Bolsas tremem e dólar dispara ao ritmo mais forte em sete meses após ataques a Teerão
Enquanto o Brent negoceia em máximos de vários meses e o dólar tem o maior disparo desde o verão, as bolsas europeias negoceiam no vermelho, para onde caminha também Wall Street.
O dólar está a negociar esta segunda-feira com a maior valorização intradiária desde o verão do ano passado, enquanto as bolsas europeias afundam, o ouro volta a brilhar e o petróleo chegou a disparar 13% para máximos de vários meses.
Em poucas horas, os ataques concertados dos EUA e de Israel ao Irão, que culminaram com a morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, redesenharam por completo o mapa dos mercados financeiros globais, num dos dias mais turbulentos de 2026 para os investidores.
O índice do dólar, que agrega um cabaz de seis moedas e serve de termómetro à força da divisa norte-americana, sobe 0,91% nesta segunda-feira, refletindo assim a maior valorização intradiária desde 30 de julho de 2025. Em simultâneo, o par EUR/USD cede 0,94% para 1,1702, o valor mais baixo desde 21 de janeiro, num movimento que reflete o fluxo de capital a sair da Europa em direção ao principal ativo de refúgio do sistema financeiro mundial.
Também sob pressão segue a libra esterlina, que cai atualmente 0,7% para 1,3389 dólares, o nível mais baixo desde 19 de dezembro, penalizada tanto pela crise no Médio Oriente como pelas turbulências políticas internas no Reino Unido.
O iene japonês, após uma valorização inicial, perde 0,95% para 158 ienes por dólar. Já o franco suíço chegou a atingir um máximo de 11 anos face ao euro, tocando os 0,9028, com o Banco Nacional Suíço a declarar esta segunda-feira estar “mais disposto a intervir” nos mercados cambiais na sequência do conflito no Médio Oriente.
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“A reação que está no centro de tudo é a do mercado petrolífero”, refere Thu Lan Nguyen, analista cambial e de matérias-primas do Commerzbank à Reuters. Os números dão-lhe razão.
O Brent (petróleo que serve de referência à Europa) está atualmente a valorizar 8,7% para os 79,2 dólares, depois de já ter estado a disparar mais de 13%, numa subida alimentada pelas perturbações no Estreito de Ormuz — a artéria por onde passa cerca de 25% de todo o crude produzido no mundo.
O tráfego marítimo naquele corredor estratégico foi interrompido após o Irão ter retaliado os ataques, tendo a Guarda Revolucionária Iraniana anunciado o ataque a três petroleiros norte-americanos e britânicos.
Para Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe, “quanto mais tempo o conflito persistir e o petróleo do Golfo permanecer retido na região, maior será a probabilidade de os preços continuarem a subir, podendo aproximar-se da fasquia dos 100 dólares por barril.”
Os episódios de tensão geopolítica tendem a gerar volatilidade de curto prazo, mas também criam oportunidades para investidores com horizonte alargado.
Mas o choque energético não penaliza todas as economias da mesma forma. Os EUA, exportadores líquidos de crude há quase uma década, estão relativamente protegidos. Já a Zona Euro e o Japão, que dependem fortemente de importações de energia, são os mais vulneráveis a uma subida sustentada do petróleo.
“Uma subida sustentada do preço do petróleo de 15 dólares por barril poderia aumentar o nível dos preços no consumidor na zona euro em quase 0,5%”, refere Holger Schmieding, economista-chefe do Berenberg, salientando que esse movimento irá, invariavelmente, corroer o poder de compra das famílias europeias e empurrar as taxas de juro para um dilema impossível.
Bolsas europeias sob pressão
Na Europa, o impacto dos ataques nas bolsas é já visível e transversal. O índice pan-europeu Stoxx Europe 600 perde 1,87% na sessão desta segunda-feira, penalizado de forma especialmente intensa pelas empresas do setor do consumo cíclico e pelo setor financeiro, que acumulam perdas médias de 3,74% e 3,01%, respetivamente.
Em sentido contrário, os setores da energia e das utilities saem beneficiados pelo choque petrolífero. “Os episódios de tensão geopolítica tendem a gerar volatilidade de curto prazo, mas também criam oportunidades para investidores com horizonte alargado”, sublinha João Queiroz, responsável de trading do Banco Carregosa, que destaca os setores defensivos como a saúde, energia, utilities e imobiliário como os mais indicados para atravessar períodos de incerteza como este.
Também sob pressão estão as ações norte-americanas, com os futuros sobre os principais índices acionistas a negociarem atualmente no vermelho, apontando para uma abertura de Wall Street em queda. Os futuros do S&P 500 e do Dow Jones estão a cair 1,05% e 1,04%, respetivamente, enquanto os contratos do tecnológico Nasdaq resvalarem 1,4%.
O ouro, o refúgio preferido dos investidores nos momentos de medo, sobe 2,1% nesta segunda-feira para os 5.389 dólares por onça. Ainda assim, os analistas do Julius Baer alertam para a necessidade de cautela. Segundo o analista Carsten Menke, “comprar ouro e prata no dia de uma escalada geopolítica não é uma estratégia lucrativa”, de acordo com o historial desde 1979.
O metal precioso já tinha subido nas semanas anteriores, antecipando uma escalada no Médio Oriente, o que limita o espaço para novos ganhos, salienta o especialista numa nota enviada aos clientes da instituição suíça.
Mathieu Racheter, responsável pela estratégia de ações do Julius Baer, recomenda os investidores a terem “disciplina e uma inclinação para a qualidade defensiva” na gestão das suas carteiras.
A incerteza quanto à duração e extensão do conflito é, para já, o fator que mais pesa sobre os mercados. Christian Gattiker, também analista do Julius Baer, nota que o que está em jogo ainda é “uma questão de adivinhação”, sublinhando que “os próximos dias dirão se o padrão habitual das crises geopolíticas se mantém — acumulação, pico, alívio, dissipação — ou se o mundo está perante algo maior e mais duradouro.”
A morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei no âmbito dos ataques dos EUA e de Israel abre uma corrida à sucessão em Teerão e, com isso, acrescenta uma camada adicional de imprevisibilidade a um xadrez já de si complexo.
Para os investidores, a mensagem dos analistas é de cautela e não de pânico. Mathieu Racheter, responsável pela estratégia de ações do Julius Baer, recomenda “disciplina e uma inclinação para a qualidade defensiva”, com preferência por empresas de balanços robustos, capacidade de fixação de preços e fluxos de caixa resilientes.
Norbert Rücker, também do Julius Baer, aponta como cenário base um “pico de curta duração, mas desta vez mais intenso, nos preços do petróleo e do gás”, o que, para já, parece ser precisamente o que os mercados estão a descontar nesta segunda-feira de guerra.
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