Estado da União. Cinco frases que marcaram o discurso mais longo de Trump

  • Joana Abrantes Gomes
  • 25 Fevereiro 2026

Num discurso em ano de eleições intercalares, Donald Trump teceu elogios ao estado da economia após o seu regresso à Casa Branca e tomou os louros sobre as ações militares na Venezuela e no Irão.

Numa altura em que o preço dos bens e serviços continuam a estar nas principais preocupações dos norte-americanos, que culpam as políticas da Casa Branca – particularmente o aumento das tarifas aduaneiras –por piorar a sua situação económica, Donald Trump passou não anunciou novas políticas para reduzir o custo de vida, optando antes por se gabar de que os Estados Unidos “estão de volta” e que alcançou uma “reviravolta histórica”.

Desde os já habituais elogios aos supostos feitos na economia e na diplomacia, mas deixando de fora questões como a onda de protestos contra a sua política migratória, os ficheiros relacionados com Jeffrey Epstein e a Gronelândia, o Presidente norte-americano discursou perante o Congresso durante 1 hora e 48 minutos. O ECO analisa cinco frases daquele que foi o discurso sobre o Estado da União mais longo da história recente dos EUA, num ano que será marcado pelas eleições intercalares agendadas para novembro.

“A inflação está a cair a pique. Os rendimentos estão a subir rapidamente. A economia, em forte expansão, está a crescer como nunca antes.”

No fim de semana, o Presidente norte-americano antecipou que a economia estaria em destaque no discurso sobre o Estado da União. E assim foi. Trump começou por comparar a situação atual do país com a de há um ano, antes do seu regresso à Casa Branca, dizendo que herdou uma inflação “em níveis recorde”.

De facto, o Índice de Preços no Consumidor (IPC) subiu significativamente durante os dois primeiros anos do mandato de Joe Biden, atingindo um pico de 9,1% em junho de 2022, após a invasão russa da Ucrânia.

No entanto, contrariamente ao que Donald Trump afirmou na noite de terça-feira, este não foi um recorde. Segundo o BBC Verify (programa de fact-checking da estação britânica BBC), o valor mais alto da inflação nos EUA ocorreu em 1920, quando alcançou os 23,7%. Também foi mais elevada em alguns momentos nas décadas de 1970 e 1980.

O ritmo da inflação diminuiu desde que Trump assumiu o cargo no ano passado. De acordo com o Bureau of Labor Statistics, a inflação (externa, ou seja, resultante de choques globais) foi de 2,4% nos 12 meses até janeiro de 2026, abaixo dos 3% registados em janeiro de 2025, mas, ainda assim, acima da meta de 2% estabelecida pela Reserva Federal dos EUA.

Outros aspetos que elogiou do primeiro ano do seu segundo mandato incluíram a lei de redução de impostos com isenções para rendimentos provenientes de gorjetas e horas extras, as contas “Trump” para recém-nascidos e ainda o mercado de ações em alta.

Embora tenha afirmado que a sua Administração “conseguiu uma transformação como ninguém jamais viu”, apelidando-a de “uma reviravolta histórica”, com a economia “a crescer como nunca antes”, a verdade é que a economia norte-americana cresceu 2,2% em 2025 — devido, em boa parte, ao shutdown recorde no outono –, ficando abaixo dos 2,4% de 2024 e dos mais de 3% de 2023.

Como refere uma análise do Wall Street Journal, esta está longe de ser a “nova era de ouro” prometida por Trump durante a campanha eleitoral, mas também é melhor do que muitos analistas esperavam após a implementação das tarifas no ano passado.

“As tarifas vão substituir substancialmente o sistema moderno de impostos”

Dias depois de o Supremo Tribunal dos EUA ter revogado as tarifas “recíprocas” impostas por Donald Trump, por considerar que excedeu os seus poderes, o Presidente norte-americano suavizou a sua retórica, referindo-se à decisão como “infeliz” e “dececionante”, enquanto olhava para quatro dos nove juízes que estavam sentados na plateia a assistir à sua intervenção.

Não obstante, serviu-se do discurso desta terça-feira — dia em que entrou em vigor, por 150 dias, a nova taxa global de 10% — para anunciar que vai instituir novas tarifas sob “estatutos legais alternativos”. Embora admita que o novo regime aduaneiro pode ser mais “complexo”, Trump disse acreditar que terá mais poder de permanência.

Não será necessária uma ação do Congresso. Já foi testado e aprovado ao longo do tempo e, com o passar do tempo, acredito que as tarifas, pagas por países estrangeiros como no passado, substituirão substancialmente o sistema moderno de impostos sobre o rendimento, aliviando um grande fardo financeiro sobre as pessoas que amo”, afirmou.

