Delfim de Buffett estreia-se com 370 mil milhões para investir

Na sua primeira carta aos acionistas da Berkshire, Gregory Abel compromete-se a não inventar, manter a cultura da empresa intocada e não se desviar da disciplina financeira do mestre.

ECO Fast
  • Gregory E. Abel, novo CEO da Berkshire Hathaway, assinou pela primeira vez a carta anual aos acionistas, sucedendo Warren Buffett após 60 anos.
  • Os resultados operacionais da Berkshire em 2025 totalizaram 44,5 mil milhões de dólares, 6,1% abaixo do ano anterior, mas acima da média dos últimos cinco anos.
  • Abel revelou as posições da empresa em obrigações do Tesouro americano e outros ativos líquidos ultrapassam os 370 mil milhões de dólares.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Há 60 anos Warren Buffett sentou-se pela primeira vez para escrever uma carta anual aos acionistas da sua Berkshire Hathaway. Desde então, esse ritual transformou-se num dos documentos mais lidos e citados no mundo das finanças, numa espécie de bíblia anual do investimento de longo prazo.

No sábado, pela primeira vez em seis décadas, essa carta chegou assinada por outra pessoa. O autor foi Gregory E. Abel que assumiu o cargo de CEO a 1 de janeiro, tornando-se o sucessor do “Oráculo de Omaha”.

Num texto cuidado, direto e carregado de mensagens para os investidores, Abel deixou claro que não pretende reinventar a roda, mas também que tem ambições próprias para as próximas duas décadas à frente do maior conglomerado do mundo, que negoceia atualmente com uma capitalização bolsista de mais de 1 bilião de dólares.

Temos a sorte de ter Warren como Presidente da Berkshire no escritório cinco dias por semana, e disponível para nós à medida que subscrevemos seguros, operamos os nossos negócios não seguros e alocamos capital, incluindo investimentos em ações.

Gregory E. Abel

CEO da Berkshire Hathaway

Logo no arranque da carta, Abel presta uma homenagem sentida ao seu antecessor: “Warren Buffett é, de longe, o maior investidor de todos os tempos, com gerações a beneficiar da sua acuidade nos investimentos [e] foi também um CEO notável.” A mesma missiva, com alguma ironia, nota que Buffett ficará “com grande frustração” por ver a carta começar com estes elogios, “mas todos sabemos que são verdadeiros.”

O fundador, agora com 95 anos, mantém-se como presidente do conselho de administração e, segundo Abel, continua presente no dia-a-dia da empresa. “Temos a sorte de ter Warren como Presidente da Berkshire no escritório cinco dias por semana, e disponível para nós à medida que subscrevemos seguros, operamos os nossos negócios não seguros e alocamos capital, incluindo investimentos em ações.”

Do ponto de vista financeiro, 2025 foi um ano sólido, mas não brilhante para a Berkshire:

  • Os resultados operacionais, aquela que Abel, à semelhança de Buffett, considera a medida mais fiável do desempenho do negócio, ascenderam a 44,5 mil milhões de dólares, ficando abaixo dos 47,4 mil milhões registados em 2024, mas ainda acima da média dos últimos cinco anos, que se situa nos 37,5 mil milhões.
  • Em termos contabilísticos (GAAP), o lucro líquido totalizou 67 mil milhões de dólares, face aos 89 mil milhões do ano anterior, uma diferença de 24,7% explicada sobretudo pela volatilidade das mais-valias de investimento, que Abel, como Buffett fazia antes, aconselha a ignorar na avaliação do desempenho real da empresa.
  • Os fluxos de caixa operacionais atingiram os 46 mil milhões de dólares, acima da média quinquenal de 40 mil milhões, num sinal da robustez estrutural da empresa.
Greg Abel tem 63 anos, é canadiano e cresceu numa família de classe trabalhadora em Edmonton. Apaixonado por hóquei, pai de quatro filhos e reconhecidamente discreto, fez carreira na energia antes de Buffett o escolher como sucessor.Leonor Gonçalves/ECO

A cultura de Buffett e da Berkshire é “para a eternidade”

Uma das mensagens mais aguardadas por analistas e investidores dizia respeito à montanha de liquidez acumulada no balanço da Berkshire, e Abel não fugiu ao tema.

O nosso cash e as nossas posições em obrigações do Tesouro americano ultrapassam agora os 370 mil milhões de dólares. Embora parte deste capital seja necessária para suportar as nossas operações de seguros e proteger a Berkshire em cenários extremos, constitui também a nossa pólvora seca”, escreveu o novo líder da empresa.

Este volume de dinheiro disponível na conta da Berkshire tem alimentado especulações sobre uma grande aquisição, mas Abel foi deliberadamente cauteloso na sua carta aos acionistas. “O meu papel é garantir que os níveis de liquidez e a alocação de capital se mantenham intencionais e deliberados.”

