Centros de dados provocam “um abanão” no sistema elétrico nacional
Especialistas entendem que o país consegue acomodar, a prazo, a instalação de grandes 'data centers', perante a massificação global da inteligência artificial. Mas isso exige investimento e pessoal.

- A 6.ª Talk .IA abordou a crescente procura por energia devido à expansão dos centros de dados em Portugal, destacando-se a necessidade de investimentos significativos nas infraestruturas elétricas.
- O país enfrenta também desafios na escassez de mão-de-obra qualificada, o que pode atrasar a implementação de projetos essenciais de data centers, que permitiriam igualmente suportar o aumento do consumo e da geração energética.
- As empresas do setor, como a Start Campus, estão a desenvolver estratégias para mitigar a pressão nas redes elétricas, tentando evitar que o crescimento não resulte em aumentos de preços para os consumidores.
A indústria dos centros de dados, aliada às novas exigências da inteligência artificial (IA), está a provocar “um abanão” no sistema elétrico nacional, dando origem a um aumento no consumo de energia que não era observado há décadas. Portugal quer atrair mais investimento nesta área, mas tal requer “saltos qualitativos de fornecimento em determinados pontos do território”. Também aqui a mão-de-obra qualificada é escassa, o que vai requerer um maior faseamento dos projetos.
Estas foram ideias fundamentais da 6.ª Talk .IA, uma iniciativa inserida na Comunidade .IA do ECO, que juntou no mesmo painel o consultor Nuno Ribeiro da Silva, antigo CEO da Endesa; Luís Rodrigues, chefe de operações da Start Campus; e Luís Miguel Figueiredo, administrador executivo da Visabeira. A grande conclusão: o país tem capacidade para ser um hub de infraestrutura de IA, mas há trabalho a fazer nas redes, seja a de transporte (REN), seja a de distribuição (E-Redes), dificultado pela falta de pessoal. Parte desses custos pode vir a ser paga pelos consumidores.
Nuno Ribeiro da Silva antevê “um aumento muito significativo e qualitativo da procura de energia”. “Temos este aumento da procura que não é discreto, não é continuado”, diz, o que também acarreta “um risco”: “Isto é um grande investimento para ir alimentar uma unidade destas que se instala algures na Marinha Grande, ou em Sines, e esse investimento praticamente dedicado a essa unidade fica muito pendente da concretização desse data center“. “É um desafio ao desenho da infraestrutura, ao risco económico no investimento, que é de facto muito significativo para levar o serviço elétrico ao local solicitado”, ressalva.
Mas estes projetos também trazem benefícios para a rede. Atualmente, os parques fotovoltaicos passam “centenas de horas por ano” com “um excesso de geração em determinadas horas, não armazenável”, o que pressiona os preços, levando-os para níveis que “não cobrem o investimento”. “Este aumento do consumo, e associado aos instaladores dos data centers privilegiarem energias de origem renovável, pode ser um desentupimento das dificuldades que têm havido em encontrar um crescimento da procura dinâmico, que suporte preços do mercado grossista por parte de geradores e, consequentemente, um racional económico de investir nesses novos centros melhor”, diz o especialista.
Não deve haver uma rua no país e um prédio que não esteja a pedir reforço de potência.
Neste contexto, ao longo dos próximos anos serão necessários grandes investimentos nas redes elétricas em Portugal, à semelhança de noutras geografias, para acautelar uma economia em crescente eletrificação e um volume muito significativo de pedidos de ligação à rede. Os consumidores poderão sentir um efeito nas suas faturas, que é díspar.
“Há a parte fixa e a parte variável. Na eletricidade, em Portugal, o mix de geração que nós temos tende a baixar o custo de geração de eletricidade. O custo de energia tende a baixar. E o custo da infraestrutura, com todos estes desafios que há — a componente fixa — tende a estar sob grande pressão. Porque para além destas situações pontuais e de grande necessidade de abastecimento, não deve haver uma rua no país e um prédio que não esteja a pedir reforço de potência”, nota Nuno Ribeiro da Silva.
