Fusões e aquisições “vão manter momentum” apesar de geopolítica e tarifas, diz Oliver Wyman

Consultora elenca 10 temas que marcam as negociações em 2026 e espera que Portugal siga as tendências europeias, sobretudo na tecnologia, energia e transportes. Data centers têm voto na matéria.

O mercado global de fusões e aquisições vai “manter o momentum” este ano, apesar do contexto de tensão geopolítica e das tarifas de Donald Trump. É esta a expectativa da consultora internacional Oliver Wyman, que explica o movimento com o fluxo de negócios anunciados sem estarem concluídos, capital disponível para investimento e “dinâmicas regulatórias mais flexíveis”.

Na perspetiva da consultora de gestão, o M&A europeu entrou em 2026 com um “dinamismo renovado”, até porque o valor das transações na região cresceu cerca de 12%, atingindo aproximadamente 800 mil milhões de dólares (683 mil milhões de euros), à medida que os investidores redirecionam capitais para o Velho Continente.

“Embora a volatilidade deva manter-se elevada em 2026, com a geopolítica, as taxas de juro e as tarifas ainda incertas, é certo que os argumentos a favor da consolidação em muitos setores europeus continuam fortes”, lê-se no relatório European M&A Outlook enviado ao ECO.

Para o mercado nacional, os especialistas não se comprometem com muitas previsões, depois de o último ano ter sido marcado por fortes quedas em número e um recorde em valor à boleia da banca – ou de um caso especial no setor bancário. Depois da venda do Novo Banco aos franceses do grupo BPCE, não se preveem transações relevantes entre os bancos, como salienta Rodrigo Pinto Ribeiro, senior advisor da Oliver Wyman na Península Ibérica.

“No entanto, alguns bancos de menor dimensão e instituições não bancárias podem tornar-se alvos de aquisição, e existe também potencial para alguma consolidação entre os intermediários de crédito”, antevê Rodrigo Pinto Ribeiro.

Embora o mercado português seja impulsionado, em grande parte, por transações de pequeno e médio porte, os fundamentos que sustentam a realização de negócios permanecem inalterados: balanços patrimoniais sólidos, acesso contínuo a financiamento e uma necessidade estratégica clara de escala, tecnologia e eficiência operacional.

Rodrigo Pinto Ribeiro

Senior advisor da Oliver Wyman

Augusto Baena, partner de Telecomunicações, Media e Tecnologia (TMT) da Oliver Wyman, prevê que a atividade de M&A em Portugal, de um modo geral, “se mantenha resiliente” em 2026 e com uma “trajetória estável a moderadamente positiva” quer valor (preço das empresas) quer em volume (número de negócios).

Volume de transações na Europa por setor alvo da aquisição

Fonte: Dealogic / Oliver Wyman

Em termos de setores, a consultora espera que Portugal acompanhe as principais tendências europeias, sobretudo em áreas como a tecnologia, a energia e os transportes. Sustentado por uma série de vantagens, como localização geográfica estratégica, custos de energia competitivos em comparação com o resto da Europa e investimento “contínuo” nas redes de fibra ótica e 5G, o país deverá manter o “interesse de investidores estratégicos e financeiros”.

As infraestruturas digitais deverão continuar a ser um foco importante, uma vez que Portugal continua a posicionar-se como um centro estratégico para cabos submarinos, centros de dados e plataformas de conectividade”, diz Augusto Baena.

Augusto Baena

Partner da Oliver Wyman

Com os data centers surgem, em simultâneo, as necessidades energéticas. “A energia também deverá permanecer ativa, especialmente em ativos relacionados com as energias renováveis e a transição energética. A forte base renovável de Portugal e as ambições de descarbonização a longo prazo tornam o setor atrativo para a consolidação e o reequilíbrio seletivo das carteiras”, assinala o consultor Augusto Baena.

A mesma lógica de procura de “eficiência, escala e modernização” por parte das empresas levará a atividade de ativos logísticos e de mobilidade, gerando dinamismo nos transportes. “No geral, o tom para Portugal continua construtivo. Embora as condições macroeconómicas globais continuem a moldar a confiança dos investidores, o país beneficia da estabilidade política, de um posicionamento estratégico claro em infraestruturas digitais e energéticas e de uma integração crescente nas redes industriais e de conectividade europeias”, refere o partner de TMT da Oliver Wyman.

Os 10 temas-chave das negociações

A análise da consultora de gestão identifica ainda 10 temas-chave de negociação a nível mundial. Entre os assuntos mencionados, emerge um padrão que está (estará) no centro das fusões e aquisições europeias em 2026: consolidação, escala e alocação de capital mais precisa. Assim, fica a ideia de que as equipas de gestão recorrem ao M&A para consolidar mercados fragmentados e reformular portefólios, alinhando-os com oportunidades de crescimento, necessidades de resiliência e considerações regulatórias e de soberania.

