A diplomacia estava viva até Trump dar a ordem de atacar Teerão

Apenas três semanas depois de Washington e Teerão descreverem as negociações nucleares de Mascate como um bom começo, os EUA e Israel transformaram a diplomacia em ruínas com bombas em Teerão.

ECO Fast
  • As Forças de Defesa de Israel lançaram um ataque preventivo contra o Irão, denominado "Operação Fúria Épica", visando eliminar ameaças ao Estado de Israel.
  • O ataque ocorre num contexto de crescente tensão, com protestos no Irão e negociações nucleares em andamento, que foram abruptamente interrompidas.
  • A situação gera incerteza global, com o risco de escalada do conflito no Médio Oriente, exigindo uma resposta diplomática eficaz para evitar uma guerra regional.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Dezenas de explosões foram ouvidas este sábado na capital iraniana pouco após o ministro da Defesa israelita, Israel Katz, confirmar que as Forças de Defesa de Israel (IDF) tinham lançado um “ataque preventivo” contra o Irão “para eliminar ameaças ao Estado de Israel”. Um ataque que já tem um nome de código: “Operação Fúria Épica”

A agência de notícias iraniana Fars reportou explosões em várias cidades, incluindo Teerão, Qom, Kermanshah, Isfahan e Karaj, numa alturam em que as comunicações no país colapsaram quase por completo.

Cerca de duas horas após o início dos ataques, Trump surgiu em vídeo publicado na rede social X referindo que “as Forças Armadas dos EUA estão a levar a cabo uma operação massiva e contínua para impedir que esta ditadura muito perversa e radical ameace a América e os nossos interesses fundamentais de segurança nacional”, sublinhando que “vamos destruir os seus mísseis e arrasar completamente a sua indústria de mísseis”, acrescentou Trump, que admitiu ainda a possibilidade de baixas norte-americanas.

O porta-voz das IDF confirmou que o ataque conjunto israelo-americano “incluiu um ataque a dezenas de alvos militares e foi executado no âmbito de um assalto amplo, coordenado e conjunto contra o regime”.

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou em comunicado que os ataques visam eliminar o que classificou como “ameaça existencial” representada pelo regime iraniano, elogiando a liderança de Trump e prometendo que a operação “continuará pelo tempo que for necessário, até completarmos a missão”. Netanyahu sublinhou ainda que o objetivo é “capacitar o povo iraniano a determinar o seu próprio futuro”.

Na sua conta do X, o primeiro-ministro israelita, além de agradecer a Donald Trump “pela sua liderança histórica”, anunciou que “chegou a hora de todos os povos do Irão — persas, curdos, azeris, baluchis e ahwazis — se livrarem do jugo da tirania e trazerem paz e liberdade ao Irão” e que Israel não pode “permitir que este regime terrorista e assassino se arme com armas nucleares que lhe permitam ameaçar toda a humanidade.”

Irão, Iraque e Israel fecharam o seu espaço aéreo logo nas primeiras horas, enquanto os Emirados Árabes Unidos, Qatar e Kuwait seguiram com encerramentos próprios.

O ministério do Interior iraniano reagiu com uma declaração de forte condenação aos ataques, acusando Washington e Telavive de terem “mais uma vez violado todas as leis internacionais” e denunciou que o ataque ocorreu “durante as negociações”, classificando os EUA e Israel de “inimigo criminoso” que “violou a nossa amada pátria”. No mesmo comunicado, ministério do Interior apelou à população iraniana para manter a calma. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, foi ainda mais contundente, classificando o ataque como “um ato de guerra”.

Na Europa, os ataques estão a ser analisados pelos governos com prudência e contenção calculada, em declarações que nem apoiam os ataques dos EUA e Israel como também não os condenam.

  • Berlim foi informada por Israel com antecedência sobre os ataques. Um porta-voz do governo alemão confirmou este sábado que o chanceler Friedrich Merz “está a acompanhar de perto os acontecimentos e encontra-se em estreita coordenação com os parceiros europeus”, numa formulação deliberadamente neutra, que não expressa nem apoio nem oposição aos ataques. Merz tem prevista uma visita a Washington na próxima semana para se reunir com Trump, o que torna a postura alemã ainda mais sensível politicamente.
  • O presidente francês Emmanuel Macron tinha igualmente sublinhado o direito de Israel à autodefesa, mas fez questão de estabelecer limites: “Não tenho qualquer intenção de participar em qualquer operação ofensiva. Esse não é o nosso papel. O apoio não é incondicional nem ilimitado”, afirmou Macron. Paris havia sinalizado, em ocasião anterior, disponibilidade para integrar operações de proteção e defesa em apoio a Israel em caso de retaliações iranianas.
  • Londres optou igualmente por uma posição de claro distanciamento. O governo britânico emitiu este sábado de manhã uma declaração a sublinhar que o Reino Unido não participou nos ataques ao Irão e que “não quer assistir a uma maior escalada para um conflito regional mais alargado”. O governo de Keir Starmer aproveitou, contudo, para recordar que o país reforçou recentemente as suas capacidades defensivas no Médio Oriente — incluindo caças F-35 e Typhoon, radares e sistemas contra drones —, uma forma de assinalar presença na região sem se comprometer com a ofensiva.
  • De Bruxelas, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, classificou os desenvolvimentos no Irão como “extremamente preocupantes” e apelou a todas as partes para “exercerem a máxima contenção, protegerem os civis e respeitarem plenamente o direito internacional”. O antigo primeiro-ministro português reafirmou o “compromisso inabalável” da União Europeia com a segurança e estabilidade regionais, sublinhando que “garantir a segurança nuclear e prevenir quaisquer ações que possam agravar as tensões ou minar o regime global de não-proliferação é de importância crítica”.

