Conflito no Médio Oriente pode ter impacto “favorável” na Galp, segundo analistas. Ações disparam 7%

O disparo dos preços do petróleo deve ter um impacto "substancialmente favorável" na petrolífera portuguesa, dizem analistas, apontando para a possibilidade de aumentos no preço-alvo.

O conflito no Irão não afeta diretamente as operações da Galp, mas atinge indiretamente a empresa naquela que é a base do seu negócio, ao impulsionar os preços do petróleo. Um impacto indireto “substancialmente favorável” e preços-alvo revistos em alta são duas das prováveis consequências deste conflito armado no preço por ação da petrolífera portuguesa.

As ações da petrolífera portuguesa sobem esta segunda-feira 7,14% para 19,5 euros cada, máximos de 19 meses, numa sessão em que o preço do barril de petróleo Brent – a referência para a Europa – avança 7,71% para 78,56 dólares cada. O índice Stoxx Europe 600 Oil & Gas avança 1.93%.

“Disciplina” é a palavra repetida por ambos os co-CEO da Galp, aplicada à gestão financeira da empresa, quando abordam as necessidades que o contexto do conflito no Irão abre. O conflito no Médio Oriente “é profundamente preocupante”, evidenciou João Diogo Marques da Silva. Assinalou que a recente escalada, incluindo ataques a infraestruturas críticas e ameaças a rotas marítimas vitais, “elevou de forma material a incerteza nos mercados energéticos e no contexto macroeconómico mais amplo, reforçando a necessidade de resiliência, prudência e disciplina”. Por seu lado, a co-CEO Maria João Carioca afirma que “a operação da Galp, centrada no Atlântico, não enfrenta, neste momento, quaisquer impactos diretos materiais” das tensões no Irão. Ainda assim, assinala também a elevada volatilidade, defendendo que “é fundamental manter um foco claro numa gestão financeira disciplinada e prudente”.

"É fundamental manter um foco claro numa gestão financeira disciplinada e prudente.”

Maria João Carioca

Co-CEO da Galp

Os analistas contactados pelo ECO/Capital Verde corroboram a visão dos gestores de que o conflito com o Irão não toca a Galp diretamente, mas realçam que deverá dar um impulso através das cotações do petróleo. “O impacto do conflito é essencialmente indireto, mas substancialmente favorável”, antevê João Queiroz, Head of Trading do Banco Carregosa, apontando como positivo para a cotada o salto nos preços do petróleo e o potencial adicional de subida dos mesmos, caso o conflito escale, se prolongue ou na sequência de perturbações no Estreito de Ormuz. Para a Galp, isto “traduz-se diretamente em resultados mais elevados” por barril produzido.

O impacto do conflito é essencialmente indireto, mas substancialmente favorável.

João Queiroz

Head of Trading do Banco Carregosa

“A atual tensão no Médio Oriente tende a sustentar o crude em níveis elevados. Para empresas integradas como a Galp, isso pode ser positivo no curto prazo”, indica João Cruz, analista da XTB, já que a empresa é “naturalmente” sensível à evolução do preço do petróleo e às dinâmicas globais de oferta e procura. Em cima da mesa, acrescenta, está uma uma eventual redução da oferta global ou agravamento das sanções ao Irão.

Num contexto de tensão geopolítica sustentada e crude acima dos 75 a 80 dólares, o consenso de analistas tende a rever em alta os price targets das cotadas produtoras de petróleo integradas com geração de caixa comprovada e sólido balanço — exatamente coincidente com o perfil da Galp”, detalha Queiroz. Uma variação de 10 dólares por barril de Brent tem, nas estimativas do Banco Carregosa, um impacto estimado de aproximadamente 150 a 200 milhões de euros no cash flow operacional anual da Galp, assumindo uma produção constante – quando, em 2026, se espera que suba o nível de produção, à custa do ativo brasileiro Bacalhau. A aceleração da produção no Brasil deverá apresentar um crescimento “material” ao longo de 2026, aumentando o volume de barris vendidos, num ambiente de preços mais elevados: “Este deverá ser o catalisador operacional mais relevante e mais previsível do ano”, afirma João Queiroz.

Uma escalada significativa poderia gerar volatilidade transversal a todos os mercados, incluindo energia.

João Cruz

Analista na XTB

 

Em oposição, uma escalada do conflito que dite preços do petróleo “demasiado elevados, por demasiado tempo”, pode afetar a economia a nível global de tal forma que seja prejudicial também para esta empresa.

“No entanto, uma escalada significativa poderia gerar volatilidade transversal a todos os mercados, incluindo energia”, adverte João Cruz. O mesmo aponta um aumento do risco de desaceleração económica, penalizando a procura global de petróleo, como uma provável consequência negativa de “preços demasiado elevados durante muito tempo”. Paradoxalmente, assinala o Head of Trading do Banco Carregosa, o principal risco de curto prazo que vê para a ação da Galp é um alívio “rápido e abrupto” do conflito, que eventualmente colapse as cotações do petróleo para os níveis do “guidance” da cotada (60 dólares por barril), “embora esse cenário nos próximos meses pareça pouco provável”.

Olhando ainda ao copo meio vazio, a atividade de refinação da Galp sofre com o aumento dos preços de petróleo, na medida em que o “ouro negro” é a matéria-prima do processo, e encarece. “Este é um risco transitório e geograficamente circunscrito que não altera a leitura globalmente construtiva do impacto do conflito para o perfil de resultados da Galp em 2026”, remata Queiroz. Cruz entende que, no que diz respeito às margens de refinação, se estas permanecerem robustas, poderão compensar eventuais oscilações no preço do petróleo.

Galp com cenário “virtuoso” pela frente, apoiado por Médio Oriente e resultados

A combinação do conflito no Médio Oriente com os resultados divulgados cria um cenário essencialmente benigno, e tendencialmente virtuoso, para a Galp no curto e médio prazo”, indica João Queiroz. Na ótica do responsável do Banco Carregosa, “o ponto mais robusto destes resultados reside na resiliência demonstrada pela geração de caixa operacional”, já que este se manteve “praticamente estável” face ao ano anterior, embora o preço do barril de petróleo fosse “significativamente mais fraco”, a chegar aos 70 dólares, menos 10 dólares que em 2024. João Cruz destaca igualmente como ponto forte a “solidez” na gestão de fluxos de caixa. Ambos estão também alinhados no elogio à disciplina financeira e controlo do endividamento, assim como a consistência da remuneração acionista.

Os mesmos analistas destacam o nível da dívida, que confere capacidade de aumentar o dividendo e avançar com a recompra de ações. A ajudar está também a apresentação de guidance para este ano, que o responsável de Trading do Banco Carregosa vê como “construtiva”. Isto porque, “há um potencial de upgrade significativo ao guidance, o que tende a ser catalisador positivo para a cotação quando o mercado o reconhecer nas próximas semanas”.

O potencial está, por exemplo, na cotação do barril de Brent. Esta está atualmente a negociar em torno de 80 dólares, 20 dólares acima do que consta do guidance. Em paralelo, o dólar está a apreciar face ao euro, ao contrário do assumido pela empresa, e este é um fator positivo para a Galp, que reporta em rueos mas recebe a maioria das receitas do negócio de upstream em dólares. Queiroz considera o câmbio euro/dólar assumido no guidance “claramente conservador” face à trajetória atual. O aumento do dividendo e o programa de recompra de ações, anunciados também esta sexta-feira, constituem suporte técnico à cotação.

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