“A pirâmide vai mudar”. Big Four dividem-se sobre o futuro dos cargos
A digitalização começou a mudar o modelo centenário através do qual as empresas de consultoria e auditoria organizam os seus profissionais - e até pode revirá-lo.
O esquema de talentos nas Big Four está organizado numa pirâmide de hierarquias onde o maior número de profissionais – embora com menores responsabilidades – se encontra na base. A digitalização começou amiúde a mudar este modelo centenário e pode até revirar a forma como as empresas de consultoria e auditoria organizam os seus profissionais.
“A pirâmide vai inverter-se”, garante ao ECO o presidente do conselho de administração da KPMG Portugal sobre a estrutura hierárquica que se consolidou ainda no século passado. Nasser Sattar prevê que, à medida que a implementação de inteligência artificial [IA] se intensifica, haverá “maior necessidade de experiência e olhar crítico”, o que requer que estas empresas ponderem ter staff de topo em maior número e com valências diferenciadoras.
“É óbvio que a pirâmide vai mudar, porque neste momento temos uma pirâmide em que existem muitos recursos ao nível de séniores, depois camada de managers e diretores e depois os sócios (partners). Nós recrutamos cerca de 250 licenciados todos os anos para criar a pirâmide. Evidentemente, no futuro, vamos ter que reapreciar toda esta conjuntura à luz da evolução da utilização da IA no nosso negócio. Não tenho grandes dúvidas”, afirmou Nasser Sattar.
Na visão do chairman da KPMG Portugal, este novo paradigma não terá consequências apenas na “área de auditoria e de consultadoria, mas em todos os setores”, porque “daqui a cinco anos o mundo que vivemos será totalmente diferente”.
Recrutamos cerca de 250 licenciados todos os anos para criar a pirâmide. No futuro, vamos ter que reapreciar toda esta conjuntura à luz da evolução da utilização da inteligência artificial no nosso negócio.
O tema voltou à agenda mediática assim que a Deloitte se começou a preparar, nos Estados Unidos, para esta transformação dos recursos humanos na era da IA. A partir do próximo mês de junho, a Deloitte EUA vai mudar a estrutura de cargos e despedir-se do (apenas) consultant, analyst, manager ou partner. Cada um(a) terá uma ‘família’ mais específica, como senior consultant de gestão de projeto.
A reforma abrange ainda a inclusão de um cargo novo de “líderes” no quadro, como noticiou a Business Insider. Para os outros colaboradores, entre os quais analistas, analistas séniores, consultores, consultores séniores, gestores e gestores séniores, terão funções mais específicas. Ou seja, daqui a três meses, terão uma referência a uma “família de cargos” e “subfamília”. Por exemplo, um senior consultant tornar-se-á senior consultant de “transformação funcional”, “engenheiro de software” ou de “gestão de projeto”.
O objetivo é “modernizar a arquitetura de talentos para proporcionar uma experiência mais personalizada, que reflita a vasta gama de competências dos nossos profissionais e o trabalho que realizam”. Em Portugal, apesar deste plano da homóloga norte-americana, a Deloitte não planeia reproduzir este plano. O mesmo se passa na EY Portugal, sabe o ECO. Contactadas, as duas firmas recusaram comentar o assunto.
A PwC Portugal também não tem planos para alterar a nomenclatura interna dos cargos, mas admite criar outras “áreas ou designações” se nascerem postos de trabalho com incumbências diferentes. “Mantemos a estrutura atual. Naturalmente, o surgimento de novas funções ou atividades poderá levar à criação de áreas ou designações próprias, mas apenas para funções diferentes das atuais”, referiu fonte oficial da PwC.
Surgimento de novas funções ou atividades poderá levar à criação de áreas ou designações próprias, mas apenas para funções diferentes das atuais.
As Big Four estão conscientes de que o que pode ser automatizado será automatizado e veem-se obrigadas a valorizar o fator diferenciador dos auditores e consultores para manter – e quiçá intensificar – a relevância do seu trabalho.
Segundo a revista Harvard Business Review, o debate sobre o efeito da IA na consultoria tem oscilado sempre entre dois extremos: quem defende que a tecnologia tornará os consultores obsoletos e quem garanta que só os fará mais indispensáveis. No entanto, ambos falham na conclusão de que a “consultoria não está a desaparecer”, mas a ser “fundamentalmente remodelada”.
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