Como Daciano da Costa se tornou uma marca e chegou onde nenhum português tinha chegado

Lina Santos,

Desenhava do pavimento ao teto e deixou obra sobretudo em instituições públicas e hotéis. Graças ao seu atelier, está hoje na coleção Vitra e, de novo, em espaços públicos.

Inês Cottinelli, Atelier Daciano da CostaHugo Amaral/ECO

Uma exposição retrospetiva na Fundação Gulbenkian e o catálogo dessa exposição chegaram às mãos do arquiteto neerlandês Rem Koolhas, em 2002, no momento em que ele procurava design português para o interior da Casa da Música, no Porto. Descobriu o português Daciano da Costa, as suas cadeiras Alvor e, nesse momento, foi possível ver como o trabalho do ‘designer total’, conhecido por desenhar do pavimento ao teto, podia “existir e coexistir noutros ambientes que não tinham sido pensados por Daciano, e resultar”, diz a filha, Inês Cotinelli Telmo.

Começava aqui, nos últimos anos da sua vida, um novo capítulo da sua carreira que se prolonga até aos dias de hoje, com reedições da suas obras, a presença em hotéis, branded residences como a Aroeira Collections by Missoni, e a chegada à coleção Vitra.

Daciano da Costa (1930-2005), fundador da licenciatura de Design, existe para lá do nome e da importância entre designers e estudantes de design. Tornou-se parte da memória coletiva graças à presença em lugares como a Fundação Calouste Gulbenkian, a Reitoria da Universidade de Lisboa, do Coliseu dos Recreios à Biblioteca Nacional ou nos escritórios portugueses com a mesa Cortez, produzida massivamente pela Metalúrgica da Longra.

A sua carreira de mais de 40 anos fez-se sobretudo no espaço público até que Inês Cotinelli Telmo, uma das suas cinco filhas, se ter dedicado a trabalhar, preservar e reeditar a obra de Daciano da Costa, mantendo vivo o atelier com o seu nome, agora instalado na Rua Arriaga, 2, em Lisboa.

O hall de entrada é uma pequena exposição, com o sofá Penta azul ao centro, variações da cadeira Peninsular à esquerda, sob uma fotografia da sala de reuniões da reitoria, e modelos da cadeira Alvor à direita.

A cadeira Alvor, em várias versões, no Atelier Daciano da CostaHugo Amaral/ECO

A Alvor, pensada inicialmente para o hotel com o mesmo nome, no Algarve, é uma das reedições de Daciano da Costa que mais projeção tem tido. Foi a primeira obra de um designer português a entrar na coleção Vitra e tem sido trabalhada por vários arquitetos para várias obras.

“Nós abrimos essa oportunidade de fazerem com a cor que querem, com o estofo como querem”, explica. Um desses casos é justamente o do condomínio e hotel Aroeira Collections by Missoni, que contará com outras reedições de Daciano da Costa – a poltrona Penta, pensada originalmente para o hotel lisboeta, estofada com o icónico ziguezague Missoni, mesas BNU e a cadeira do Casino Park Hotel. Outros projetos previstos passam pela Comporta e Alcácer do Sal.

As reedições de Daciano da Costa foram produzidas em Portugal e seguindo as indicações precisas do autor – a fidelidade ao original é o que as distingue. Seja nos detalhes que todos veem, seja naqueles que só Inês Cotinelli Telmo, mergulhada na documentação deixada pelo pai, pôde perceber, como o assento, a densidade da espuma de um sofá, as molas, o empalhamento de uma cadeira Super Ligeira ou a curvatura dos braços de uma cadeira do Casino Park Hotel. O atelier é garantia de autenticidade e detém a marca Daciano da Costa.

Inês Cotinelli Telmo começou em 2013, em casa, com fotocópias do Forte de Sacavém (onde está, em regime de comodato, parte do espólio do Daciano da Costa) e criou uma equipa responsável pelo arquivo e investigação sobre o arquivo, prototitagem, projetos como o vídeo que levou Daciano da Costa e o também designer António Garcia de volta a Osaka para a feira mundial, comunicação e até o packaging das porcelanas de Daciano da Costa que estão nas lojas dos museus.

Ao centro a cadeira da reitora da Universidade de Lisboa, sob a foto da sala de reuniões, e duas versões da cadeira Peninsular, produzida pela AdicoHugo Amaral/ECO

O outro compromisso do atelier é o trabalho com indústrias locais, como a Adico. “Estou muito contente com esta parceria, porque reflete muito também a vontade do meu pai”, diz, lembrando a estreita colaboração de Daciano da Costa e da Metalúrgica da Longra que deu a mesa Cortez a tantos e tantos escritórios de Portugal.

“É juntar uma indústria nacional de peso com o design nacional”. Criar massa crítica, “entregar em boas mãos o meu pai” e “ter aquele modelo de negócio do modelo de direitos de autor” – o mesmo modelo que segue a Vitra, a empresa autorizada a manufaturar as cadeiras de Charles e Ray Eames, por exemplo.

“A recetividade relativamente à obra de Daciano é sempre um motivo de entusiasmo para nós e um motor, não é?”, diz Inês Cotinelli Telmo. “Estas peças dizem qualquer coisa. E não é só por serem de Portugal, porque eu acho que isso depois tem muito a ver, não é? Isso é um bocado a nossa memória coletiva. Isso aproxima-nos a todos destas peças”, diz.

