A bomba que (também) ameaça explodir no bolso de famílias e empresas

O ataque dos EUA e de Israel ao Irão aperta o gatilho para a subida dos combustíveis, o agravamento da inflação e o risco sobre o Orçamento do Estado. Os estilhaços desta guerra não poupam ninguém.

ECO Fast
  • O ataque dos EUA e de Israel ao Irão desencadeou uma potencial crise no mercado petrolífero, com riscos elevados para a economia global e portuguesa.
  • O Irão, terceiro maior produtor da OPEP, controla o Estreito de Ormuz, vital para o comércio energético, com 14 milhões de barris transitando diariamente.
  • A escalada militar pode levar a um aumento significativo dos preços do petróleo, impactando a inflação e as projeções orçamentais do governo português.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Há momentos em que a geopolítica bate à porta das carteiras dos portugueses sem pedir licença. O ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irão, lançado no sábado, é um desses momentos.

Numa manhã de bombas e mísseis no Médio Oriente, o mundo acordou para o risco potencial de uma das maiores crises no mercado petrolífero das últimas décadas que, no pior dos cenários, pode fazer disparar os preços dos combustíveis, agravar a inflação, travar o crescimento global e, em Portugal, deitar por terra as projeções com que o governo de Luís Montenegro construiu o Orçamento do Estado para este ano.

O Irão, outrora o coração da Pérsia, é o terceiro maior produtor de petróleo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), com uma produção de 3,3 milhões de barris diários de crude, mais 1,3 milhões de barris por dia de condensados e outros líquidos que, no total, representa 4,5% da oferta global de petróleo.

Mas o verdadeiro poder de Teerão reside noutro lugar: na fronteira marítima com o Estreito de Ormuz, o ponto de estrangulamento mais crítico do comércio energético mundial, o que significa que o Irão controla, ou pode condicionar decisivamente, uma das artérias mais vitais do abastecimento energético do planeta.

O encerramento total do Estreito de Ormuz combinado com uma escalada militar poderá empurrar o barril de petróleo para 120 a 130 dólares, que se traduziria num aumento entre 66% e 80% face aos preços atuais do Brent.

Nas horas seguintes ao ataque, o cenário deteriorou-se com rapidez. O Irão respondeu com mísseis contra bases norte-americanas no Qatar, Kuwait, nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrain, e declarou (se bem que não formalmente) encerrada a navegação no Estreito de Ormuz.

A reação dos mercados foi imediata: vários armadores, grandes petrolíferas e casas de trading suspenderam os envios de crude, combustíveis e gás natural liquefeito (GNL) pela rota do Golfo. As seguradoras cancelaram apólices e dispararam os prémios exigidos aos navios que circulam na zona, tornando a rota, para muitos, inviável do ponto de vista comercial.

A dimensão do que está em jogo é difícil de exagerar. Pelo Estreito de Ormuz passam mais de 14 milhões de barris por dia, cerca de um terço de todas as exportações mundiais de crude transportadas por via marítima, e 20% das exportações globais de GNL. Três quartos desses barris têm como destino as grandes economias asiáticas: China, Índia, Japão e Coreia do Sul. Só a China, a segunda maior economia do mundo, recebe metade das suas importações de crude por esta via.

“Um encerramento prolongado do Estreito de Ormuz é uma recessão global garantida”, disse Bob McNally, fundador da Rapidan Energy e ex-conselheiro de energia da Casa Branca durante a presidência de George W. Bush, salientando ainda que os mercados têm subestimado sistematicamente a capacidade retaliativa do Irão. O analista acredita que, logo na abertura das bolsas na segunda-feira, o Brent pode subir 9,7% para perto dos 80 dólares por barril — uma reação inicial que poderá ser apenas o prelúdio do que aí vem.

Os grandes bancos de investimento e alguns institutos de análise económica vão mais longe nas suas projeções, apontando para que o encerramento total do Estreito de Ormuz combinado com uma escalada militar poderia empurrar o barril para 120 a 130 dólares, que se traduziria num aumento entre 66% e 80% face aos 72,48 dólares com que os contratos de futuros sobre o Brent para entrega em maio fecharam na sexta-feira.

Ziad Daoud, economista-chefe da Bloomberg Economics, recorda que “os movimentos históricos dos preços mostram que a cotação do petróleo tende a subir 4% para cada 1% de diminuição na oferta”.