“Toda a gente, todos os condomínios, todos os parques de estacionamento, de prédios, de escritórios, querem instalar 10 ou 20 carregadores. Toda a gente quer instalar bombas de calor. Toda a gente quer instalar painéis e injetar na rede”, elenca.

Por sua vez, Luís Miguel Figueiredo, administrador da Visabeira, entende que a rede elétrica nacional conseguirá dimensionar-se adequadamente para incorporar novos projetos de data centers, que são grandes consumidores de energia, mas sinaliza que “todos estes investimentos que estão a ser feitos têm por trás um planeamento”. Só isso permite acomodar todos os pedidos de ligação à rede que têm sido apresentados pela indústria, e não só a dos dados.
“A rede portuguesa, estruturalmente, está bem desenhada”, garante o gestor. “Este investimento, que nos interessa à economia e à sociedade portuguesa, até para termos valor acrescentado nos produtos internos — e, portanto, estamos a contribuir para o PIB nacional – interessa-nos cativar. A questão é a adequação e planear atempadamente, porque tudo isto obriga a um planeamento exaustivo e muito bem acompanhado”, adverte.
Quanto à resiliência das redes, depois do apagão de abril de 2025 e dos constrangimentos provocados pela depressão Kristin no final de janeiro, o responsável da Visabeira diz que, “quer ao nível da REN, quer ao nível da E-Redes, os seus rácios de indisponibilidade de serviço não programado estão entre o top 3 ou top 5 da Europa”. “Portanto estamos a falar de uma rede com resiliência, estável e que está desenhada em função da procura e consumo de energia”, assegura o gestor.
Para Luís Miguel Figueiredo, o grande desafio não serão os data centers por si só: “Neste momento há uma carência de mão-de-obra qualificada em Portugal. Os técnicos portugueses, dado o seu alto nível de qualificação, estão a ser muito aliciados para outros mercados onde estes processos estão a acontecer. Estamos a falar pela Europa fora: França, Alemanha, Dinamarca, incluindo já os nórdicos.” E remata: “A população ativa portuguesa já não chega para fazer face aos desafios.”
Os técnicos portugueses, dado o seu alto nível de qualificação, estão a ser muito aliciados para outros mercados onde estes processos estão a acontecer.
Ora, numa altura em que o país se divide entre os que defendem mais imigração e os que querem um aperto das fronteiras, o gestor da Visabeira acrescenta que a solução para o problema só pode passar por “políticas de recrutamento dessa mão-de-obra qualificada”. “Liga a todos os níveis, não só neste setor, mas principalmente neste setor, a situação do recrutamento dos países da América Latina e da África. Mas isso obriga a uma agilização dos processos de obtenção dos vistos de trabalho e, depois, criar condições de fixar essa mão-de-obra em Portugal. Porque um expatriado fica residente quando estão reunidas três condições: a situação económica, a familiar e a social. Um expatriado que vem isolado tanto está em Portugal como em Espanha como na Alemanha. É um expatriado”, defende.
Luís Miguel Figueiredo adverte ainda que as próprias cadeias de abastecimento também não são completamente elásticas para acautelar todo o aumento da procura: “Um transformador de potência de 425 MW tem um lead time [tempo de entrega] superior a 18 meses. Já nem estou a falar ao nível da distribuição, que aí as quantidades são mais exorbitantes. É preciso acautelar essa cadeia de abastecimento.”

Start Campus vai “agilizar” novos projetos de renováveis com a EDP
Em Sines, a Start Campus está a construir o principal campus de centros de dados do país. O projeto está dimensionado para uma capacidade de 1,2 GW quando estiver completamente concluído, o que está previsto acontecer entre 2030 e 2031. O Chief Operating Officer (COO) da empresa, Luís Rodrigues, dá uma referência: “1,2 GW, neste momento, seria à volta de 15% do consumo de Portugal. Se tivéssemos tudo construído à carga máxima, seríamos, claramente, o maior consumidor de Portugal.” Atualmente, o primeiro e único edifício ativo da infraestrutura tem 33 MW de capacidade, prevendo-se o arranque da construção do segundo edifício “em março”, para acomodar 200 MW.
