Ex CEO da Airbus considera “erro estratégico” Alemanha construir caça com França
Berlim optar por um projeto nacional corre o risco de se tornar uma “gigantesca má alocação de recursos”, alerta Tom Enders, ex CEO da Airbus, uma das empresas envolvidas Future Combat Air System.
O antigo CEO da Airbus, Tom Enders, considera que a decisão da Alemanha de avançar há nove anos com a França para a construção de um caça europeu de nova geração foi um “erro estratégico”. Berlim optar por um projeto nacional corre o risco de se tornar uma “gigantesca má alocação de recursos”, alerta.
Enders — que liderou a Airbus e a sua antecessora EADS entre 2005 e 2019 — considera que a decisão do Governo alemão em 2017 de avançar com a construção de um caça europeu de nova geração com França, em vez do Reino Unido, foi “motivado principalmente pela deceção política com o Brexit”, disse o antigo CEO da Airbus, uma das empresas envolvidas no projeto Future Combat Air System (FCAS), juntamente com a Dassault, citado pelo Financial Times (artigo em inglês/acesso reservado).
“Em retrospetiva, isso foi um erro estratégico”, considera. “Deveríamos ter mantido e fortalecido o nosso relacionamento com a BAE Systems [do Reino Unido]. Tivemos mais de 50 anos de cooperação bem-sucedida no desenvolvimento de aeronaves de combate com o Reino Unido”, afirma o antigo gestor que, atualmente, preside ao Conselho Alemão para Relações Externas e faz parte da administração da empresa de defesa alemã Helsing (unicórnio da área de drones) e da fabricante de tanques KNDS.
Enders não é o único a questionar a decisão tomada por Angela Merkel, na época a líder da Alemanha. Recentemente, o chanceler Friedrich Merz também lançou dúvidas sobre o projeto, considerando que o mesmo não serve os interesses das Forças Armadas alemãs. “Os franceses precisam de uma aeronave com capacidade nuclear na próxima geração de aviões de combate; nós, da Bundeswehr [Forças Armadas] alemã, não precisamos disso agora”, disse. “Agora surge a questão: temos a força e a vontade de construir duas aeronaves para esses dois perfis de requisitos objetivos diferentes, ou apenas uma?”, questiona.
“A França só quer construir uma coisa e quer alinhá-la praticamente às especificações de que precisa. Mas não é isso que precisamos”, refere ainda o chanceler alemão, frisando que não se trata de uma “disputa política”, mas uma questão técnica. “Por isso, não se trata de uma disputa política, mas sim de um problema real no perfil de requisitos. Se não conseguirmos resolver isso, não poderemos manter o projeto”, apontou no podcast Machtwechsel, citado pelo Financial Times (artigo em inglês/acesso reservado).
Uma posição que representa um verdadeiro balde de água fria no projeto de 100 mil milhões de euros envolvendo a Alemanha, França e Espanha, para mais que, entretanto, foi notícia, com base em fontes, de que a Alemanha estaria a equacionar reforçar a frota com a compra de mais F-35, aeronaves de combate da americana Lockheed Martin.
Mas para Enders a Alemanha avançar sozinha para um projeto industrial nacional seria outro erro. Não só não iria “contribuir nada” para a eficácia militar do país, como arriscava a transformar-se numa “gigantesca má alocação de recursos”.
“Acabaríamos com um projeto de prestígio nacional que drenaria os orçamentos de defesa por décadas e não contribuiria em nada para a eficácia de combate da Força Aérea, nem mesmo a médio prazo”, considera Enders.
Uma parceria com a britânica BAE — que está a construir um caça com a italiana Leonardo e a japonesa Mitsubishi Heavy Industries — poderia ser uma “alternativa provada e válida” para salvar o projeto FCAS ou com a SAAB, que tem os caças Gripen.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})
Ex CEO da Airbus considera “erro estratégico” Alemanha construir caça com França
{{ noCommentsLabel }}