  • Em 2026, a consolidação bancária deverá acelerar, impulsionada pelo alinhamento de capital e políticas. As fusões e aquisições bancárias europeias encerraram o maior ano do setor em mais de uma década, com o volume de negócios a duplicar desde 2020. Espera-se que os bancos gerem, nos próximos três anos, mais de 500 mil milhões de dólares em capital excedente acima dos mínimos regulamentares e que invistam cada vez mais esse capital em M&A, sendo que muitas das operações anunciadas deverão gerar retornos de 15 a 20%.
  • Gestão de ativos e patrimónios na Europa atravessa onda de consolidação, devido à pressão sobre margens e à necessidade de reter clientes. Espera-se que, até 2030, haja cerca de 20% menos gestores de ativos, à medida que as empresas de média dimensão lutam para financiar tecnologia e inteligência artificial, enquanto os líderes do setor ampliam a sua escala e capturam nichos de crescimento.
  • Operadoras de telecomunicações na Europa recorrem a fusões e aquisições para fortalecer o mercado e financiar o crescimento, enfrentando mercados maduros com expansão modesta. Os elevados investimentos necessários para 5G e fibra esbarram na fragmentação do setor, já que as operadoras médias na União Europeia têm cerca de 5 milhões de assinantes, muito menos do que os 107 milhões nos Estados Unidos.
  • Defesa europeia entra em 2026 com uma procura estruturalmente forte, com gastos militares projetados para crescer cerca de 9% ao ano até 2030, elevando os orçamentos em mais de 50% face a 2025. As carteiras de encomendas estão cheias e as linhas de produção operam perto da capacidade máxima, com a procura futura estimada em 20 vezes a produção anual atual. O M&A está a mudar do foco em limpeza de portefólio para um impulso estratégico em capacidades de produção e tecnologias críticas.
  • Operadores logísticos estão a concentrar-se em escala, tecnologia e densidade de rede. Com o crescimento do comércio eletrónico e a diminuição do correio, observa-se uma tendência de consolidação, priorizando negócios menos numerosos, mas de maior valor. Procuram-se sinergias de escala, redes otimizadas e automação para enfrentar a pressão sobre as margens.
  • Indústria farmacêutica e de ciências da vida está a concentrar os seus portefólios em terapias prioritárias, passando para aquisições e parcerias estratégicas. Com financiamento e confiança em recuperação, os ativos de qualidade exigem um prémio, enquanto lacunas no pipeline, patentes prestes a expirar e a necessidade de inovação externa tornam as fusões e aquisições e colaborações essenciais. Alvos são ativos de alto potencial, desde doenças raras a indicações estabelecidas, incluindo terapias avançadas – celulares, biespecíficos e conjugados.
  • Empresas químicas estão a recorrer a fusões e aquisições para se concentrarem em especialidades, fortalecer o cash-flow e garantir posições estratégicas. Pressões persistentes incluem excesso de capacidade em commodities (que deverá atingir cerca de 226 milhões de toneladas em 2025, representando um aumento de 100% nos últimos 10 anos), fraca procura em setores-chave; custos elevados de energia e de matérias-primas na Europa, e requisitos de sustentabilidade mais rígidos.
  • Setor de seguros continua em forte consolidação, tanto entre corretores quanto entre prestadores de serviços, com cerca de 90% das transações recentes apoiadas por capital privado. Seguradoras e corretoras têm demonstrado um interesse crescente em agentes gerais de gestão, recorrendo à integração vertical para proteger margens e diferenciar ofertas. Do lado das seguradoras, fusões recentes na Europa mostram que escala e investimento em tecnologia são essenciais.
  • Empresas europeias detêm cerca de 2,6 biliões de euros em caixa, enquanto os fundos de private equity enfrentam carteiras envelhecidas, longos períodos de investimento e saídas limitadas através de IPO ou vendas secundárias. Isto cria uma oportunidade para compradores comerciais adquirirem ativos apoiados por private equity. Só em 2026, mais de 1.500 ativos europeus poderão chegar ao mercado, especialmente nos setores de tecnologia, indústria e serviços empresariais.
  • Reequilíbrio de portefólios tornou-se central nas fusões e aquisições na Europa, impulsionado por ventos contrários e pelo aumento do custo de capital. Atualmente, um terço das empresas europeias gera rendimentos abaixo do custo de capital, indicando má alocação de recursos. Em 2026, espera-se que a venda de ativos não essenciais ou de baixo desempenho seja estratégica para libertar capital, seja para retorno aos acionistas ou reinvestimento em negócios maiores.

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