BCE fecha o ano com prejuízos de 1.300 milhões de euros, mas o pior já passou
A autoridade monetária da Zona Euro fechou 2025 com prejuízos de 1.254 milhões de euros, mas o rombo é seis vezes menor do que em 2024 e o BCE já prevê regressar ao lucro em 2026.
- O BCE encerrou 2025 com um prejuízo de 1.254 milhões de euros, marcando o terceiro ano consecutivo no vermelho.
- As perdas do BCE diminuíram significativamente em comparação com 2024, quando atingiram 7.944 milhões de euros, refletindo uma recuperação nas despesas líquidas com juros.
- O BCE prevê um regresso ao lucro em 2026, dependendo das taxas de juro e câmbio, sinalizando uma possível normalização financeira.
Quando Christine Lagarde subiu as taxas de juro de forma agressiva a partir de 2022 para travar a inflação mais alta em décadas na Zona Euro, sabia que o remédio teria um preço que pesa até hoje nas contas do Banco Central Europeu (BCE). Pela terceira vez consecutiva, o BCE terminou o ano no vermelho, fechando 2025 com um prejuízo de 1.254 milhões de euros, segundo um comunicado publicado esta quinta-feira pela autoridade monetária do Eurosistema.
Trata-se de um número significativo, mas que não coloca em causa o funcionamento da instituição. “O BCE pode operar de forma eficaz e cumprir o seu mandato primário de manutenção da estabilidade de preços independentemente de eventuais perdas”, lê-se no comunicado. A robustez financeira do banco central, sublinhada por um capital e contas de reavaliação que somam 71 mil milhões de euros, mais 12 mil milhões do que no final de 2024, garante que a credibilidade do BCE permanece intacta.
Além disso, os números apresentados esta quinta-feira contam também uma história de recuperação. O rombo é seis vezes inferior do que o registado em 2024, quando as perdas atingiram os 7.944 milhões de euros, e isso muda substancialmente o tom da mensagem que Frankfurt envia aos mercados e aos cidadãos europeus.
A despesa líquida com juros, que tinha sido de -6.983 milhões de euros em 2024, caiu para -178 milhões em 2025, uma redução de quase 7 mil milhões de euros num único ano.
A recuperação não é acidental, resulta de um mecanismo que os próprios responsáveis do BCE reconhecem no comunicado. O banco foi apanhado numa “armadilha” de estrutura financeira: comprou, durante anos, ativos com taxas de juro fixas e maturidades longas — sobretudo no âmbito dos programas APP (asset purchase programme) e PEPP (pandemic emergency purchase programme) –, mas financia-se por passivos a taxas variáveis.
Quando subiu as taxas para combater a inflação, os custos de financiamento dispararam imediatamente, enquanto os rendimentos dos ativos ficaram congelados. O próprio comunicado explica que “os aumentos das taxas de juro diretoras do BCE em 2022 e 2023 para combater a elevada inflação na área do euro aumentaram imediatamente as despesas com juros sobre os passivos, ao passo que os rendimentos de juros sobre os ativos do BCE […] não aumentaram na mesma proporção.”
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O fator que mais pesou na melhoria dos resultados foi precisamente a inversão dessa dinâmica. A taxa média de remuneração dos saldos TARGET — o sistema de pagamentos interbancários que liga os bancos centrais nacionais ao BCE — caiu de 4,1% em 2024 para 2,3% em 2025, refletindo os cortes nas taxas diretoras iniciados em 2024. A despesa líquida com juros, que tinha sido de -6.983 milhões de euros em 2024, caiu para -178 milhões em 2025, uma redução de quase 7 mil milhões de euros num único ano, o que ilustra bem a dimensão da viragem.
Houve, contudo, um elemento inesperado que impediu a recuperação total das contas do BCE: a depreciação do iene japonês. As menos-valias cambiais somaram 1.316 milhões de euros em 2025, contra apenas 81 milhões em 2024, com esta situação a ser fortemente penalizando pelo valor das reservas do BCE denominadas em ienes.
Parcialmente compensadas por ganhos cambiais realizados no reequilíbrio das reservas externas, estas perdas revelam a exposição do banco central a movimentos cambiais que escapam ao seu controlo direto, uma vulnerabilidade que merece atenção em anos de dólar forte e iene deprimido.
O salário base de Lagarde ascendeu a 492.204 euros, um aumento de 5,6% face ao ano anterior, ao qual se somou um subsídio de representação equivalente a 21% do vencimento base.
Do lado dos custos operacionais, o BCE conseguiu também alguma contenção. Os custos totais com pessoal desceram 4,1% para 809 milhões de euros, face a 844 milhões em 2024, e as outras despesas operacionais recuaram ligeiramente (1,1%) para 619 milhões de euros.
Porém, a contenção nos custos não impediu que os salários da liderança do BCE continuassem a crescer. Christine Lagarde recebeu uma remuneração total de 595 mil euros em 2025 na qualidade de presidente do BCE — acrescida de uma residência oficial disponibilizada pela instituição.
O salário base de Lagarde ascendeu a 492.204 euros, um aumento de 5,6% face ao ano anterior, ao qual se somou um subsídio de representação equivalente a 21% do vencimento base, no valor de 103.362 euros.
O BCE antecipa “regressar ao lucro em 2026 ou no ano seguinte, embora tal dependa dos níveis futuros das taxas de juro diretoras e das taxas de câmbio, bem como da dimensão e composição do balanço do BCE”, refere a instituição em comunicado.
O comunicado do BCE revela ainda que o balanço do banco central encolheu 37 mil milhões de euros, para 603 mil milhões, refletindo “a redução gradual das carteiras APP e PEPP por via de reembolsos”, num sinal claro de que a normalização monetária está em curso, com o banco central a retirar liquidez do sistema de forma progressiva.
Os prejuízos acumulados desde 2022 vão continuar inscritos no balanço do BCE, a aguardar compensação com lucros futuros, e não haverá distribuição de resultados aos bancos centrais nacionais da Zona Euro em relação a 2025. Esta situação, embora pouco habitual num banco central, não constitui, tecnicamente, um problema.
A perspetiva para os próximos anos é de regresso a resultados positivos, nota o comunicado do banco central. O BCE antecipa “regressar ao lucro em 2026 ou no ano seguinte, embora tal dependa dos níveis futuros das taxas de juro diretoras e das taxas de câmbio, bem como da dimensão e composição do balanço do BCE.”
Significa que se as taxas continuarem a descer e as carteiras de obrigações a encolher, o BCE deverá fechar 2026 no verde. Seria o sinal de que a crise de resultados aberta pela luta contra a inflação chegou, finalmente, ao fim.
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