A posição destes líderes europeus espelha a difícil equação que Bruxelas enfrenta: como equilibrar a relação transatlântica com Trump, o compromisso histórico com a segurança de Israel e o apelo ao respeito pelo direito internacional, tudo ao mesmo tempo, enquanto a situação permanece em rápida evolução e o risco de alargamento do conflito a toda a região é considerado elevado por vários analistas.

Caos nos céus e o mundo em alerta

O impacto do conflito foi imediato na aviação comercial. Irão, Iraque e Israel fecharam o seu espaço aéreo logo nas primeiras horas, enquanto os Emirados Árabes Unidos, Qatar e Kuwait seguiram com encerramentos próprios. A Autoridade Geral da Aviação Civil dos Emirados Árabes Unidos anunciou o encerramento “temporário e parcial” do espaço aéreo a título de “precaução excecional”.

Companhias como a Air France, Turkish Airlines, British Airways e a Iberia cancelaram voos para Doha e Dubai, e a Kuwait Airways suspendeu todas as partidas do país.

A comunidade internacional reagiu com alarme. Israel declarou estado de emergência nacional, encerrou o espaço aéreo e ordenou o encerramento de escolas e locais de trabalho, apelando à população que se recolhesse em abrigos. O Iraque suspendeu todo o tráfego aéreo, a Índia aconselhou os seus cidadãos a acolherem-se ou a não viajarem para o Irão, e o Líbano apelou à contenção.

O contexto que desembocou neste ataque vinha a deteriorar-se desde finais do ano passado. O Irão vivia desde dezembro uma vaga de protestos anti-governamentais, espalhados por mais de 100 cidades, alimentados por uma crise económica grave e a subida galopante dos preços.

Em paralelo, Washington e Teerão tinham tentado uma saída diplomática, com as duas potências a realizarem a 6 de fevereiro negociações nucleares indiretas em Mascate, mediadas pelo Omã, sendo que ambas as partes descreveram as conversações como um “bom começo”, com uma segunda ronda prevista para Genebra.

Se a intenção declarada de Trump e Netanyahu é destruir a capacidade bélica iraniana antes que Teerão adquira o armamento nuclear que ambiciona, o Irão já deixou claro que responderá.

Os EUA exigiam o fim do enriquecimento de urânio, limites ao programa de mísseis balísticos e o corte de apoio a grupos como o Hamas, o Hezbollah e os Houthis — exigências que Teerão sistematicamente recusou. A tensão intensificou-se ao longo de fevereiro, com os EUA a mobilizarem dois grupos de porta-aviões para o Médio Oriente — o USS Abraham Lincoln e o USS Gerald R. Ford –, e Trump avisou repetidamente estar disposto a agir militarmente caso a diplomacia falhasse.

No discurso do Estado da União, a 24 de fevereiro, o presidente dos EUA acusou o Irão de ter retomado esforços para construir uma bomba nuclear, classificando as ambições de Teerão como “sinistras”. O Irão, por seu lado, havia avisado em janeiro que qualquer ação militar norte-americana, “de qualquer tipo e a qualquer nível”, seria considerada “o início de uma guerra”, com resposta “imediata, abrangente e sem precedentes”.

O ataque desta madrugada marca uma rutura sem precedentes na ordem de segurança do Médio Oriente e coloca o mundo perante um momento de incerteza profunda. As ameaças cruzadas entre Washington, Telavive e Teerão, que durante semanas pareceram contidas pela diplomacia, transformaram-se em poucas horas numa operação militar de escala histórica, cujo desfecho ninguém, por ora, consegue prever.

Se a intenção declarada de Trump e Netanyahu é destruir a capacidade bélica iraniana antes que Teerão adquira o armamento nuclear que ambiciona, o Irão já deixou claro que responderá. O verdadeiro teste das próximas horas e dias não será apenas militar, será diplomático: se o mundo conseguirá evitar que este confronto entre duas potências nucleares de facto se transforme numa guerra regional sem saída à vista.

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