A Bolsa portuguesa falhou onde todos os mercados ganharam

Há duas décadas que o mercado nacional desafia as regras básicas das finanças. Enquanto o mundo enriqueceu com as ações, quem investiu apenas na Bolsa de Lisboa ficou a perder para a dívida pública.

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  • O "Global Investment Returns Yearbook 2026" revela que, ao contrário da tendência global, as ações em Portugal renderam apenas 1,8% ao ano nos últimos 20 anos, inferior às obrigações.
  • A concentração do mercado acionista português em setores limitados e a falta de diversificação geográfica resultaram num parco desempenho das ações, destacando a necessidade de diversificação para os investidores.
  • O relatório do UBS alerta os investidores de que a diversificação da carteira por geografias não é uma opção, mas uma necessidade.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Se existe uma verdade que resiste ao tempo nas finanças, é esta: no longo prazo, as ações vencem as obrigações e os depósitos. Mas esta “regra” tem uma exceção, graças a Portugal.

Esta é uma das conclusões da edição de 2026 publicada esta terça-feira do “Global Investment Returns Yearbook”, o estudo de referência mundial sobre rendibilidade de ativos financeiros, elaborado pelos professores Elroy Dimson (Cambridge), Paul Marsh e Mike Staunton (London Business School) para o banco suíço UBS, com dados que cobrem 126 anos de histórica dos mercados financeiros em 35 países.

Portugal, contudo, insiste em ser diferente. Nos últimos 20 anos, de 2006 a 2025, as ações nacionais renderam, em média e em termos reais, apenas 1,8% ao ano. As obrigações do Estado português fizeram melhor: 2,5% ao ano no mesmo período. É um número aparentemente pequeno (0,7 pontos percentuais), mas a diferença acumulada ao longo de duas décadas é considerável e coloca Portugal como a única exceção entre os mercados analisados em que as ações falharam em superar as obrigações nas últimas duas décadas.

A regra que vale para os EUA, para a Alemanha, para o Japão e para praticamente todo o mundo desenvolvido não valeu para o mercado português neste período. Mas a singularidade portuguesa no relatório do UBS não fica por aqui.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Ao analisar o desempenho de muito longo prazo — desde 1900 –, os três professores encontram uma segunda anomalia: Portugal é o único país entre todos os 21 mercados estudados com dados desde esse ano, onde as obrigações não bateram os Bilhetes do Tesouro (vistos como uma proxy aos depósitos de curto prazo).

No resto do mundo, quem assumiu o risco de emprestar dinheiro ao Estado por prazos mais longos recebeu, em média, uma compensação superior a quem optou por aplicações de curto prazo. Em Portugal, essa lógica não se verificou. É uma raridade que os autores destacam precisamente porque contraria um princípio basilar das finanças, a chamada lei do risco e do retorno. Para perceber a dimensão do que Portugal perdeu relativamente ao mundo, basta olhar para os números globais.

  • Mundialmente, no período entre 2006 e 2025, as ações renderam 5,6% ao ano em termos reais, contra apenas 1,3% das obrigações, uma diferença de 4,3 pontos percentuais a favor das ações.
  • No muito longo prazo, desde 1900, a vantagem das ações mundiais mantém-se firme: 5,3% ao ano face a 1,7% das obrigações. Enquanto o investidor global que apostou em ações viu o seu dinheiro multiplicar-se ao longo das décadas, o investidor que ficou concentrado no mercado nacional ficou muito aquém.

A comparação com a Europa também não é favorável a Portugal. As ações europeias, no período entre 2006 e 2025, valorizaram 3,7% ao ano em termos reais, enquanto as obrigações do bloco registaram mesmo uma rendibilidade negativa de -0,4% ao ano — ou seja, as obrigações europeias destruíram valor em termos reais nos últimos 20 anos, ao contrário das portuguesas.

Desde 1900, as ações europeias acumularam uma rendibilidade real anualizada de 4,3%, com as obrigações a ficarem-se pelos 0,8%, segundo os dados do “Global Investment Returns Yearbook 2026”. É verdade que a Europa teve um desempenho histórico inferior à média mundial — afinal, foi o epicentro de duas guerras mundiais — mas, mesmo assim, supera Portugal com folga nos últimos 20 anos.

O fraco desempenho do mercado acionista português tem uma explicação estrutural que vai além de qualquer crise pontual: a Bolsa de Lisboa é pequena, pouco diversificada e altamente concentrada num punhado de setores — energia, banca e telecomunicações –, com pouca exposição às indústrias de alto crescimento que nos últimos 20 anos puxaram os mercados globais, como a tecnologia e a saúde.

O período em análise coincide, além disso, com a crise do subprime em 2008, a crise da dívida soberana europeia em 2011-2012 e com os resgates ao setor bancário e queda de alguns grandes players do mercado nacional cotados em bolsa, como a Portugal Telecom ou o BES, episódios que abalaram duramente a confiança dos investidores no mercado nacional.

O problema do parco desempenho do mercado acionista nacional não é as ações enquanto classe de ativos, mas a concentração num mercado pequeno, periférico e estruturalmente limitado.

A lição que o relatório do UBS retira desta análise é que a diversificação geográfica não é uma opção para os investidores, mas uma necessidade. Os dados mostram que, para a grande maioria dos mercados, os investidores que apostaram em ações globais em vez de apenas domésticas melhoraram significativamente o rácio entre rendibilidade e risco das suas carteiras.

Portugal é, aliás, um dos países onde esse benefício de diversificação é mais evidente, o que significa que um investidor português que nos últimos 20 anos se tivesse concentrado apenas no PSI teria ficado a ganhar muito menos do que alguém com exposição a índices globais, como o MSCI World ou o S&P 500.

Não quer isto dizer que as ações não devam continuar a ser o ativo central de uma carteira de longo prazo, muito pelo contrário. O que o “Global Investment Returns Yearbook 2026” demonstra, com 126 anos de evidência em 35 países, é que as ações são a classe de ativos com maior rendibilidade real no longo prazo, quase em qualquer geografia.

O problema de Portugal não é as ações enquanto classe de ativos, mas a concentração num mercado pequeno, periférico e estruturalmente limitado. Para o investidor português que quer que as ações cumpram o seu papel histórico de principal motor de criação de riqueza, a resposta passa por ir mais longe, literal e figurativamente.

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