Presidente do Tribunal de Contas alerta para perigos da desinformação. “O verdadeiro desafio é construir uma transparência qualificada”

Presidente do Tribunal de Contas defende que o desafio contemporâneo "não é escolher" entre a transparência e o controle da informação, mas sim apostar na contextualização e literacia.

A presidente do Tribunal de Contas, Filipa Urbano Calvão, alertou esta terça-feira para os riscos da desinformação, considerando que a disponibilização de dados deixou de ser condição suficiente para a sua correta interpretação. Neste sentido, defendeu a importância da contextualização da informação e da promoção da literacia.

A transparência continua a ser indispensável, mas já não é suficiente. O problema não reside na abertura da informação, reside na suposição de que a informação, uma vez publicada, é automaticamente compreendida, contextualizada e interpretada de forma rigorosa“, disse a responsável do Tribunal de Contas (TdC).

O problema não reside na abertura da informação, reside na suposição de que a informação, uma vez publicada, é automaticamente compreendida, contextualizada e interpretada de forma rigorosa.

Filipa Urbano Calvão

Filipa Urbano Calvão falava na conferência “Transparência orçamental em tempos de desinformação: o papel das instituições orçamentais independentes”, realizada pelo CFP na Gulbenkian, em Lisboa, numa intervenção na qual defendeu que a transparência se tornou “uma exigência democrática incontornável“.

Importa reconhecer que o contexto em que essa transparência opera se alterou profundamente. Num ambiente mediático, marcado pela aceleração do ciclo informativo, pela fragmentação das fontes de informação e pela crescente polarização do debate público, a simples disponibilização de dados deixou de ser condição suficiente para garantir compreensão, confiança e responsabilização“, alertou.

A presidente do Tribunal de Contas, Filipa Urbano de Sousa, durante a conferência “Transparência orçamental em tempos de desinformação: o papel das Instituições Orçamentais Independentes”, 24 de fevereiro de 2026. Hugo Amaral/ECO

Assim, para a presidente do TdC, “a transparência pode paradoxalmente tornar-se matéria-prima para a desinformação“, uma vez que “dados corretos podem ser apresentados de forma incompleta”, indicadores “tecnicamente sólidos podem ser isolados do seu enquadramento macroeconómico” ou “projeções prudentes podem ser retratadas como previsões falhadas”.

A verdade factual, em suma, pode ser instrumentalizada por narrativas seletivas. Mas o desafio contemporâneo não é escolher a transparência ou o controlo da informação. O verdadeiro desafio é construir uma transparência qualificada”, considerou, pedindo uma “transparência que contextualiza, que explica pressupostos, que reconhece limitações e incertezas e que adapta a linguagem aos canais de comunicação, tanto quanto aos diferentes públicos”.

O desafio contemporâneo não é escolher a transparência e o controle da informação. O verdadeiro desafio é construir uma transparência qualificada.

Filipa Urbano Calvão

Foi neste sentido que Filipa Urbano Calvão sublinhou que, no domínio das finanças públicas, “a transparência sem enquadramento pode gerar ruído”, tal como a “transparência sem literacia pode alimentar equívocos”, destacando o papel das organizações orçamentais independentes neste campo.

“Para cumprirem plenamente a sua missão terão de conjugar excelência técnica e clareza comunicacional, independência e reconhecimento público, rigor metodológico e pedagogia institucional. Num tempo de desinformação, a defesa da sustentabilidade das finanças públicas não é apenas uma questão de números, é também uma questão de confiança“, afirmou.

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