BYD Seal 6 DM-i: Sorri à carteira mas tem um pecado incómodo
Seduz pelo preço e pelo equipamento, mas o encanto desvanece quando o motor a combustão desperta e a harmonia dá lugar ao ruído e à falta de refinamento.
A BYD chegou à Europa a dizer que ia mudar as regras do jogo. E, ao ver o Seal 6 DM-i estacionado à nossa frente, com os seus quase 5 metros de berlina de linhas aerodinâmicas e o equipamento de série que envergonharia rivais a custar o dobro, percebemos que a marca de Shenzhen não estava a fazer bluff. O problema é que, quando se sai da garagem e se começa a conduzir de verdade, a narrativa do “construtor de sonhos” começa a ganhar alguns buracos.
A história da BYD começou há quase 30 anos em Shenzhen, no sul da China, quando Wang Chuanfu fundou a empresa para fabricar baterias recarregáveis para telemóveis. Dois anos depois de comprar uma fábrica automóvel estatal, em 2003, lançou-se na produção de carros. Hoje, é o maior fabricante de veículos eletrificados do mundo, tendo ultrapassado a Tesla em volume de vendas.
O Seal 6 DM-i — em que DM-i significa “Dual Mode, intelligent”, ou seja, híbrido plug-in na linguagem da marca — é o salto da BYD para o segmento das famílias europeias que ainda não estão prontas para largar completamente a bomba de gasolina, mas que já pensam em termos de cabos de carregamento.

Em Portugal, a versão Comfort parte dos 40 mil euros, o que, para uma berlina de 4,84 metros com 212 cavalos de sistema, bateria de 19 kWh, autonomia elétrica de 140 quilómetros em ciclo urbano e um equipamento de série que inclui teto panorâmico, bancos aquecidos e ventilados, câmara de 360 graus, assistente de condução adaptativo e ecrã tátil de 15,6 polegadas, é uma proposta que faz as contas de qualquer família europeísta tremer de alegria.
Para comparação, um Volkswagen Passat eHybrid com especificação equivalente sai por cerca de 10 mil euros a mais — e a BYD está plenamente consciente disso.
O motor de combustão é um 1.5 litros de quatro cilindros aspirado com 98 cv, mas é o motor elétrico síncrono de 197 cv que carrega o esforço da maioria dos percursos.
No modo puramente elétrico, o carro é silencioso, fluido e razoavelmente ágil para as suas dimensões. O sistema WLTP oficial aponta para 56,5 quilómetros de autonomia em ciclo combinado e até 140 km em ciclo urbano, números que tornam este carro muito atrativo para quem tem uma viagem casa-trabalho de 50 quilómetros e um carregador em casa. Mas quando a gasolina entra em cena, a magia acaba.
O Seal 6 muda de personalidade com uma brutalidade que surpreende para um carro desta categoria. O propulsor a gasolina é áspero, ruidoso e pouco refinado, especialmente quando se exige mais do acelerador. A caixa CVT amplifica o problema: as rotações sobem independentemente da velocidade, criando aquele som de aspirador industrial que os condutores mais exigentes vão encontrar difícil de ignorar.
Na autoestrada, com a bateria no mínimo, o barulho do motor acompanha toda a viagem como um colega de trabalho que insiste em cantar baixinho em open space quando se quer paz e silêncio. O comportamento em estrada é outro capítulo problemático. A suspensão nunca parece verdadeiramente afinada para a tarefa: é demasiado mole para as curvas e demasiado nervosa para as irregularidades do piso. O carro ressalta em lombas, balança nas ondulações da estrada e, na autoestrada, transmite uma inquietação constante que cansa em viagens longas.
A direção, leve e sem informação sobre o que se passa nos pneus dianteiros, não ajuda a construir confiança ao volante. Acrescente-se a isto o isolamento acústico do habitáculo, claramente aquém do esperado neste segmento: ruído de estrada, vento e motor entram em concerto sem pedir licença.
O interior do Seal 6 é generoso em espaço e em equipamento. Os bancos em pele vegan, a iluminação ambiente multicor reativa ao som e os 491 litros de mala são provas de que a BYD levou a sério a sua missão.
O ecrã de 15,6 polegadas da versão Comfort é dos maiores que se encontram nesta categoria de preço. O problema é o software que corre por trás: menus dentro de menus, funções escondidas em submenus improváveis, e sistemas de assistência à condução tão zelosos que chegam a avisar de inatenção quando o condutor está a olhar diretamente para a estrada. É tecnologia em quantidade, mas que exige paciência e um manual de instruções sempre à mão, de preferência não em mandarim
A BYD oferece seis anos de garantia no veículo e oito anos na bateria Blade LFP — que, por sinal, é das mais seguras e duráveis do mercado. A um preço de entrada de 40 mil euros na versão Comfort, o Seal 6 DM-i é, objetivamente, um carro muito completo para o dinheiro.
Para quem faz principalmente percursos urbanos e suburbanos carregando a bateria regularmente em casa, a equação financeira faz sentido. Para quem procura prazer de condução, refinamento ou simplesmente um interior à prova de silêncio, a BYD ainda tem trabalho por fazer. Há “sonhos” aqui, mas alguns ainda precisam de ser calibrados.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.