Banca apostou 11 mil milhões em dívida pública para se proteger da descida das taxas de juro

Caixa, BCP e BPI reforçaram as suas carteiras de dívida pública em mais 10,7 mil milhões em 2025. Aposta visa atenuar impacto negativo da queda das taxas de juro. Voltaram os riscos do passado?

Paulo Macedo, presidente da comissão executiva da Caixa, na apresentação dos resultados de 2025.Rodrigo Antunes/Lusa 26 fevereiro, 2026

Os bancos nacionais estão a reforçar as suas carteiras com dívida pública. Uma aposta que surge numa altura em que o setor começa a sentir um maior impacto da descida das taxas de juro na margem financeira e nos lucros. Voltaram os riscos do passado?

No final de 2025, Caixa Geral de Depósitos (CGD), BCP e BPI tinham uma carteira agregada no valor de 62,5 mil milhões de euros em obrigações do tesouro, não só de Portugal, mas também de outros países e de entidades supranacionais. Isto corresponde a um aumento de 20% (ou 10,7 mil milhões de euros) em relação ao mesmo período de 2024.

Esta evolução é em grande medida explicada pelos dois maiores bancos nacionais. O banco público aplicou mais 6,1 mil milhões de euros em termos líquidos no ano passado e fechou 2025 com uma exposição na ordem dos 25,6 mil milhões – disparou 31% em relação ao ano transato. No BCP, a carteira consolidada (inclui também a Polónia) ‘engordou’ 16% para 32,5 mil milhões.

Caixa, BCP e BPI ‘engordam’ carteira de dívida pública

Fonte: Bancos

Com a margem financeira em contração por conta do alívio da política monetária do Banco Central Europeu (BCE), os bancos estão à procura de alternativas para rentabilizarem a liquidez (isto é, depósitos das famílias e empresas) de que dispõem. E a banca nacional tem grande disponibilidade, mesmo com o crédito a acelerar.

“Este aumento é lógico e facilmente explicável”, explica António Nogueira Leite, antigo administrador da Caixa e professor da Nova SBE.

“O investimento em dívida pública explica-se pelo elevado nível de captação de recursos relativamente às carteiras de crédito, gerando um nível de liquidez muito elevado, que se tem vindo a acumular nos últimos anos. As Obrigações do Tesouro são um ativo relativamente seguro”, acrescenta.

"O investimento em dívida pública explica-se pelo elevado nível de captação de recursos relativamente às carteiras de crédito, gerando um nível de liquidez muito elevado, que se tem vindo a acumular nos últimos anos. As Obrigações do Tesouro são um ativo relativamente seguro.”

António Nogueira Leite

Ex-administrador da Caixa e professor da Nova SBE

Caixa “ativa” na gestão da carteira

No caso da Caixa, embora o crédito a clientes tenha subido 8% no ano passado, não chegou para evitar uma queda pronunciada de 10% da margem financeira – que corresponde genericamente à diferença entre os juros cobrados nos empréstimos e os juros pagos nos depósitos.

O banco liderado por Paulo Macedo fechou o ano passado com um rácio de transformação de depósitos em crédito de apenas 65% – revelador do excesso de liquidez com que a instituição do Estado, que gere mais de 78 mil milhões de euros em poupanças dos portugueses, se defronta.

Esta situação levou a Caixa a estar “muito ativa no reforço dos seus investimentos na carteira de títulos como forma de minimizar o impacto das taxas de juro na margem financeira”, como revelou o administrador financeiro, António Valente, na conferência de apresentação dos resultados recorde de 1,9 mil milhões (um nível que Paulo Macedo já avisou que não é sustentável).

“Aumentámos mais de seis mil milhões a nossa carteira de dívida. Há dois dados relevantes: essa carteira tem muita mais qualidade do que tinha em 2024. Outro dado que reflete uma gestão ativa de balanço, nomeadamente para dar mais crédito, se assim for necessário: reduzimos de forma significativa a maturidade da carteira. Os ativos com maturidades acima de 5 anos passaram de 48% para 16%”, acrescentou o responsável.

No final do ano passado, a carteira da Caixa tinha a seguinte composição: Portugal (21%), Zona Euro (57%), Supranacionais (19%), outros (4%). Praticamente 90% tinha notação de rating acima de AAA.

Miguel Maya, presidente executivo do Millennium BCP, durante a conferência de imprensa de apresentação dos resultados de 2025, em Oeiras, 25 de fevereiro de 2026. António Cotrim/LusaANTÓNIO COTRIM/LUSA

BCP corta exposição a Portugal para metade

O BCP enfrenta o mesmo desafio. Ao contrário da Caixa, o banco liderado por Miguel Maya até conseguiu resistir à descida das taxas de juro, com a margem em Portugal a estabilizar nos 1,34 mil milhões de euros. Porém, o rácio de transformação praticamente estagnou nos 64%, o que significa que tem praticamente um terço dos depósitos por rentabilizar.

O banco cortou para metade a exposição à dívida nacional, que totalizava cerca de 2,2 mil milhões de euros no final do ano passado. Ainda assim, reforçou significativamente a exposição à Polónia: mais de 11 mil milhões estavam aplicados em títulos polacos, crescendo 38% em comparação com dezembro 2024.

Também tem dívida da União Europeia (5,5 mil milhões de euros), espanhola (4,4 mil milhões), francesa (3,5 mil milhões) e italiana (2,1 mil milhões).

No BPI, a carteira de dívida pública teve um reforço de 100 milhões de euros. A exposição do banco liderado por João Pedro Oliveira e Costa ascendia a 4,4 mil milhões em dezembro do ano passado.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Riscos do passado?

Um quinto do ativo dos bancos nacionais era composto por títulos de dívida em setembro do ano passado, mostram os dados do Banco de Portugal. Este valor corresponde quase ao dobro da exposição que a banca tinha em 2014.

Foi justamente nesse ano que entrou em vigor o Mecanismo Único de Supervisão, criado para responder à crise das dívidas soberanas e para cortar a “relação umbilical” entre bancos e Estados que estava então a deixar a Zona Euro à beira de uma crise existencial.

Nogueira Leite afasta riscos. “O ativo tem hoje muito menos risco do que em 2009, 2010 ou 2011 e as perspetivas de perda de capital são incomensuravelmente mais pequenas”, salienta o economista.

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