Segundo descreve a BBC, ouviram-se murmúrios entre os congressistas presentes quando Trump disse que as taxas estavam a “funcionar bem”. “Até os democratas sabem disso”, atirou.

Contudo, vários estudos sobre o impacto das novas tarifas impostas por Trump em 2025, incluindo um da Reserva Federal de Nova Iorque divulgado no início de fevereiro, sugerem que o custo destas taxas se tem repercutido nas empresas e famílias norte-americanas, e não absorvido por países estrangeiros ou empresas internacionais.

“Como Presidente, procurarei a paz onde puder, mas nunca hesitarei em confrontar as ameaças à América onde quer que seja necessário”

Num momento em que os EUA equacionam um ataque ao Irão – e com a Base das Lajes, nos Açores, envolvida na polémica –, o líder da Casa Branca afirmou que procurará a paz onde puder, mas garantiu que “nunca hesitará em confrontar as ameaças à América onde quer que seja necessário”.

No discurso, Trump admitiu “querer chegar a um acordo” com Teerão e que a sua preferência “é resolver esse problema através da diplomacia”, sendo que os negociadores norte-americanos irão encontrar-se com os iranianos para novas conversas de última hora em Genebra, na quinta-feira.

O Presidente norte-americano assegurou, ainda assim, que não permitirá que o Irão obtenha uma arma nuclear: “Não ouvimos aquelas palavras secretas: ‘Nunca teremos uma arma nuclear'”.

Contudo, algumas horas antes do discurso de Trump, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, repetiu a promessa de que o Irão “nunca irá desenvolver uma arma nuclear, sob nenhuma circunstância”, numa publicação na rede social X.

Para as autoridades dos EUA, o problema nunca foi a retórica do Irão, mas sim as evidências, reunidas ao longo de anos, de que o país aparentava estar a testar componentes que seriam usados na fabricação de armas nucleares, segundo o jornal The New York Times.

Ainda no âmbito da política externa, Trump tomou para si os créditos pela operação militar na Venezuela, que levou à captura de Nicolás Maduro – aproveitou, aliás, esse momento para conceder a Medalha de Honra ao sub-oficial Eric Slover, piloto de helicóptero na missão para prender o presidente venezuelano deposto –, bem como pelos acordos de paz em Gaza e na fronteira entre a Índia e o Paquistão, e também pelo encerramento da fronteira entre os EUA e o México para impedir a entrada de imigrantes e drogas ilícitas.

“Guerra contra a fraude” e redução dos preços da energia

Entre as poucas medidas anunciadas pelo Presidente dos EUA ao longo das quase duas horas de discurso, destaca-se a declaração de “guerra contra a fraude”, a ser liderada pelo vice-presidente JD Vance, que justificou alegando a existência de corrupção em programas federais e em estados liderados pelos democratas.

Por outro lado, o líder republicano abordou as preocupações dos norte-americanos com a possibilidade de a energia utilizada pelos centros de dados de inteligência artificial poder “aumentar injustamente” as suas contas de eletricidade. De modo a que “os preços não aumentem para ninguém”, anunciou o “novo compromisso de proteção dos contribuintes”, segundo o qual as gigantes tecnológicas estão “obrigadas a suprir as suas próprias necessidades de energia”.

Trump apelou ainda ao Congresso para que aprove as normas relativas à identificação dos eleitores na Lei SAVE America — uma medida que pode prejudicar os eleitores de baixo rendimento e as mulheres casadas — e para pôr fim ao voto por correspondência sem justificação.

O Chefe de Estado norte-americano apresentou ainda o seu plano de saúde, o “Great Healthcare Plan”, mas forneceu poucos detalhes além do conceito. “Quero parar todos os pagamentos às grandes seguradoras e, em vez disso, dar esse dinheiro diretamente às pessoas para que possam comprar os seus próprios cuidados de saúde, que serão melhores e a um custo muito menor”, revelou.

“Este deveria ser o meu terceiro mandato”

Quando falava sobre a redução do preço dos medicamentos sujeitos a receita médica, alegando que se tornaram “os mais baixos” do mundo, Donald Trump afirmou que essa conquista aconteceu “no [seu] primeiro ano do segundo mandato, que deveria ser o [seu] terceiro mandato”. “Mas coisas estranhas acontecem”, rematou.

Estes comentários inquietaram alguns dos congressistas na plateia, tendo em conta o ataque ao Capitólio que marcou a transição de poder do republicano para o ex-presidente Joe Biden, que venceu as eleições de 2020 com 51,3% dos votos. No dia 6 de janeiro de 2021, quando o Senado se preparava para certificar a vitória de Biden na sequência das eleições presidenciais de 2020, apoiantes de Trump invadiram escritórios do Governo, agrediram agentes policiais e alguns foram mesmo fotografados a vaguear pela sala do Senado.

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