Quatro anos de guerra, cinco marcas na economia nacional
A guerra na Ucrânia encareceu a vida, subiu juros e trouxe milhares de ucranianos, mas Portugal aproveitou o ciclo económico para reduzir a dívida pública para o nível mais baixo em 16 anos.
- Portugal enfrentou uma inflação histórica, levando os preços dos alimentos para níveis que hoje permanecem 35% mais elevados face ao período pré-invasão.
- Desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia que Portugal já acolheu quase 67 mil ucranianos sob proteção temporária.
- A dívida pública caiu 35 pontos percentuais nos últimos quatro anos, baixando para 89,7% do PIB no final do ano passado, o nível mais baixo desde 2009.
Era de manhã cedo em Lisboa quando, a 24 de fevereiro de 2022, as primeiras notícias confirmavam o que parecia impensável: a Rússia tinha invadido a Ucrânia em grande escala.
O que nas primeiras horas pareceu um conflito distante, a mais de quatro mil quilómetros de distância, tornou-se em poucas semanas numa crise geopolítica que não se assistia há muitos anos na Europa e que bateu na carteira de todos os portugueses — na conta da luz, nas prateleiras do supermercado e na prestação do crédito à habitação.
Portugal, uma economia aberta e profundamente integrada no mercado europeu, sentiu de forma intensa os efeitos do conflito. A invasão russa cortou o fornecimento de gás e cereais que vinham do leste europeu durante várias semanas, pressionou os preços da energia a nível global e obrigou o Banco Central Europeu (BCE) a uma resposta nunca vista: a mais rápida subida de taxas de juro da sua história para tentar controlar a taxa de inflação, que em outubro de 2022 atingiu os 10,14%, o valor mais elevado em quase 30 anos. O custo de vida disparou e os portugueses sentiram isso na carteira como nunca tinham sentido em três décadas.
Quatro anos depois, algumas das cicatrizes já foram absorvidas. A inflação voltou para perto da meta de 2% do BCE, os juros dos contratos de crédito à habitação desceram e Portugal aproveitou o crescimento económico para reduzir a dívida pública a mínimos de décadas. Mas nem tudo voltou ao ponto de partida: o cabaz alimentar custa hoje 35% mais do que antes da guerra, e os juros, embora mais baixos, continuam longe dos valores negativos que tornaram o crédito barato durante anos.
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Inflação: um máximo de 30 anos
Em 2022, a taxa de inflação média anual em Portugal fixou-se em 7,8%, o valor mais elevado desde 1992, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE). O choque foi transversal: os produtos energéticos subiram 23,7% e os alimentos não transformados 12,2%. Em outubro desse ano, a variação homóloga chegou aos 10,14%, um número que muitos portugueses tinham deixado de ver nos noticiários, sendo necessário recuar a junho de 1992 para encontrar algo semelhante.
A partir de 2023, o ciclo inverteu-se progressivamente. A inflação abrandou para 4,3% em 2023, e para 2,4% em 2024. Em 2025, estabilizou nos 2,3%, muito próxima da meta dos 2% do BCE. A viagem de regresso à normalidade foi feita — mas os preços absolutos não voltaram ao ponto de partida. A inflação acumulada destes quatro anos pesa no poder de compra das famílias.
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Cabaz alimentar: 35% mais caro em quatro anos
A memória mais concreta da inflação fica inscrita nos preços dos alimentos. O cabaz de 63 produtos essenciais monitorizado pela DECO Proteste custava cerca de 188 euros no início de 2022. Em fevereiro de 2026, o mesmo cabaz supera os 253 euros, uma subida acumulada de 65 euros, ou 35%, em quatro anos.
Desde o início deste ano, o cabaz já registou uma subida adicional de 4,7%, com a alimentação a pesar mais no orçamento das famílias. Há semanas em que os preços descem ligeiramente, mas a tendência de fundo é de pressão persistente. Uma família portuguesa gasta hoje, nos bens essenciais do supermercado mais de 60 euros por mês do que gastava antes da guerra. Uma diferença sentida, especialmente para os agregados com rendimentos mais baixos.

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Crédito à habitação: montanha-russa da prestação da casa
Poucos indicadores traduziram tão visivelmente o impacto da guerra nos bolsos dos portugueses como as taxas Euribor. A 3 de janeiro de 2022, a taxa Euribor a 12 meses cotava nos -0,499%, permanecendo negativa há anos, reflexo de uma política monetária ultra-acomodatícia do BCE. Com a guerra a acelerar a inflação na Europa, o BCE foi forçado a agir: em julho de 2022, iniciou o ciclo de subidas de juros mais rápido da sua história.
O impacto foi imediato e expressivo. Em setembro de 2023, a Euribor a 12 meses ultrapassou os 4,2% pela primeira vez em 15 anos. Em Portugal, onde a maioria dos créditos à habitação é indexado à taxa variável, as prestações dispararam para máximos históricos. Só com o BCE a inverter o ciclo em 2024 e 2025 é que o alívio chegou: a 2 de janeiro de 2024 a taxa ainda estava nos 3,532%, mas dois anos depois, a 2 de janeiro de 2026, caiu para 2,245%. Um alívio, mas ainda muito acima dos valores negativos que marcaram a era pré-guerra.
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Refugiados ucranianos: Portugal como porto seguro
A tragédia humana da guerra também chegou a Portugal. Em apenas seis semanas após a invasão, mais de 27 mil cidadãos ucranianos tinham pedido e obtido proteção temporária em Portugal, segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), dos quais 9.648 eram menores. A vaga de chegadas intensificou-se ao longo de 2022, e em fevereiro de 2023 o total já se aproximava dos 60 mil, segundo os dados do SEF.
Quatro anos depois, os dados mais recentes do Eurostat apontam para que Portugal acolha quase 67 mil ucranianos ao abrigo do estatuto de proteção temporária da União Europeia, colocando o país na 13.ª posição entre os 27 Estados-membros com mais cidadãos ucranianos sob proteção temporária. No entanto, é o 18.º país da União Europeia com o maior peso desses cidadãos face à sua população total, contabilizando-se no final do ano passado 1.000 residentes por apenas 6 ucranianos sob proteção, que compara com os 9,7% da média dos países da União Europeia.

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Dívida pública: o melhor resultado em décadas
Na frente das finanças públicas, os últimos quatro anos foram de uma recuperação notável no plano do endividamento da República. Em 2021, a dívida pública portuguesa era de 125,4% do PIB, ainda marcada pelas cicatrizes da pandemia. Em 2022, com o crescimento económico, o rácio desceu para 113,9%, o valor mais baixo em 12 anos.
A trajetória não travou. Em 2025, o Banco de Portugal confirmou que a dívida pública caiu para 89,7% do PIB, superando mesmo a meta do Governo, que apontava para 90,2%. Uma descida de mais de 35 pontos percentuais em quatro anos, que colocou o rácio no valor mais baixo dos últimos 16 anos. Para ter em perspetiva: em 2020, no pico da pandemia, a dívida tinha tocado os 134,9% do PIB.
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