Presidente do Tribunal de Contas alerta para perigos da desinformação. “O verdadeiro desafio é construir uma transparência qualificada”
Presidente do Tribunal de Contas defende que o desafio contemporâneo "não é escolher" entre a transparência e o controle da informação, mas sim apostar na contextualização e literacia.
A presidente do Tribunal de Contas, Filipa Urbano Calvão, alertou esta terça-feira para os riscos da desinformação, considerando que a disponibilização de dados deixou de ser condição suficiente para a sua correta interpretação. Neste sentido, defendeu a importância da contextualização da informação e da promoção da literacia.
“A transparência continua a ser indispensável, mas já não é suficiente. O problema não reside na abertura da informação, reside na suposição de que a informação, uma vez publicada, é automaticamente compreendida, contextualizada e interpretada de forma rigorosa“, disse a responsável do Tribunal de Contas (TdC).
O problema não reside na abertura da informação, reside na suposição de que a informação, uma vez publicada, é automaticamente compreendida, contextualizada e interpretada de forma rigorosa.
Filipa Urbano Calvão falava na conferência “Transparência orçamental em tempos de desinformação: o papel das instituições orçamentais independentes”, realizada pelo CFP na Gulbenkian, em Lisboa, numa intervenção na qual defendeu que a transparência se tornou “uma exigência democrática incontornável“.
“Importa reconhecer que o contexto em que essa transparência opera se alterou profundamente. Num ambiente mediático, marcado pela aceleração do ciclo informativo, pela fragmentação das fontes de informação e pela crescente polarização do debate público, a simples disponibilização de dados deixou de ser condição suficiente para garantir compreensão, confiança e responsabilização“, alertou.

Assim, para a presidente do TdC, “a transparência pode paradoxalmente tornar-se matéria-prima para a desinformação“, uma vez que “dados corretos podem ser apresentados de forma incompleta”, indicadores “tecnicamente sólidos podem ser isolados do seu enquadramento macroeconómico” ou “projeções prudentes podem ser retratadas como previsões falhadas”.
“A verdade factual, em suma, pode ser instrumentalizada por narrativas seletivas. Mas o desafio contemporâneo não é escolher a transparência ou o controlo da informação. O verdadeiro desafio é construir uma transparência qualificada”, considerou, pedindo uma “transparência que contextualiza, que explica pressupostos, que reconhece limitações e incertezas e que adapta a linguagem aos canais de comunicação, tanto quanto aos diferentes públicos”.
O desafio contemporâneo não é escolher a transparência e o controle da informação. O verdadeiro desafio é construir uma transparência qualificada.
Foi neste sentido que Filipa Urbano Calvão sublinhou que, no domínio das finanças públicas, “a transparência sem enquadramento pode gerar ruído”, tal como a “transparência sem literacia pode alimentar equívocos”, destacando o papel das organizações orçamentais independentes neste campo.
“Para cumprirem plenamente a sua missão terão de conjugar excelência técnica e clareza comunicacional, independência e reconhecimento público, rigor metodológico e pedagogia institucional. Num tempo de desinformação, a defesa da sustentabilidade das finanças públicas não é apenas uma questão de números, é também uma questão de confiança“, afirmou.
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