Na hora da despedida, Marcelo e Costa recordam coabitação. “Nunca tive dúvidas de que éramos felizes”

A dupla que marcou a política nacional na última década reencontrou-se em Bruxelas. Com promessas de amizade para o futuro, fica o reconhecimento de quem foram "felizes" nos oitos anos de coabitação.

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República cessante, num encontro com o atual presidente do Conselho Europeu, António Costa. Outrora, os dois políticos portugueses partilharam a segunda mais longa coabitação entre São Bento e BelémEPA/OLIVIER MATTHYS

Sorridentes, cúmplices e com a certeza de que eram “felizes” e, afinal, sabiam. Foi assim que Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa surgiram em Bruxelas, no último encontro ao mais alto nível entre os dois protagonistas da política portuguesa na última década, que partilharam a segunda mais longa coabitação entre São Bento e Belém.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, está nesta sexta-feira em Bruxelas, a convite de António Costa, a menos de duas semanas de cessar funções, no dia 9 de março. A deslocação incluiu encontros com os presidentes das três principais instituições europeias: Parlamento Europeu, Comissão Europeia e Conselho Europeu. Mas o ponto alto da visita ocorreu com António Costa, com quem partilhou oito anos nos mais altos cargos da nação, coabitação apenas ultrapassada pela de Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva.

Antes de almoçarem, e depois de uma breve visita do Chefe de Estado ao edifício, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa prestaram declarações aos jornalistas e não se escusaram a fazer um balanço da longa relação, com o ex-primeiro-ministro a reconhecer publicamente o que ainda Presidente da República já tinha admitido em 2024.

Eu nunca tive dúvidas de que éramos muito felizes. A dúvida era mais de quem, contrariando o otimismo saudável, cultivava por vezes algum pessimismo menos produtivo“, atirou António Costa, ao lado de um sorridente Marcelo e antes de completar: “Acho que ficamos bem em todos concordarmos que fomos felizes, mesmo aqueles que não sabíamos que éramos, e que somos felizes“.

Acho que ficamos bem em todos concordarmos que fomos felizes, mesmo aqueles que não sabíamos que éramos, e que somos felizes.

António Costa

Palavras na hora da despedida de Marcelo Rebelo de Sousa, que em dezembro de 2024, recordava ter dito muitas vezes “a um governante” com o qual partilhou “quase oito anos e meio de experiência inesquecível”, em alusão a Costa: “um dia reconhecerá que éramos felizes e não sabíamos”.

Apesar de marcada por alguns momentos de tensão, a longa relação entre os dois foi considerada, nessa altura, pelo Presidente uma experiência “muito positiva” e, “comparado com o que vinha por aí, uma felicidade”. Apesar das funções institucionais exigirem algum recato nas considerações sobre as suas relações com Costa vs o atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, Marcelo Rebelo de Sousa nunca escondeu a sua preferência pela dinâmica política com o seu ex-aluno.

O Presidente da República reconhecia a Costa qualidades no jogo político que sempre apreciou e lhe satisfaziam a apetência para teorizar cenários. A longa relação, primeiro como professor e aluno e mais tarde em diferentes cargos na política, permitia também uma dinâmica que nunca teve com Montenegro. Por isso mesmo, perante a promessa de Costa deste ser “só um adeus institucional”, porque “do ponto de vista pessoal….”, o Presidente depressa lhe deixou o aviso: “fico mais livre para realmente ainda estar com o presidente António Costa“.

Perante a promessa de Costa deste ser “só um adeus institucional”, porque “do ponto de vista pessoal….”, o Presidente depressa lhe deixou o aviso: “fico mais livre para realmente ainda estar com o presidente António Costa”.

Num encontro revestido de simbolismo, Marcelo Rebelo de Sousa deixou assim a garantia de que “a relação do futuro é amizade”. “A amizade que existiu sempre, com lugares, sem lugares, com lugares diferentes, em condições diferentes”, disse. Mesmo com desencontros? “O que é evidente”, garantiu.

“Dentro da vida que vai ser muito ocupada do presidente António Costa, com a minha vida muito liberta, é uma questão do calendário do presidente António Costa, arranjar, assim de quando é vez, um momento, para nos encontrarmos num bom jantar ou num bom almoço“, atirou.

Antes de vincar que “não podia sair mais feliz quer das funções, quer da política“, Marcelo Rebelo de Sousa traçou rasgados elogios ao agora presidente do Conselho. “O presidente [do Conselho Europeu, António Costa] tem um grande futuro político à sua frente e espero que a Europa saiba reconhecer os seus méritos o que significa mais anos importantes no exercício desta função, o que seria muito bom para a Europa e também para Portugal”, disse.

O estar aqui com o presidente António Costa é, também para mim, uma honra e um prazer”, realçou.

Porém, como na hora da despedida, também se olha para o futuro, quando questionado sobre o Presidente da República eleito, António José Seguro, o presidente do Conselho Europeu caracterizou-o como “um europeísta de sempre, um “excelente” eurodeputado, que tem “grande compromisso” com a UE.

Portugal tem uma grande característica: independentemente dos Presidentes e dos Governos, tem uma grande continuidade na sua política externa, designadamente na sua relação com a UE. É assim desde 1986 e, seguramente, vai continuar a ser assim”, acrescentou sobre o sucessor de Marcelo de Rebelo de Sousa.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, o facto de António José Seguro, “pró-europeísta”, ter sido eleito seu sucessor “com uma maioria esmagadora” é uma “uma ótima notícia para Portugal” e prova de que o país continua envolvido na comunidade única. “O Eurobarómetro mostra que somos dos países mais pró-europeus da Europa e dos que mais alinha com as posições da Europa quanto à guerra da Ucrânia, os atos eleitorais mostram, de uma forma constante, vitória de forças políticas pró-europeísta”, exemplificou ainda o Presidente da República.

von der Leyen agradece a Marcelo liderança em dez anos conturbados

Antes do encontro com Costa, Marcelo Rebelo de Sousa esteve reunido com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que agradeceu ao Presidente da República a liderança ao longo de “dez anos turbulentos”. Numa mensagem nas redes sociais, a líder do executivo comunitário salientou ainda que o Presidente da República português “representa o espírito democrático de Portugal”.

Em momentos de serenidade, foi uma presença agregadora. Em tempos de crise, uma mão firme. Da pandemia à tragédia dos incêndios florestais, esteve junto do seu povo, com proximidade e humanidade, ouvindo, confortando e tranquilizando. A Europa beneficiou da sua sabedoria, da sua convicção e da sua humanidade“, escreveu Ursula von der Leyen.

Marcelo Rebelo de Sousa foi ainda recebido pela presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, que também através das redes sociais, agradeceu “tudo o que fez por Portugal e pelo seu empenho na Europa, pela sua liderança e amizade, e pelo seu apoio constante aos valores consagrados pelo Parlamento Europeu”.

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