Mas há um imponderável. “Isso não diz nada à Vitra, não é? No entanto, eles gostam”. No final de 2022, veio a confirmação, as cadeiras Alvor e Quadratura passam a fazer parte da coleção de design do Vitra Museum e Daciano da Costa foi o primeiro português a consegui-lo. Antes já tinha sido incluído na coleção do Centro Pompidou, em Paris.

"Os objetos são vestígios do modo de vida. E o excepcional não era o que se procurava, era o familiar com um toque do inesperado.”

Daciano da Costa, designer

O modernista que era Daciano da Costa “traz sempre essas correntes internacionais, mas com sabor local”. Um exemplo claro está numa das estantes mais altas do atelier e chama-se Superligeira, uma cadeira de madeira empalhada – e hoje, nas suas edições especiais usando materiais novos.

Parece a cadeira que todos tiveram em casa dos avós até olhar de perto e encontrar o “inesperado” de que falava Daciano da Costa. “O Daciano é muito criativo, sério, não procura o excecional, mas procura uma racionalidade com esse toque que lhe dá a diferença, ou pela cor, ou pelo toque”. Nos seus objetos notam-se “as mãos do marceneiro”, como ele mesmo dizia.

Manter o atelier, fazer nascer a marca

Daciano da Costa morre em 2005, pouco depois da Casa da Música, três anos depois da grande exposição na Gulbenkian. “Ele em vida percebe que tem que organizar o seu trabalho e deposita, assina um contrato de comodato com a DGPC e vai tudo para o forte de Sacavém, ou quase tudo”, diz Inês Cotinelli Telmo. Faltava comunicar a obra de Daciano. Em 2010, parte do acervo foi em depósito para o MUDE – Museu do Design.

“Percebi nessa altura que estava tudo muito disperso e que havia necessidade de arrumar a casa. Mas isso só veio depois em 2013 quando a irmã mais velha, a arquiteta Ana Costa, decide dissolver a sociedade e Inês, que usa o apelido da mãe, Teresa, e é neta do arquiteto Cotinelli Telmo, decide assumir os custos e manter o atelier Daciano da Costa, reunindo documentação, publicações, o que saiu na imprensa, desenhos…

“A primeira coisa foi fazer um rascunho, aqueles rascunhos quase desenhados, mentais, de como é que eu ia pegar nisto, quais eram os temas importantes”, conta.

“Comecei em casa. Foi a primeira coisa que fiz, foi correr, ir aos sítios de todas as obras do meu pai, perceber o que é que existia. A Gulbenkian conhecemos, que é um espaço familiar, o Coliseu dos Recreios, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil é magnífico, está intacto. Olhar para as fotografias de há 50 anos e ir lá agora, está igual. É absolutamente maravilhoso. Nos hotéis é diferente”, diz. Resta pouco, mas a investigação continua.

Inês Cottinelli com a foto do pai, Atelier Daciano da CostaHugo Amaral/ECO

Como filha, conta o detalhe: “É sempre muito divertido perceber que os anos passaram, dos anos 60 aos 70 nascem cinco filhas e são grandes anos de enorme produtividade. Nós percebemos que a motivação de ser pai e a responsabilidade de ser pai também o obrigou a trabalhar bastante”. São dessa altura, a reitoria, a linha Cortez, o mobiliário BNU, a Biblioteca Nacional, a Gulbenkian, o Hotel Alvor…

“Eu pego neste processo e de uma forma sem qualquer plano financeiro, como as pessoas quando fazem um business plan, não tinha nada. Tinha uma enorme vontade de perceber o que é que podia fazer e se havia relações e temas pendentes”, diz Inês, arquitecta paisagista de formação, antiga coordenadora do Euro 2004.

“A primeira coisa foi registar a marca Daciano da Costa para tudo o que era mobiliário, retirar a arquitetura, com o objetivo de “comunicar a obra de Daciano da Costa”. A nível internacional ninguém conhecia.

“Ele entrou na coleção permanente do Pompidou em 2015. Lembro-me de ir ao Pompidou com um catálogo debaixo do braço, ainda em português, porque ainda não o tinha em inglês, e foi fácil. É fácil apresentar o Daciano quando estamos com profissionais da matéria, porque eles entendem imediatamente de que é que se trata, não é? Apresentei várias peças de mobiliário, estavam disponíveis para doação e foi assim que a poltrona Boroa 2 foi para o Pompidou”, conta Inês Cotinelli Telmo.

Em 2022 entra na coleção permanente da Vitra com a cadeira Alvor e a cadeira Quadratura. “Também foi um processo muito fácil, muito rápido, nunca entram duas cadeiras do mesmo autor, foi único”, diz a filha.

“Fui parar às mãos da Susanne Graner e foi um processo com uma tranquilidade e um entusiasmo em conhecer a obra que foram comoventes. Escolhemos as duas em conjunto em videocall quais eram as peças que deveriam ir para a Vitra. E foi a cadeira Alvor, que graças a Deus já tínhamos reeditado, porque não tínhamos nenhum original e uma cadeira Quadratura, já na versão do CCB.

Hoje, há 12 reedições de peças do designer e Daciano da Costa é uma marca do presente. Criada em Portugal.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.