No rescaldo da assinatura de uma parceria com a EDP, o gestor de operações da Start Campus diz que “a necessidade” de energia provocada pelo setor “existe, mas não é imediata”. “Quer dizer que nós, como empresas, podemos criar estratégias para não criar a pressão nas redes, nas cidades, nas zonas onde nós vivemos”, garante. A empresa não está sozinha nesse desígnio: “Os grandes players — Microsoft, Google, Meta e Amazon –, onde estão a ir estão já a criar estratégias de geração, de transmissão. Ninguém quer ir para um sítio onde não é bem recebido. Temos de criar estratégias para a sociedade nos receber e criar valor associado para a economia.”
Essa é também uma das pedras angulares da nova relação entre a Start Campus e a maior cotada portuguesa: “Vamos trabalhar com a EDP para mapear todo o nosso crescimento em termos de cargas, trabalhar com os nossos clientes nas suas previsões, e garantir que, à medida que vamos crescendo, vamos agilizando o desenvolvimento de novos projetos de energias renováveis. Assim, não estamos a tirar energia do mercado, mas estamos a criar é maior mercado. Por isso, não vai induzir aumento de preço ao consumidor final”, diz.
O papel destes operadores de data centers pode ir mais além, nomeadamente no investimento direto na rede: “Os projetos trazem custos, sim, e vai ter de haver aqui alguma renovação da transmissão e distribuição. Mas, por exemplo, no nosso [data center] vamos ter a nossa própria subestação. Nós só vamos ter de a ligar a dois painéis da REN. Por isso, o custo que estamos a criar na rede no nosso caso é muito pouco. Nós estamos a pagar tudo, as linhas, os painéis, a nossa subestação… Não existe aqui um custo significativo que estamos a impor no sistema”, promete.

Nesta altura, está em curso um novo procedimento para atribuição de capacidade de ligação à rede em “zonas de grande procura”, com regras diferentes das anteriores, mas a Start Campus não irá participar, revela Luís Rodrigues. Todavia, o desenho agrada à Start Campus, por ajudar a combater a “especulação” que existia no setor.
“Sinceramente, acho que está bem pensado, porque junta todos os pedidos do país e analisa-os ponto a ponto, tudo como um conjunto. E também está a impor que os investidores metam dinheiro para prestação de caução. Porque o que estamos a ver muito no setor dos data centers é que há players que querem entrar, e são muito bem-vindos, mas depois há muita especulação. Um dono de um terreno pedia 100 MW e depois vendia como um site para data centers, limitando a capacidade aos outros. Acho que, neste processo, a primeira triagem vai ser quem não tem dinheiro não vai a jogo. Acredito que vamos ver uma grande parte dos pedidos a desaparecerem”, diz.
Se tivéssemos tudo construído à carga máxima, seríamos, claramente, o maior consumidor de Portugal.
Relativamente à resiliência das redes, e depois de Portugal ter enfrentado dois incidentes com grave impacto no abastecimento elétrico — o apagão de abril de 2025 e a destruição da depressão Kristin em janeiro de 2026 –, Luís Rodrigues não se mostra preocupado, assegurando que a Start Campus confia no sistema elétrico nacional e tem a sua própria redundância, conforme exigem os próprios clientes.
“É verdade que há aqui uma parte do data center que é externa ao nosso controlo, que é a rede elétrica. Mas é por isso que temos também geradores com autonomia de 24 horas e temos acordos caso necessário para continuar o abastecimento durante o tempo que for preciso para manter o data center a funcionar. Também pode haver uma disrupção no fornecimento de diesel. Não é provável, mas pode acontecer”, confessa.
“Mas aí estamos a assumir que os clientes são parvos. Não, os clientes não são parvos e ninguém mete todos os ovos no mesmo cesto. Todos os nossos clientes quando metem cá um serviço já têm sistemas redundantes eles próprios noutras geografias. Agora, o que eles precisam é de um tempo necessário para mudar a carga e os serviços todos para essas outras geografias sem impactar o serviço final”, justifica o profissional.
A 6.ª Talk .IA do ECO inseriu-se na Comunidade .IA e contou com a participação especial do secretário de Estado da Energia, Jean Barroca.
Assista aqui à gravação do painel na íntegra:
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