Luís Neves já tomou posse como novo ministro da Administração Interna e afasta conflito de interesses por passado ligado à investigação criminal

O até agora diretor nacional da PJ foi empossado como ministro da Administração Interna. Em declarações aos jornalistas, afastou conflito de interesses por passado ligado à investigação criminal.

Luís Neves, até agora diretor nacional da Polícia Judiciária, foi empossado esta segunda-feira como ministro da Administração Interna pelo Presidente da República, substituindo Maria Lúcia Amaral, naquela que é primeira mudança no segundo Governo de Luís Montenegro.

“Eu, abaixo assinado, afirmo solenemente pela minha honra que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas!”, declarou durante a cerimónia da tomada de posse.

Em declarações aos jornalistas, o novo ministro da Administração Interna, Luís Neves, afirmou que decidiu aceitar funções após sentir o “apelo” para “abraçar este novo projeto”, numa altura em que se encontrava a poucos meses de concluir a carreira como diretor nacional da Polícia Judiciária.

Reconhecendo os desafios crescentes colocados pela criminalidade e pela evolução tecnológica, nomeadamente na área da Administração Interna, Luís Neves admitiu tratar-se de “uma decisão difícil”, mas sublinhou o orgulho em representar todos os profissionais das forças de segurança.

O novo diretor nacional destacou que o papel da liderança da Polícia Judiciária não passa pela investigação direta dos processos. “O diretor nacional não investiga ninguém. O seu papel é organizar e garantir meios para que a instituição funcione”, afirmou, acrescentando ter aceite o cargo com tranquilidade e plena consciência das responsabilidades. O novo ministro da Administração Interna descartou assim qualquer possível conflito de interesses ao passar agora para o Executivo.

Luís Neves garantiu sentir-se “completamente tranquilo” quanto às funções que agora assume, assegurando que continuará a trabalhar para dotar os profissionais das melhores condições operacionais. Segundo explicou, trabalhar na Administração Interna significa apostar “na antecipação e na prevenção”, reforçando o espírito de colaboração interna.

“Conto com todos os homens e mulheres, em todas as estruturas”, afirmou, apelando à cooperação institucional e territorial. Natural da Beira Baixa, com ligações ao Alentejo, destacou ainda o conhecimento da realidade do interior do país e a importância do trabalho conjunto com os autarcas: “Sei o que é o interior do país. Conto com todo o poder local, com todos os autarcas”.

O responsável deixou também uma mensagem de abertura ao diálogo: “Que ninguém se sinta dono de nada. Cooperação é o princípio essencial.” Depois de ouvir críticas e propostas nos últimos dias, garantiu que manterá uma postura humilde e disponível para integrar contributos positivos.

“Todas as propostas construtivas serão abraçadas e tidas em conta. Espero ter tempo e capacidade para escutar todas as pessoas”, concluiu.

Numa curta cerimónia na Sala dos Embaixadores do Palácio de Belém, em Lisboa, também tomaram posse os três secretários de Estado do Ministério, que se mantêm no cargo. Paulo Simões Ribeiro, Telmo Correia e Rui Rocha foram reconduzidos como secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna, secretário de Estado da Administração Interna e secretário de Estado da Proteção Civil respetivamente, transitando da equipa de Maria Lúcia Amaral.

O substituto de Maria Lúcia Amaral

Luís Neves foi escolhido pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, para substituir Maria Lúcia Amaral, que se demitiu de ministra da Administração Interna depois da onda de críticas à forma como atuou e geriu a resposta à depressão Kristin, que assolou o país no final de janeiro.

Na quinta-feira, na Assembleia da República, durante o debate quinzenal, o primeiro-ministro assegurou que o sucessor de Maria Lúcia Amaral entraria em funções já nesta semana, mas a rapidez do processo causou alguma surpresa.

Declarou então no Parlamento, em resposta a perguntas do líder do Chega, André Ventura: “Na próxima semana, o Governo terá a sua recomposição completamente estabelecida com uma proposta que farei ao senhor Presidente da República”.

Logo nessa ocasião, por outro lado, o primeiro-ministro sinalizou que esta iria ser a única mudança que faria na sua equipa governativa, que iniciou funções a 5 de junho do ano passado.

Maria Lúcia Amaral pediu a demissão no passado dia 10, na sequência da passagem da depressão Kristin pelo território nacional continental, que causou vítimas mortais e uma grande devastação, sobretudo na região Centro.

Do ponto de vista político, a sua atuação estava a ser contestada pelos sindicatos representativos das polícias, por bombeiros e, após as tempestades, por autarcas e, principalmente, pelos partidos da oposição.

Na nota oficial sobre a sua demissão referia-se que Maria Lúcia Amaral entendeu “já não ter as condições pessoais e políticas indispensáveis ao exercício do cargo”.

O primeiro-ministro assumiu transitoriamente a pasta da Administração Interna.

A constitucionalista Maria Lúcia Amaral assumiu a pasta da ministra da Administração Interna a 5 de junho 2025, com a posse do XXV Governo, depois de ter estado oito anos à frente da Provedoria de Justiça, instituição responsável por receber queixas de cidadãos que vejam os direitos fundamentais violados.

Rendeiro, ETA, skinheads e terrorismo, o longo currículo de Luís Neves

Luís Neves, de 56 anos, licenciou-se em Direito e estava na Polícia Judiciária desde 1995, onde se destacou enquanto coordenador da Unidade Nacional de Luta contra o Terrorismo. Saltou para a ribalta com a captura de João Rendeiro, ex-líder do BPP condenado por crimes económicos, na África do Sul.

Em junho de 2018, o líder da PJ, até então coordenador da Unidade Nacional de Luta contra o Terrorismo, tomava posse para o seu primeiro mandato, sucedendo a um dos históricos que ocupou o cargo durante uma década, Almeida Rodrigues. A verdade é que essa sucessão foi pacífica, aplaudida no interior da polícia. Porque era então a segunda vez, nos últimos anos, que um homem “do terreno”, da própria instituição (não magistrado), que conhecia e conhece a PJ a fundo, liderava este órgão de polícia criminal.

Nos últimos anos foi responsável por casos relacionados com a ETA, com os skinheads ou com assaltos a caixas multibanco (ATM) com recurso a material explosivo. Começou na Direção Central de Combate ao Banditismo como inspetor onde esteve 13 anos, passou a coordenador em 2006, subiu a diretor-adjunto um ano mais tarde e, posteriormente, tornou-se diretor desta estrutura, que, com a redesignação orgânica na PJ, foi renomeada Unidade Nacional de Combate ao Terrorismo, da qual foi o primeiro líder. Atualmente, já vai no segundo mandato como diretor nacional (reconduzido em maio deste ano).

Luís Neves ingressou na força policial assim que terminou a licenciatura em Direito e já depois de um estágio em advocacia. Esteve sempre ligado ao combate ao crime violento e ao terrorismo.

No seio da polícia e mesmo “para fora” é considerado um dos maiores especialistas de Portugal em questões de terrorismo e crimes transnacionais, sobretudo os de natureza mais organizada e violentos. Internamente, ficou também associado às investigações à extrema-direita, à vaga de explosões em caixas multibanco ou às máfias de leste. Pelos seus pares, é considerado um profissional com uma postura de homem pragmático, do terreno, de acompanhar as investigações, focado no trabalho e imune a pressões.

Incêndios, reforma da Proteção Civil, SIRESP, forças de segurança e o controlo de fronteiras nos aeroportos são os dossiês mais prementes com que terá de lidar.

(Notícia atualizada com as declarações de Luís Neves)

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