Fórum Económico Seguros. “Se o Fundo de Catástrofes não for criado desta vez, nunca será”
Em cenário pós tempestades um painel de gestores de topo dos seguros em Portugal falou sobre as oportunidades e ameaças para o setor. E, neste Fórum da APS, até um sismo aconteceu durante a sessão.
O Fórum Económico Seguros, organizado esta quinta-feira pela Associação Portuguesa de Seguradores (APS), juntou quatro gestores de topo dos seguros em Portugal num painel incluído no tema do encontro “A geoeconomia: como a geopolítica interfere na economia e o reflexo no setor segurador”.

O painel reuniu Teresa Brantuas, da Allianz Portugal, Pedro Carvalho, da Generali Tranquilidade, Isabel Castelo Branco, da BPI Vida e Pensões, e Rogério Campos Henriques, da Fidelidade, sob a moderação de José Galamba de Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Seguradores (APS).
Com vários temas tratados, o otimismo moderado predominou, mas a esperança de, finalmente, o desejado Fundo de Catástrofes Naturais, anteriormente fundo sísmico, ter finalmente o momento certo para se concretizar foi quase certeza dos participantes. Para confirmar profecias, depois das tempestades, ainda aconteceu um sismo em Lisboa, justamente enquanto decorria a conferência.
Como disse Rogério Campos Henriques: “Se o Fundo de Catástrofes não for criado desta vez, nunca será”.
“90% da descarbonização a fazer pela Allianz está no portfolio de investimentos”
Teresa Brantuas, CEO da Allianz em Portugal, foi questionada por José Galamba de Oliveira sobre as políticas de investimento sustentáveis da seguradora, uma das maiores investidoras institucionais de mundo. “Essa responsabilidade é muito mais indireta que direta, resulta dos nossos ativos”, explicou Teresa Brantuas, “85% a 90% daquilo que nós temos que descarbonizar vem do nosso portfólio de investimento”.
A profissional considera a sustentabilidade uma responsabilidade muito grande porque também conduz as empresas em que investem a terem um plano de sustentabilidade de transição. “Vamos ao mercado à procura dos investimentos que servem dentro da nossa estratégia de asset allocation e vemos, para além dos ratings de crédito e outros indicadores, qual o seu rating ESG”.
Não considera difícil de atingir os mínimos pré-determinados de rating ESG na carteira de investimentos porque a Allianz conta maioritariamente com obrigações. “As obrigações são fáceis de gerir tendo em conta as maturidades das novas emissões e então vamos aumentando o portfólio com títulos das empresas que cumprem critérios ESG”, diz, enquanto um forte rácio de solvência ajuda a investir em ativos de maior risco.
Catástrofes Naturais ou, mais genericamente, alterações climáticas a transição verde e ainda transformação digital, são outros setores de ação da seguradora alemã, mas também a oferta de produtos seguradores. “Temos que ter os produtos certificados em muitas dimensões e uma delas é a questão da sustentabilidade”, refere a CEO, “temos uma grelha ambiciosa com 16 critérios de taxonomia na União Europeia, e juntamos cinco da própria Allianz”.
Pedro Carvalho: “Os incentivos estão invertidos”
De Pedro Carvalho, CEO da Generali Tranquilidade, José Galamba procurou saber a opinião sobre o novo papel das seguradoras agora direcionadas para investimentos de mais risco como em startups e em habitação e se a mudança nos requisitos de capital pode condicionar essas decisões.
“Os requisitos de capital não são necessariamente uma varinha mágica que orientará o investimento”, disse o CEO, “a indústria seguradora europeia tem aproximadamente 15 biliões de euros em ativos sob o gestão e só temos requisitos de capital nulo para financiar a dívida pública dos Estados”.