A lógica por detrás desta dinâmica é brutal: os países importadores, sobretudo os asiáticos, entrariam em modo de acumulação de reservas. “Veríamos a mãe de todas as guerras de licitação”, antecipa Bob McNally, referindo-se à corrida frenética que se instalaria entre economias como a China e o Japão para garantir stocks. E o mundo não teria saída fácil: a capacidade de reserva dos países do Golfo Pérsico, a única folga que o mercado petrolífero tem, também passaria, ela própria, pelo Estreito.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Famílias e empresas na linha de fogo

Para os portugueses, os efeitos chegariam por dois canais principais: os combustíveis e a inflação. Uma subida expressiva do barril de petróleo traduz-se quase de imediato num aumento dos preços da gasolina e do gasóleo nas bombas — e, em cascata, em custos mais elevados nos transportes, na logística e nos bens de consumo.

Considerando que o Governo está a retirar progressivamente o desconto no ISP (Imposto sobre os Produtos Petrolíferos), numa eliminação gradual exigida pela Comissão Europeia, significa que a carteira dos consumidores ficará mais exposta às oscilações do mercado internacional do que nos últimos anos, com a subida do petróleo a refletir-se nos preços na bomba de forma cada vez mais direta.

Contudo, os membros do Governo também já disseram por diversas ocasiões que a reversão do desconto do ISP só deverá acontecer num momento em que o preço do crude esteja mais baixo

O choque seria também altamente inflacionista, e isso cria um dilema sério para o Banco Central Europeu (BCE). Após baixar em 200 pontos base as taxas de juro por sete descidas até junho do ano passado e há cinco reuniões consecutivas do Conselho do BCE que congela as taxas, com o intuito de estimular a economia europeia, uma nova vaga de pressões inflacionistas poderia travar ou mesmo reverter esse processo monetário.

Para as empresas portuguesas, cujas margens de lucro são já estruturalmente inferiores à média da Zona Euro, o choque seria particularmente penalizador nos setores mais expostos aos custos energéticos e de logística, como a indústria, os transportes e a distribuição, em virtude de um cenário que conjuga o pior dos dois mundos: energia mais cara e crédito potencialmente mais caro.

O Brent negoceia nos 72,5 dólares e o preço médio registado em 2026 é de cerca de 67 dólares, refletindo uma subida de 19% desde o início do ano e longe dos 65,4 dólares projetados pelo Governo para este ano.

Além das empresas e das famílias, as contas do Estado é outra vítima económica do ataque ao Irão. O governo de Luís Montenegro construiu o Orçamento do Estado para 2026 com base num preço médio do Brent de 65,4 dólares por barril, projetando uma descida de 14% face ao ano anterior.

O problema é que essa hipótese estava já estava ultrapassada antes do ataque ao Irão: o barril de petróleo que serve de referência para a Europa negoceia nos 72,5 dólares e o preço médio registado em 2026 é de cerca de 67 dólares, refletindo uma subida de 19% desde o início do ano.

Com um previsível choque petrolífero desta magnitude, o desvio em relação às projeções orçamentais poderá ser muito expressivo. Preços mais altos do petróleo pressionam a inflação, penalizam o consumo e o crescimento do PIB, e aumentam a despesa pública — desde os custos de energia do Estado à dinâmica das transferências sociais.

O excedente orçamental marginal de 0,1% do PIB previsto para este ano que consta no Orçamento do Estado para 2026 pode rapidamente transformar-se numa miragem — isto mesmo ainda sem contar com o esforço acrescido que já foi assumido pelo Governo para apoiar as populações e as regiões afetados pelas tempestades.

Face a uma disrupção desta escala, as respostas disponíveis para enfrentar um choque da oferta do ouro negro são poucas e imperfeitas. A administração Trump pode recorrer à Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA, que conta com cerca de 415 milhões de barris. A Agência Internacional de Energia (AIE) pode coordenar uma libertação de reservas entre os seus membros.

Porém, como sublinha Kevin Book, da ClearView Energy Partners, “numa crise de oferta, a duração e a escala importam. Uma crise total em Ormuz poderia superar os alívios proporcionados pelas reservas estratégicas dos EUA e dos membros da AIE.”

Existem alternativas parciais: a Arábia Saudita tem um oleoduto que liga a costa leste ao Mar Vermelho, e os Emirados Árabes Unidos têm uma infraestrutura que contorna o Estreito pelo Golfo de Omã. Mas estas rotas alternativas cobrem apenas uma fração do volume que passa por Ormuz, e não existe qualquer equivalente para o GNL do Qatar, o terceiro maior exportador mundial do combustível.

A incerteza é, por agora, a única certeza. O que acontecer nas próximas horas e dias, tanto no plano militar como diplomático, determinará se este episódio fica na história como mais um susto passageiro nos mercados, ou como o gatilho de uma crise económica global de proporções que não se viam há décadas.

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