinha que decisão não é unânime e assenta em "graves omissões, induções em erro e incorreções relativamente ao próprio relatório emitido pelo Conselho de administração da empresa".

A Bondalti está “surpresa” com o comunicado do conselho de administração da Ercros no qual emitiu uma posição “desfavorável” à oferta pública de aquisição (OPA) da Bondalti, que avalia a empresa em 320 milhões de euros. “A Bondalti considera que a Ercros emite um grave juízo de valor ao insinuar que a Ercros ficaria diluída e perderia a sua relevância num conglomerado muito maior cujo negócio principal não é o químico, quando tal não corresponde à realidade”, defende a Bondalti em comunicado esta sexta-feira, numa reação à comunicação da Ercros. “A indústria química tem sido o negócio fundador do Grupo José de Mello desde a sua criação em 1898. Hoje, a Bondalti é um dos líderes europeus em vendas de anilina e o maior produtor ibérico de cloro”, sublinha a empresa.

O conselho de administração da Ercros considerou que os 3,505 euros oferecidos pela empresa portuguesa “não refletem plenamente o potencial de criação de valor futuro da Ercros”. Esta avaliação não é, contudo, consensual entre os membros do board. Enquanto os três administradores, com mais de 6% do capital, dizem que vão rejeitar a OPA, uma administradora aprova a OPA e outro alerta para efeitos na ação caso a operação falhe. Uma falta de consenso que a Bondalti sublinha na sua reação.
“O comunicado ignora a falta de unanimidade na opinião dos administradores, não refletindo a opinião favorável à OPA da administradora D.ª Lourdes Vega Fernández, nem a vontade do administrador D. Eduardo Sánchez Morrondo”, lê-se.

A independente Lourdes Vega Fernández faz uma leitura favorável à oferta da empresa portuguesa, a qual defende com base na situação atual do mercado, as condições da oferta e a recomendação da Evercore. Também o vogal Eduardo Sánchez Morrondo quis deixar uma opinião individual diferente, argumentando que, no que diz respeito ao valor da ação, “o mercado reagiu de forma muito negativa a qualquer sinal de que a oferta pública de aquisição pudesse não avançar, aproximando-se do valor que a ação tinha há dois anos, de 2,5 euros”.

Através do comunicado enviado quinta-feira ao mercado, foi a primeira vez que a administração se pronunciou sobre a oferta após o regulador do mercado de capitais espanhol ter autorizado a operação, no passado dia 10 deste mês, após um longo processo que dura há quase dois anos, desde que a companhia detida pelo grupo José de Mello lançou, em março de 2024, uma OPA sobre a totalidade do capital da Ercros, oferecendo uma contrapartida de 3,505 euros [ajustada ao pagamento de dividendos], um valor que avalia a empresa em 320 milhões de euros.
A Bondalti manifestou “a sua surpresa ao constatar que a Ercros, através da comunicação realizada aos meios de comunicação, procedeu a graves omissões, induções em erro e incorreções relativamente ao próprio relatório emitido pelo Conselho de administração da empresa”. Entre eles está o facto de a administração da gigante espanhola ter contratado a Evercore para avaliar a contrapartida oferecida pela empresa portuguesa, a qual emitiu uma avaliação na qual considera o preço da OPA “razoável“. A Bondalti sublinha, por seu turno, que a Evercore disse que o preço era “justo”.
O conselho de administração da Ercros alertou ainda que a OPA prevê “alterar a estrutura financeira do grupo” e que a Ercros “aumente o seu nível de endividamento nos próximos anos”. Um aviso que a Bondalti considera que não tem fundamento porque “uma parte significativa dos bancos que financiam a OPA são também financiadores atuais da Ercros, conhecendo assim perfeitamente o seu balanço”. “No prospeto submetido à CNMV, a Bondalti reconhece a sua intenção de alterar a atual política de dividendos da Ercros e reduzir a distribuição de dividendos aos acionistas devido a considerações estratégicas e financeiras”, apontava ainda o conselho de administração da Ercros. A Bondalti contrapõe que “a Ercros atualmente já não distribui dividendos e que a sua política atual de dividendos exige condições financeiras que a empresa está longe de cumprir neste momento”.
O sucesso da OPA está sujeito à aceitação de, pelo menos, 50% do capital, mas no que depende dos trabalhadores tem luz verde. No âmbito das obrigações legais de informação aos trabalhadores, o board recebeu, a 12 de fevereiro de 2026, um parecer favorável das secções sindicais maioritárias da CCOO e da UGT na Ercros, um aspeto que a Bondalti sublinha na sua reação. “Os sindicatos, principais representantes dos trabalhadores da Ercros, apoiam a OPA por considerarem que pode contribuir para reforçar a estabilidade, a viabilidade industrial e o futuro dos trabalhadores num contexto complexo, tanto para a Ercros como para a indústria química europeia”, recorda a empresa do Grupo José de Melo.
Nesse documento, os representantes dos trabalhadores consideram que a operação pode ter impacto positivo na viabilidade futura da empresa, valorizam os compromissos de manutenção do emprego e das condições laborais, destacam a preservação da atividade industrial e do compromisso territorial e entendem que a integração num grupo industrial de maior dimensão pode reforçar a estabilidade da empresa num setor estruturalmente cíclico.

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