A verdade, diz Pedro Carvalho, é que “estruturalmente, se eu comprar obrigações ou ações de uma petrolífera cotada o custo de capital é muito menor do que para uma empresa que está a lançar parques fotovoltaicos mas ainda não está cotada”. Segundo o CEO, em 6 anos “fez-se muito pouco e, portanto, diria que é particularmente relevante, mas hoje temos os incentivos em alguns setores de longo prazo. No entanto, os requisitos de capital estão exatamente a promover o curto prazo, a dívida pública e empresas cotadas estabelecidas”.
Outro ponto salientado foi a contribuição do setor segurador para investimentos no setor imobiliário. Pedro Carvalho lembrou que tradicionalmente as seguradoras foram um grande investidor no imobiliário em Portugal e que ainda hoje os grupos seguradores internacionais são grandes senhorios, assim existam condições regulatórias, regras, políticas, leis e tribunais a funcionar.
“O que está a acontecer, principalmente em países do sul e em concreto em Portugal, é o Grupo Generali estar a investir em imobiliário comercial, porque no habitacional é muito complicado. É um bloqueio específico que o mercado português tem. Já não acontece o mesmo noutros mercados europeus, onde a presença é forte e onde as regras são relativamente claras e aceitas por todos”, disse.
Isabel castelo Branco: Por um sistema de contas de investimento que englobe fundos e seguros
Isabel Castelo Branco, CEO da BPI Vida e Pensões, comentou a Savings and Investments Union (SIU), lançada pela União Europeia em março de 2025 e que pouco antes – na abertura da conferência da APS – tinha sido defendida pela Comissária Maria Luís Albuquerque. “Deixou perdidas as seguradoras em alguns pontos” disse, “no fundo, dá um enfoque grande a produtos de investimento e deixa, propositadamente, os produtos de seguros fora”, criticou.
“Em Portugal era de todo o interesse, pela forma como o mercado está estruturado e pela forma como os produtos funcionam, para todas as entidades, clientes, supervisores e companhias, que se criasse um sistema público de contas de investimento que englobassem fundos e seguros”, porque, disse, “simplificava a regulamentação, nivelava o level playing field e simplificava muito para os clientes também”, disse.
No final, a CEO da BPI VeP, acha que atualmente “estamos no bom caminho”, mas também avalia que a SIU ainda vai demorar tempo. “Se conseguirmos implementar tudo, entre o autoenrolment (fundos de pensões empresas) e, sobretudo, o Pension Tracking System (portal agregador com todos os rendimentos para a reforma), vamos dar às pessoas uma tangibilidade, uma ideia muito concreta do que é que podem fazer, das alternativas que têm, para lá do discurso atual”.
“Ficou à vista a enorme lacuna de proteção por seguros que existe em Portugal”
Rogério Campos Henriques, CEO da Fidelidade, começou por focar a atenção no último comboio de tempestades e como ficou à vista a enorme lacuna de proteção (protection gap) em Portugal. “Agora já toda a gente sabe, aparentemente, que 50% das casas não têm seguro, mas nós andamos a dizer isso há décadas e nunca ninguém quis saber”, acentuou o CEO.
Passando para a necessidade de se constituir rapidamente o Fundo de Catástrofes Naturais, o CEO reafirmou que deve ser um sistema misto, “um sistema partilhado entre as seguradoras, o Estado e seguradoras internacionais, devendo ser um sistema que permita alargar o nível de proteção que existe em Portugal, das pessoas, das famílias, das empresas, pois como já vimos, existe um protection gap enorme”. Lembrou ainda que “nós falamos muito das casas, mas todos percebemos que as empresas têm mais seguros, claro, mas – por exemplo – poucas têm a cobertura de perda de exploração para começarmos a perceber como é que se gere o risco em Portugal”, disse.
Mais à frente, Rogério Campos Henriques afirmou ser “o setor segurador uma plataforma estratégica da nossa economia, porque garante continuidade, estabilidade, previsibilidade, permite recuperar situações que são totalmente mais negativas e, portanto, nós temos de caminhar para essas capacidades e aplicá-las nos gaps de proteção nas habitações e nas empresas mas também no sistema complementar de pensões”.
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