O cenário catastrófico causado pela IA que abalou os mercados esta semana
Um artigo publicado pela Citrini Research causou fortes oscilações nos mercados, descrevendo como poderá ser a economia em 2028 face à crescente aceleração da inteligência artificial.
- Um texto produzido por uma empresa pouco conhecida terá estado na origem das quedas nas bolsas na passada segunda-feira.
- O cenário pessimista imagina como poderá ser o mundo em 2028 perante os avanços da inteligência artificial.
- A Citrini Research antecipa como a taxa de desemprego nos EUA poderia ultrapassar 10%, castigando as profissões intelectuais.
“A taxa de desemprego registou 10,2% esta manhã, um valor 0,3% acima do esperado. O mercado caiu 2% com este número, elevando a perda acumulada do S&P para 38% em relação aos máximos de outubro de 2026.” É a partir deste ponto que se desenha um cenário que nos transporta para junho de 2028, mostrando como o mundo poderá estar nessa altura.
A perspetiva em causa, publicada pela Citrini Research, empresa fundada por James van Gleek, na plataforma de newsletters Substack no domingo, não é uma previsão. É, sim, uma hipótese sobre o que poderá acontecer no futuro com a aceleração da inteligência artificial (IA), especialmente no que diz respeito à utilização de agentes autónomos.
Até aqui, o trabalho deste analista pouco conhecido poderia parecer irrelevante. Mas, na segunda-feira, os mercados, e em particular as empresas tecnológicas, sofreram fortes quedas nas suas ações — o que, de acordo com a imprensa financeira internacional, está intimamente ligado à publicação desse texto. Um texto que assustou Wall Street.
Várias empresas de software encerraram a sessão com perdas significativas, com a IBM à frente, afundando 13% naquele que foi o seu pior dia desde 2000. Não foi a única má notícia para a IBM: além deste cenário descrito, a Anthropic anunciou que conseguiria modernizar a linguagem de programação COBOL com a ajuda de IA, sendo esta uma das linguagens mais antigas e ainda amplamente utilizada pela IBM.

Da substituição dos humanos ao ‘PIB fantasma’
Voltando ao cenário imaginado pela Citrini Research, a empresa detalha como poderá ser o futuro, explorando as possíveis consequências económicas e sociais da expansão da IA. “O único objetivo deste texto é modelar um cenário que tem sido relativamente pouco explorado”, lê-se. Segundo os autores, em apenas dois anos, os mercados iriam de uma euforia com a inteligência artificial a uma profunda crise provocada pela ascensão da tecnologia.
Na publicação, é descrito que o desemprego em massa vai disparar entre trabalhadores com profissões intelectuais, ligadas à administração e gestão. A produtividade das empresas subiria também, com robôs a superarem os humanos, uma vez que os agentes de IA “não dormem, não tiram baixas e não necessitam de plano de saúde”.
Ao longo do artigo, descreve-se uma empresa de IA que alcança avanços na área de “agentic coding”, através da qual agentes autónomos escrevem e testam códigos de programação com mínima ou nenhuma intervenção humana.
Por este motivo, um dos setores mais afetados seriam as empresas de software, uma vez que a IA passaria a programar de forma quase autónoma, gerando ganhos de eficiência para os clientes. Por outro lado, um menor número de trabalhadores implica também menos licenças de software adquiridas, criando um paradoxo com potenciais perdas financeiras para o próprio setor tecnológico responsável pelos avanços.
Temos a certeza de que alguns destes cenários não se concretizarão. Temos igualmente a certeza de que a inteligência das máquinas continuará a acelerar. O prémio da inteligência humana irá diminuir.
Outro exemplo destacado refere-se às aplicações de entrega de refeições. Neste cenário, os programadores apoiados pela IA poderiam desenvolver aplicações significativamente mais eficientes, com mais de 90% das receitas a ir diretamente para os motoristas. Contudo, este cenário é rapidamente relativizado no texto: “Claro que este ‘favor’ da tecnologia não durou muito, à medida que os veículos autónomos se tornaram mais comuns”, deixando implícito que, num futuro próximo, os veículos autónomos substituirão os condutores humanos.
Apesar de os autores preverem que a IA vai continuar a criar novos empregos, como engenheiros de prompts, investigadores de segurança em IA ou técnicos de infraestrutura, estes não seriam suficientes para compensar todos aqueles que perderam o emprego, e os salários seriam consideravelmente mais baixos.
À medida que os efeitos da automação e da IA se fizeram sentir na economia, começaram a surgir sinais de que nem toda a produção gerada pelas empresas se refletia no consumo real, com os autores a referirem que os analistas descrevem isso como “PIB Fantasma: produção que aparece nas contas nacionais, mas que nunca circula na economia real”.
No final do cenário da Citrini Research, é feito um balanço entre a situação atual da bolsa de Nova Iorque e a perspetiva futura face ao impacto da IA. Apesar de os mercados estarem próximos dos máximos históricos, os autores alertam que os ciclos de feedback negativos ainda não começaram e que a transformação tecnológica continuará a acelerar, diminuindo o valor relativo da inteligência humana.
“O S&P está próximo dos máximos históricos. […] Temos a certeza de que alguns destes cenários não se concretizarão. Temos igualmente a certeza de que a inteligência das máquinas continuará a acelerar. O prémio da inteligência humana irá diminuir. Como investidores, ainda temos tempo para avaliar quanto das nossas carteiras se baseia em pressupostos que não sobreviverão à década. Como sociedade, ainda temos tempo para ser proativos”, finalizam.
Embora este seja apenas um cenário hipotético, que poderia ter sido escrito por qualquer outra pessoa, é relevante sublinhar o receio e a expectativa em torno das empresas tecnológicas, especialmente devido à IA. Cada anúncio, cada frase sobre IA ou plano de investimento é analisado com atenção pelos investidores, que permanecem cautelosos e inseguros, mesmo num setor que continua a ser um dos mais valiosos nos mercados mundiais.
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