IA vai gerar “corrida impetuosa” à energia nuclear, diz Luís Amado
Ex-ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros afirma que o mundo terá de “conviver com o equilíbrio entre energia fóssil, renovável e nuclear” que é necessário para alimentar os algoritmos.
O ex-ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros Luís Amado afirmou esta quinta-feira que o desenvolvimento da inteligência artificial (IA), que envolve um elevado consumo energético, fará com que seja “irreversível” recorrer aos combustíveis fósseis e haja um aumento da produção de energia nuclear para fins pacíficos.
“A revolução da IA, que está em curso, exige infraestrutura industrial altamente dependente de abastecimento energético, portanto é irreversível o recurso ao gás e outros fósseis, porque a procura energética vai manter a intensidade à volta do tema da supremacia pela IA”, afirmou o antigo ministro socialista, referindo-se aos centros de dados.
Luís Amado defende que a retoma da produção “substantiva” de energia nuclear ainda vai demorar “o seu tempo”, mas ainda nesta década “iremos assistir, seguramente, a uma corrida impetuosa pela nuclearização para fins civis, que terá implicações grandes no campo geopolítico”.
Na apresentação do 29º Global CEO Survey, promovida pela PwC e pelo ECO, o ex-governante e antigo presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP disse que a “intensificação” das atividades relacionadas com IA nos Estados Unidos, na China e na Europa vai levar ao aumento dos consumos energéticos e dos “processos de eletrificação”. “Teremos de conviver, em relação à Agenda de Paris, com o equilíbrio entre a energia fóssil, renovável e a nuclear, que se intensificará ao longo das próximas década“, prevê.

Numa intervenção designada “Geoeconomia”, o ex-ministro com a pasta da diplomacia no Governo de José Sócrates reconheceu que “este não é um tempo de estabilidade”. “Pelo contrário, é de grande incerteza e insegurança. Este estudo reflete bem essa apreensão. Os gestores percebem que estão noutros tempos, de mudança, um novo mundo que aí vem e é necessário capacidade de gestão estratégica”, garante, remetendo para a análise da consultora às preocupações e riscos globais e nacionais.
Existem três tipos de forças de rutura que estão a modelar o sistema internacional: geopolítica, tecnologia e natureza, que não controlamos e desencadeiam dinâmicas de violência brutal sobre os sistemas humanos, económicos sociais e políticos, em particular em sociedades abertas.
Tanto a força da geoestratégia (relações internacionais) como a digitalização e o clima (alterações climáticas) “não são domináveis do ponto de vista político”. “Nenhum governo está em condições de reagir à dinâmica destas forças. O cenário é impressionante, como nunca, conjugadamente, assistimos na História humana pela transformação tão profunda que estamos a viver. São forças de disrupção”, declarou.
Segundo Luís Amado, as empresas têm de perceber que o panorama da globalização mudou e que haverá um “reajustamento” da conceção da produção, dos circuitos de distribuição e do controlo das matérias-primas e materiais críticos. “A reorganização económica far-se-á nas linhas de fratura dos blocos geoeconómicos”, referiu, recordando ainda a célebre frase “It’s the economy, stupid” (“É a economia, estúpido”) proferida na campanha de Bill Clinton às eleições presidenciais norte-americanas de 1992.
Na sua opinião, o mundo está perante um “território perigoso e inquietante” e continuará “em estado de guerra”. “O sistema internacional só estabilizará quando o vértice da estrutura económica, de transformação ou até rutura, como mencionou [Mark] Carney [primeiro-ministro do Canadá, durante o Fórum Económico Mundial em Davos] se resolver e se entenderem”.
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