Pequenos investidores dominam negociação de ETF alavancados
A promessa de ganhos a dobrar atraiu os investidores para estes fundos cotados, mas o risco de tentar contrariar as quedas do mercado com estes ETF pode gerar perdas significativas na carteira.
- Os ETF alavancados estão a ganhar popularidade entre pequenos investidores, que já são responsáveis por cerca de 90% do volume negociado.
- Desde a pandemia, o volume de ETF alavancados cresceu 29% anualmente, com um aumento de 318% no número de fundos desde janeiro de 2022.
- Apesar do seu crescimento, os ETF alavancados não são adequados para todos os investidores, sendo recomendados apenas para aqueles que podem monitorizar as suas posições frequentemente.
Imagine que, em vez de comprar ações da Nvidia e esperar que subam, pudesse duplicar ou triplicar os ganhos – ou as perdas – de um único dia de negociação, com a mesma facilidade com que compra um fundo cotado em bolsa (conhecido como ETF) no smartphone. É exatamente isso que os ETF alavancados prometem, e cada vez mais pequenos investidores estão a tomá-los à letra.
Num trabalho de investigação publicado esta semana, conduzido pela Direxion em parceria com a Vanda Research e a The Compound Insights, é referido que os investidores de retalho são já responsáveis por cerca de 90% do volume negociado em ETF alavancados de ações individuais – produtos que, em apenas três anos de existência, já representam metade do volume de todos os fundos de ações alavancados nos EUA. É um número que revela muito sobre como o investidor individual mudou e sobre os riscos que está disposto a correr.
Para perceber como se chegou aqui, é preciso recuar à pandemia. Foi durante o confinamento de 2020 que a bolsa americana (e também as bolsas europeias) viveu uma explosão de participação de pequenos investidores, com o acesso facilitado pelas plataformas digitais e pelo tempo extra passado em casa colado ao smartphone.
O volume dos ETF alavancados, que permitem aos investidores especular numa ampla gama de ativos, cresceu mais rapidamente do que o volume de opções ou ações entre 2020 e 2025.
Os ETF alavancados, que multiplicam, por dois ou três, os ganhos ou as perdas diárias de um índice, setor ou ação específica, tornaram-se o produto favorito de quem queria exposição amplificada sem ter de abrir contas de margem ou dominar estratégias complexas de derivados.
“O volume destes fundos, que permitem aos investidores especular numa ampla gama de ativos, cresceu mais rapidamente do que o volume de opções ou ações entre 2020 e 2025”, constata o estudo, apontando para um crescimento anual de 29% desde o início da pandemia.
O fenómeno ganhou novo impulso com a chegada, em meados de 2022, dos ETF alavancados sobre ações individuais, produtos que permitem apostar, com alavancagem de duas vezes nas oscilações diárias de empresas como a Nvidia, a Tesla ou a Microsoft. O sucesso foi imediato. O número destes fundos disparou 318% desde janeiro do ano passado.
“Fundos inovadores chegaram ao mercado mais depressa do que nunca em 2025, com a lista de fundos alavancados ativos a expandir-se ao ritmo mais rápido desde 2007“, lê-se no relatório desenvolvido por Callie Cox e Marco Iachini. Segundo o estudo da Direxion, existiam 452 ETF alavancados em agosto a negociar nas bolsas norte-americanas, com ativos que ultrapassavam os 160 mil milhões de dólares.

O perfil de quem usa estes produtos surpreende pela sua concentração. Entre abril e julho de 2025, os investidores de retalho representavam apenas 5,5% do volume total negociado em ações americanas, mas eram responsáveis por cerca de 90% do volume negociado em fundos alavancados.
“Estes produtos serviram estes investidores ao democratizar o acesso a estratégias de tipo institucional em produtos que lhes estão prontamente acessíveis”, sublinham os autores do relatório.
O estudo analisa também como estes investidores se comportaram em três momentos de crise: o crash da Covid em 2020, o mercado em baixa de 2022 e a queda do mercado no “Liberation Day”, em abril do ano passado.
- Na pandemia, o volume negociado em ETF alavancados mais do que quadruplicou, com os traders a mudar rapidamente entre posições longas e curtas.
- Em 2022, o padrão foi diferente. “O volume de fundos alavancados disparou quando a queda começou. Os investidores de retalho dirigiram a sua energia para posições longas, essencialmente a lutar contra a descida do mercado bolsista”, refere o estudo. A tentativa de apanhar o fundo durou meses e, para muitos, saiu cara.
- Já a queda do mercado em abril de 2025, desencadeada pelos anúncios de tarifas do presidente Donald Trump, o chamado “Liberation Day”, foi o primeiro grande teste para os ETF alavancados de ações individuais em ambiente de stress. O S&P 500 chegou a cair quase 19%, mas os pequenos investidores não cederam. “Os investidores de retalho lutaram contra o declínio do mercado durante quase toda a queda. Durante 35 dias de negociação consecutivos, os investidores compraram fundos longos enquanto o S&P 500 caía 19%.” Nalguns momentos, as transações destes ETF chegaram a representar 40% de toda a atividade nas bolsas americanas, um recorde histórico.
A popularidade crescente destes instrumentos, porém, não deve ser confundida com adequação a todos os perfis de investimento. Os ETF alavancados são concebidos para horizontes de curtíssimo prazo, tipicamente, um único dia de negociação, e os mecanismos de reajuste diário da alavancagem podem distorcer significativamente os retornos em períodos mais longos.
O próprio estudo é claro sobre esta matéria, notando que estes ETF não são adequados para todos os investidores e destinam-se a quem tem capacidade de monitorizar e ajustar as posições com frequência. Comprar um ETF 2x da Nvidia porque se acredita no potencial da inteligência artificial a longo prazo é uma estratégia errada para o produto certo, como o relatório avisa explicitamente.
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