Ataque ao Irão. Efeitos na economia nacional já se sentem com subida dos preços da energia
O impacto do ataque ao Irão na economia nacional é difícil de avaliar porque "há um conjunto de incógnitas". A maior de todas é a duração do conflito. Armindo Monteiro diz que efeito já se sente.
Incerteza é a palavra escolhida pelos economistas ouvidos pelo ECO para antecipar o impacto na economia nacional do ataque norte-americano e israelita ao Irão. Tudo vai depender da duração do conflito. Mas, para o patrão dos patrões os efeitos já se fazem sentir através da subida dos preços da energia.
“Os efeitos já se estão a fazer sentir e o impacto na nossa economia será ainda mais negativo se o conflito perdurar, tendo em conta os impactos nos custos com a energia”, disse ao ECO Armindo Monteiro. O presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) sublinhou a existência de “mais vulnerabilidade” e que o “aumento dos preços do petróleo vão traduzir-se em custos de produção mais elevados”.
“Tudo depende da duração do conflito”, sublinha ao ECO o economista António Nogueira Leite. “No curto prazo estamos a assistir a uma subida do preço do crude, mas poderá não ter grande significado se a guerra for por pouco tempo”, acrescentou.
Os efeitos já se estão a fazer sentir e o impacto na nossa economia será ainda mais negativo se o conflito perdurar, tendo em conta os impactos nos custos com a energia.
“Há um conjunto de incógnitas para estimar o impacto económico deste conflito”, frisou, por seu turno, Pedro Braz Teixeira. “Subida dos preços do petróleo e gás natural; eventual bloqueio das quantidades; duração do conflito; impacto sobre os nossos parceiros e impacto sobre as viagens aéreas e turismo”, elenca o diretor do Gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade. “Uma das incertezas maiores e mais importantes é a da duração do conflito. Como será óbvio, perturbações durante poucas semanas ou por longos meses terão repercussões completamente diferentes”, acrescentou o economista.
Os preços do petróleo subiram até 13% na segunda-feira, porque o transporte marítimo no Estreito de Ormuz está interrompido na sequência dos ataques dos iranianos, em retaliação ao bombardeamento que matou o líder supremo iraniano Ali Khamenei. Os contratos futuros do Brent, que servem de referência para o mercado europeu, subiram para 82,37 dólares por barril, máximos de janeiro de 2025, mas acabaram por ir aliviando ao longo do dia para os 77 dólares.
Por outro lado, os preços dos contratos de gás natural neerlandeses, que são referência na Europa, disparam quase 50%, esta segunda-feira, para os 47,935 euros por megawatt-hora (MWh) depois de a QatarEnergy, uma das maiores exportadoras de gás natural liquefeito (GNL), ter anunciado que interrompeu a produção devido a ataques lançados pelo Irão.
Portugal não depende do gás natural liquefeito do Golfe”. “O abastecimento é assegurado pela Argélia, Golfo da Guiné, Caraíbas e EUA.
“O encerramento do Estreito de Ormuz para já tem impacto nas nossas importações, mas, caso se venha a prolongar no tempo, acabará por ter impacto também nas exportações”, alertou Armindo Monteiro.
O aumento dos preços da energia “tem um efeito negativo sobre a economia nacional”, reconhece Nogueira, acrescentando esperar que “não seja muito grande”. O economista recorda que “Portugal não depende do gás natural liquefeito do Golfe”. “O abastecimento é assegurado pela Argélia, Golfo da Guiné, Caraíbas e EUA”, mas é claro que, no curto prazo, os custos mais elevados da energia vão ter um impacto nos custos de produção, mas há sempre algum hiato temporal, mas será digerível a não ser que a guerra assuma proporções muito maiores”.
O professor da Nova SBE recorda que, quando estalou a guerra da Ucrânia, as subidas dos preços da energia foram muito maiores, dada a dependência das economias europeias do gás russo. “Uma guerra que todos esperavam que seria rápida e já se arrasta há quatro anos”, lamenta Armindo Monteiro.
De acordo com a análise do gabinete de estudos económicos do BCP, “o impacto é adverso, conforme implícito no comportamento dos mercados financeiros”. “Este impacto dependerá da evolução e extensão do conflito, relevância para o funcionamento das cadeias de produção e abastecimento, confiança dos agentes económicos e consequente reação de política económica, sendo possíveis múltiplos cenários que, neste momento, são difíceis de isolar”, acrescentam os economistas.
Para além dos “efeitos diretos da subida dos preços da energia”, Portugal também deverá “sofrer os efeitos indiretos de desaceleração da economia” dos seus “principais parceiros”, embora a amplitude “dependerá dos efeitos referidos”, sublinhou ainda Pedro Braz Teixeira.
Para além dos efeitos diretos da subida dos preços da energia, devemos sofrer os efeitos indiretos de desaceleração da economia dos nossos principais parceiros, cuja amplitude dependerá dos efeitos já referidos.
O Governo inscreveu no Orçamento do Estado para 2026 uma previsão de crescimento de 2,3%, este ano, e de 2% em 2025, um valor que não se confirmou. O INE revelou, a semana passada, que Portugal cresceu apenas 1,9% o ano passado. “Portugal não tem registado um crescimento notável”, lamentou Nogueira Leite, sublinhando que esta dinâmica já se arrasta desde a troika. “Existe algum investimento, mas demora em traduzir-se em produção”, acrescentou o antigo secretário de Estado do Tesouro e Finanças.
Além disso, o ano não arrancou da melhor forma já que o comboio de depressões acabou por devastar um grande número de empresas, o que terá reflexo no crescimento, tal como antecipa o indicador diário de atividade do Banco de Portugal, mas também nas contas públicas, como já admitiu o primeiro-ministro. “Se todos os meses tivermos novidades, os efeitos conjugados vão multiplicar-se e isso terá um impacto significativo na nossa performance”, sublinhou Nogueira Leite.
Por outro lado, a frente de batalha agora aberta no Irão também poderá ter impactos sobre o turismo, sublinha Pedro Braz Teixeira, “que poderá sofrer com a subida dos preços dos combustíveis”. “Poderá haver algum desvio do turismo das zonas do conflito para outras regiões e Portugal poderá beneficiar com isto, mas de forma limitada”, acrescentou numa nota mais positiva.
“Em conclusão, há vários canais que nos poderão afetar, mas o nível de incerteza é ainda demasiado elevado para estimar o impacto em termos numéricos”, remata Pedro Braz Teixeira.
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