Gestores devem ter “atitude” e plano sobre desinvestimentos, alertam chairman da Logoplaste e co-CEO da Galp
Filipe de Botton e Maria João Carioca comentaram as preocupações dos líderes empresariais expostas no CEO Survey da PwC e pediram “soft skills” e preparação para "decisões duras" de saída de mercados.

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O presidente do conselho de administração da Logoplaste e a co-CEO da Galp alertaram esta quinta-feira que todos os líderes empresariais devem ter mais soft skills (competências comportamentais) e planos de preparação para eventuais “decisões duras” de desinvestimento.
Numa análise às principais conclusões da CEO Survey, realizada pela PwC, Filipe de Botton e Maria João Carioca mostraram-se apreensivos pelo facto de a maioria das empresas portuguesas ter colocado a cibersegurança como principal resposta aos riscos geopolíticos – acima da média europeia e global.
“Dizer que os líderes veem como tema principal a cibersegurança deixa-me preocupado. Esse não devia ser um tema dos CEO. Não é que não seja uma preocupação, mas não deveria ser a primeira. Neste novo mundo, o mais importante é o tema da atitude. Seja uma empresa pequena ou grande, as soft skills são das coisas mais importantes numa empresa”, referiu o chairman da Logoplaste, Filipe de Botton.
Por outro lado, apenas 12% dos inquiridos no estudo da PwC indicaram que estariam disponíveis para sair de mercados que se tornem de risco demasiado elevado. A co-CEO e Chief Financial Officer (CFO) da Galp, Maria João Carioca, alertou para a “baixa proporção de empresas que têm processos para terminarem investimentos que não estão a ter sucesso versus o que se passa na média da Europa”.
“Chamou-me a atenção, porque é basilar para depois termos capacidade de crescer, inovar e continuar os investimentos”, começou por dizer a co-líder da Galp, recordando os tempos em que deixou a CGD para entrar na energética e acabou por, pouco tempo depois, ter de anunciar a desistência do projeto Aurora, que envolvia a construção de uma refinaria de lítio em Setúbal em parceria com a sueca Northvolt.
“Cheguei à Galp em 2023 e, provavelmente, uma das primeiras decisões de gestão que tive foi a de abandonar um investimento significativo que tínhamos, para o qual tínhamos equipas mobilizadas, dezenas de milhões investidos e em posição de serem investidos, mas os indicadores estavam lá: não ia ter o caminho inicialmente esperado e o momento era aquele para desistir”, contou a presidente executiva e administradora financeira.

A análise da PwC, que envolveu entrevistas a 73 CEO em Portugal, concluiu que as empresas nacionais priorizam a cibersegurança como principal resposta aos riscos geopolíticos (64%), mais do que a média europeia (56%) e global (47%). Perante as ameaças geoestratégicas, a maioria das prioriza o reforço da segurança informática, sendo que se denota menor propensão para medidas como a reconfiguração da cadeia de abastecimento ou ajustes fiscais, quando comparado com a Europa Ocidental e o contexto global, evidenciando uma resposta mais operacional do que estratégica.
Preocupa-me quando os processos não estão lá, porque é muito humano deixarmo-nos cativar e esperar que tenha caminho em frente, pensar no impacto negativo… São sempre decisões duras. Não haver processos para este tipo de decisões, que são pesadas, é o pior que um gestor tem de se confrontar.
Na apresentação da 29ª edição da Global CEO Survey, promovida pela PwC e pelo ECO, os oradores fizeram ainda referência ao tema dos recursos humanos das empresas, nomeadamente à escassez de talentos e à importância de reconversão do ensino nas universidades, tendo em conta este novo mundo de volatilidade internacional e desenvolvimento da inteligência artificial.

“Num mundo em transformação tecnológica, onde há ameaças do foro cibernético, ter-se literacia e sensibilidade nestas matérias é fundamental. Do ponto de vista cultural e dos programas de upskill, é importante que as pessoas estejam preparadas para a nova realidade. Passarmos da efervescência para o realismo, pragmatismo económico, avaliação do custo-benefício”, adiantou Luís Barbosa, partner da PwC, numa sessão moderada pelo publisher e diretor do ECO, António Costa.
Questões de agendas altamente complexas, de descarbonização ou digitalização, apelam a que o líder seja farol da empresa e que faça uma análise rigorosa. Os próximos três anos não me preocupam, se forem capazes de construir os seguintes cinco.
Num exercício de lembrança à fundação da multinacional, em 1976, pelas mãos do seu pai, Marcel de Botton, Filipe de Botton referiu que as empresas têm de ter capacidade de sair da zona de conforto, se “reinventarem”, mas “não se podem esquecer de que é um processo que demora anos e não acontece de repente”.

“Muitas vezes, uma estratégia é um instinto de sobrevivência”, afirmou, deixando ainda outros conselhos: estarem disponíveis para pagar salários internacionais quando o assunto é profissionais altamente qualificados, pensarem qual é o seu fator de diferenciação e expandirem além-fronteiras. Na sua opinião, o destino não devia ser Espanha, por ser um “mercado nacionalista”, mas sim os Estados Unidos.
Em Portugal somos muito agarrados às coisas. Recomendo a todas as empresas portuguesas internacionalizarem-se e irem estudar o mercado americano.
Por sua vez, Maria João Carioca optou por dar o exemplo de uma conversa que teve com alguém que, ao abordar uma empresa, se esta disser que só tem planos para o mercado doméstico “a conversa pára ali porque isso significa que dificilmente terá capital no longo prazo”. “O crescimento internacional tem de estar lá. É preciso ter presente que o crescimento pode vir de diferentes ângulos, fases de negócio em geografias” diferentes, sublinhou a autodenominada fã de disciplina e enfant terrible, menos de dois meses após anunciar o negócio da Moeve.
Questionada sobre o motivo pelo qual os CEO estão confiantes no crescimento da economia, mas descrentes no aumento das suas receitas, Maria João Carioca respondeu que tudo depende da dimensão e setor da empresa, mas pode-nos remeter para o Paradoxo da Rainha Vermelha, como na obra “Alice Através do Espelho” de Lewis Carroll.
“Correr para manter-se viável. Ter de conseguir criar valor para conseguir criar o futuro sem comprometer o presente”, sintetizou a co-CEO e CFO, indicando que os gestores poderão ter noção de que precisam de “fazer investimentos e captar recursos sem estar a crescer muito”. Até porque ainda não é hora de sentir os retornos da IA.
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