Qual é o papel das revistas de viagens num mundo digital?

Rafael Correia,

Num mundo digital inundado de recomendações turísticas, a confiança e a curadoria tornaram-se os bens mais valiosos do jornalismo de viagens.

Orla Thomas (National Geographic Traveller UK) Gaelle Fuzet (Le Monde Group) e Luís Meyer (Travel + Leisure Spain) debateram o tema ‘Conteúdo é Poder: quem molda o Imaginário Global’, num painel com moderação de Mafalda Anjos

Mais do que recomendar destinos, contar histórias tornou-se vital para o mundo editorial das viagens. Num panorama em que as redes sociais ocupam um papel muito relevante e a inteligência artificial vem a caminho de personalizar ainda mais as experiências, como é que publicações como a National Geographic Traveller UK, o Le Monde Group e a Travel + Leisure Spain podem manter a relevância? O tema “Conteúdo é Poder: quem molda o Imaginário Global” esteve em cima da mesa, num painel do Visit Portugal Conference 2026.

O que os nossos leitores querem é um sentido de conexão com as pessoas, isto é, histórias que a inteligência artificial não consegue ver. A conexão emocional está acima de tudo o resto”, sublinha Orla Thomas, contributing editor da National Geographic Traveller UK. Uma história que possa ser escrita sentada unicamente numa secretária nunca é o objetivo. A narrativa visual desempenha um papel nessa conexão, sendo algo que “confere à reportagem muita mais autenticidade”.

Hoje em dia o viajante não compra uma revista de viagens para ter muita informação sobre um destino“, enfatiza Luís Meyer, diretor editorial da Travel + Leisure Spain. “A nossa missão mudou agora. Temos de inspirar e levar a que os nossos leitores queiram ir para este destino“, vinca, com o destaque às narrativas na primeira pessoa e com as histórias locais a serem aquilo que faz a diferença.

Esta inspiração obedece a novos critérios. Gaelle Fuzet, diretora do Le Monde Group, sustenta que as audiências são agora “muito exigentes” e procuram recomendações validadas sobre sustentabilidade e cultura. Mais do que os locais famosos, os leitores querem descobrir “lugares escondidos” e “fora dos circuitos habituais” fugindo às multidões.

Num momento em que “todos os viajantes são criadores de conteúdo digital”, “há uma enorme oportunidade para os media tradicionais”, seja em papel, nos sites ou nas redes sociais, ao basearem a relação com os leitores na confiança e na voz das revistas, observa Orla Thomas.

Como jornalista de viagens recebo muitas pessoas a enviar-me mensagens a perguntar “já estiveste em Lisboa?” e “podes dar uma dica?”. Basicamente, o que estamos a tentar fazer com a revista é isto numa escala massiva. Precisamos de cultivar o sentido de que somos como os nossos leitores”, exemplifica.

Nesse sentido, é preciso “manter o ADN” de informar e inspirar as audiências, aponta Gaelle Fuzet como estratégia. Na sua visão, os leitores informam-se no Le Monde porque confiam na voz da publicação.

Curiosamente, o papel ganha um novo estatuto de luxo como resposta à saturação tecnológica. A mesma “fadiga digital” que leva os jovens a procurar experiências táteis em que Portugal está bem posicionado, como o artesanato ou o “turismo de mercearia” — visita a lojas locais –, impulsiona também a reinvenção das publicações

“Continuar a fazer revistas é muito revolucionário agora”, aponta Luís Meyer. A estratégia passa pela qualidade em detrimento da quantidade. “Não estamos a fazer tantas revistas, mas melhores revistas. Mais como bookazines — livros-revista –, um formato mais perto agora de livros do que de revistas”.

Orla Thomas contextualiza que a National Geographic publica sete bookazines por ano e “há um mercado real para elas”. “Mais uma vez, as revistas precisam de parecer colecionáveis. Precisam de parecer algo que podes guardar, algo que é um prazer segurar nas tuas mãos”, conclui.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Qual é o papel das revistas de viagens num mundo digital?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião