Governo lamenta regresso da “instabilidade” nas tarifas, mas pede às exportadoras que não desistam dos EUA

Secretário de Estado da Economia critica “mais instabilidade em cima de um processo que parecia ter ganho alguma estabilidade”, garantindo alinhamento com Bruxelas, que pede “total clareza” a Trump.

Em resposta à decisão do Supremo Tribunal dos EUA, que invalidou a maioria das tarifas impostas pelo Presidente norte-americano, Donald Trump anunciou uma tarifa global de 15% para todos os países, com a Comissão Europeia a pedir ao líder americano “total clareza” sobre o que pretende fazer. Alinhado com Bruxelas, o Governo português defende que as vantagens negociadas no verão passado devem manter-se, incluindo aquelas conseguidas para “alguns segmentos e setores, e que nos posicionaram melhor com isenções ou com direitos aduaneiros mais reduzidos”.

“Depois de termos tido um período de instabilidade até agosto do último ano e quando as empresas definitivamente perceberam qual o acordo alcançado com a União Europeia, temos aqui uma nova realidade. Será que vai ser uma flat rate para todos? Se for os 10% é uma realidade, se forem 15% será outra. As isenções para alguns setores mantêm-se ou não? Vamos ficar mais ou menos competitivos face a outros blocos?”, questionou João Rui Ferreira, secretário de Estado da Economia.

Em declarações aos jornalistas durante uma feira do calçado em Milão, o governante frisou que “a certa altura, mesmo com as tarifas de 15% estávamos mais competitivos do que alguns blocos asiáticos”. “Vamos aguardar com alguma tranquilidade para ter uma visão clara sobre isto”, completou, notando que a posição de Lisboa nesta matéria “tem de ser sempre concertada ou, pelo menos alinhada com a Comissão Europeia”, que tem a competência exclusiva nos acordos comerciais.

Estamos muito atentos. O que menos queríamos agora era mais instabilidade em cima de um processo que parecia ter ganho alguma estabilidade.

João Rui Ferreira

Secretário de Estado da Economia

“As palavras da CE foram claras. O acordo deve ser mantido. Até porque protege uma negociação longa que foi feita para alguns segmentos e setores, que nos posicionaram melhor com isenções ou com direitos aduaneiros mais reduzidos. A posição portuguesa vai ser ao lado da CE nesta matéria, aportando a nossa visão nos circuitos próprios, que é nos conselhos europeus para o comércio externo. Estamos muito atentos. O que menos queríamos agora era mais instabilidade em cima de um processo que parecia ter ganho alguma estabilidade”, lamentou.

Preferindo a “prudência” numa fase em que “ainda não conseguimos entender perfeitamente” o que está em cima da mesa, o que justifica “nesta fase ter uma posição mais conservadora e expectante”, João Rui Ferreira frisou que “independentemente do que acontecer – e [esperar] que seja vantajoso para a Europa enquanto bloco -, os EUA são um mercado para o qual as empresas portuguesas devem continuar a olhar com atenção”, por comprar a Portugal um “mix de produtos que tipicamente é onde está muitas vezes a rentabilidade e o valor acrescentado”.

Legislação laboral “não é contra ninguém”

Depois de uma ronda por algumas das 39 empresas que compõem a delegação portuguesa na MICAM, onde os sapatos portugueses tentam ‘trepar’ a montanha olímpica das exportações, João Rui Ferreira notou que a revisão da legislação laboral não foi um tema abordado esta manhã com os empresários do setor, mas assegurou aos jornalistas que “o Governo continua empenhado nesta reforma” e que a negociação “está em curso”.

A ministra do Trabalho está esta segunda-feira reunida com a UGT e com as quatro confederações empresariais para discutir as alterações à lei laboral, num encontro sem a participação da CGTP. Em Itália, o secretário de Estado sustentou que “é preciso olhar para o tema numa lógica de aumento da produtividade” e que este “não é um acordo contra ninguém, mas para fazer crescer a economia portuguesa num contexto altamente competitivo e com muitas variáveis não só no mercado interno, mas globais”.

“Vamos ver o que é os próximos tempos nos trazem. Hoje quero focar-me no mercado. Porque se tivermos mercado e se tivermos clientes, depois temos a obrigação de encontrar as soluções no país. Hoje é [para] posicionar Portugal como um grande exemplo de inovação, sustentabilidade, design e valor para a nossa economia”, concluiu o governante.

João Rui Ferreira e Luís Onofre visitam o stand da Tentoes Trekking, marca de calçado técnico do grupo Carité.

Nos stands que visitou, acompanhado pelo embaixador de Portugal em Itália e por Luís Onofre, presidente da associação do setor (APICCAPS), João Rui Ferreira ouviu José Moura, da Calsuave, queixar-se de como “é cada vez mais complicado” conseguir comprar stocks de matérias-primas em tempo útil ou como o consumo de calçado decresceu depois da pandemia da Covid-19.

Na Mazoni, que trouxe à feira a marca Dark Collection, o secretário de Estado trocou breves impressões com o maior importador de calçado português na Sérvia, que elogiou a “qualidade” dos sapatos que compra a empresas nacionais há mais de duas décadas. Já nos stands da gigante Carité prolongou-se um pouco mais a conhecer as novidades no segmento moda e de calçado profissional.

Reinaldo Teixeira, dono da empresa que em 2020 ganhou o primeiro concurso para produzir 100 mil pares de botas militares para a NATO, contou ao governante que acaba de fechar um primeiro contrato na Suécia para fornecer sapatos de segurança, com a encomenda a acumular já 20 mil pares.

Por outro lado, sobre a subcontratação de componentes no Norte de África e na Índia, que o setor está a “aprofundar”, o empresário de Felgueiras reconheceu que está a comprar cerca de 20 mil gáspeas por ano em Marrocos, mas que só o faz por falta de mão-de-obra em Portugal. A alternativa seria pagar horas extraordinárias com um custo proibitivo, como fez questão de assinalar ao membro do Governo.

(O jornalista viajou para Itália a convite da APICCAPS – Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos)

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