Isso significa que a empresa de Buffett volta a seguir os pergaminhos de sempre, não distribuindo dividendos enquanto cada dólar retido puder gerar mais do que um dólar de valor de mercado, e não vai desperdiçar dinheiro só porque o tem.

“Muitas vezes, ao longo da história da Berkshire, alguns observadores sugeriram que a nossa posição substancial em liquidez sinaliza uma retirada dos investimentos. Não é assim”, sublinhou Abel.

Em janeiro, enviei uma carta aos nossos colaboradores para sublinhar que a cultura e os valores da Berkshire mantêm-se inalterados e continuarão em perpetuidade.

Gregory E. Abel

CEO da Berkshire Hathaway

No ano passado, a empresa anunciou duas aquisições — a OxyChem, uma empresa de produtos químicos industriais, e a Bell Laboratories, especializada em controlo de pragas –, ilustrando a disciplina na escolha de negócios com “vantagens duradouras e perspetivas económicas de longo prazo, escreve Abel.

O novo líder da Berkshire foi inequívoco quanto ao que não vai mudar na gestão da empresa. “Em janeiro, enviei uma carta aos nossos colaboradores para sublinhar que a cultura e os valores da Berkshire se mantêm inalterados e continuarão em perpetuidade”, escreveu. Essa cultura assenta em cinco pilares fundamentais:

  1. Um modelo descentralizado, que dá autonomia real aos gestores das subsidiárias;
  2. Integridade sem concessões;
  3. Solidez financeira como ativo estratégico;
  4. Disciplina na alocação de capital;
  5. Excelência operacional.

Sobre a integridade que Buffett sempre promoveu nas suas empresas, Abel recuperou a célebre frase que o Oráculo proferiu no Congresso americano em 1991, quando este era presidente do Salomon Brothers: “Percam dinheiro para a empresa e serei compreensivo; percam um fragmento da reputação da empresa, e serei implacável.” Uma máxima que, assegurou Abel, continuará a reger cada decisão tomada nos quase 400 mil colaboradores da Berkshire nas dezenas de empresas em que tem posições acionistas.

O modelo descentralizado, marca de água da gestão de Buffett, também ficará intocado. “As nossas empresas e CEO nunca terão de navegar por camadas de burocracia, nem terão expectativas de resultados de curto prazo ditadas externamente, o que levaria à destruição de valor de longo prazo”, garantiu Abel.

Uma carteira recheada de muitos negócios

O negócio segurador continua a ser o coração da Berkshire, tendo registado em 2025 um bom ano. O rácio combinado das operações de property & casualty foi de 87,1%, o melhor em comparação com as médias dos últimos cinco (90,7%), dez (93%) e vinte (92,2%), revelam as contas.

Os resultados apresentados revelam também que, no final do ano passado, o float de seguros (capital de terceiros que a Berkshire gere até ter de pagar sinistros e que entretanto investe) ascendia a 176 mil milhões de dólares, mais 5 mil milhões do que no final de 2024.

Além disso, em termos contabilísticos, os resultados operacionais do segmento de underwriting segurador recuaram 19% para os 7,3 mil milhões de dólares, face aos 9 mil milhões em 2024, numa indústria que começou a inverter o ciclo de subida de preços.

As principais posições acionistas da Berkshire somavam 194 mil milhões de dólares em valor de mercado no final do ano passado, gerando dividendos combinados de 2,5 mil milhões de dólares, que se traduziu numa rendibilidade de 10% sobre o custo original.

Na carteira de ações, a concentração em poucos títulos mantém-se como estratégia. No final do ano passado, a Apple representava 62 mil milhões de dólares em valor de mercado, a American Express 56 mil milhões, a Coca-Cola 28 mil milhões e a Moody’s 12,6 mil milhões.

As cinco trading houses japonesas — Mitsubishi, ITOCHU, Mitsui, Marubeni e Sumitomo — valiam em conjunto 35,4 mil milhões de dólares, com um custo de aquisição de 15,4 mil milhões, financiado em ienes a uma taxa média de 1,2%.

No total, as principais posições acionistas somavam 194 mil milhões de dólares em valor de mercado, gerando dividendos combinados de 2,5 mil milhões de dólares, que se traduziu numa rendibilidade de 10% sobre o custo original.

Mas Abel não ficou apenas pelo passado. Com uma honestidade que lembra o estilo direto de Buffett, admitiu os limites do seu próprio mandato. “Não serei o vosso CEO durante os próximos 60 anos — a aritmética simples torna esse plano, digamos, ambicioso”. No entanto, o gestor salientou que “daqui a 20 anos, quando terei apenas uma fração do mandato de Warren, a minha intenção é que vós — ou os vossos descendentes — se orgulhem de que a vossa empresa é ainda mais forte.”

É essa a promessa com que Gregory Abel fecha a sua estreia na escrita mais importante do mundo financeiro. Não com um corte com o passado, mas com uma continuação mais deliberada, mais intencional, e com 373 mil milhões de razões para estar atento ao próximo movimento.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Delfim de Buffett estreia-se com 370 mil milhões para investir

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião