O maior risco para a carteira dos investidores não vem do Irão

O conflito no Médio Oriente fez tremer os mercados, mas 126 anos de história provam que o maior perigo para os investidores não é a guerra, mas vender em pânico o ativo que mais riqueza gera.

ECO Fast
  • As ações são o melhor ativo para quem investe a longo prazo, segundo as conclusões do "Global Investment Returns Yearbook 2026" com base em 126 anos de história dos mercados financeiros de 35 mercados.
  • O estudo do UBS revela que os retornos reais das ações tendem a ser mais elevados quando o crescimento económico é mais alto e a inflação é mais baixa.
  • Os autores do estudo referem que a diversificação das carteiras é crucial para mitigar riscos, pois a história mostra que investimentos concentrados podem resultar em perdas significativas durante crises económicas.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Os mercados estão nervosos. A inteligência artificial levantou suspeitas sobre o valor real dos milhares de milhões de dólares em apostas das maiores empresas do planeta. A guerra na Ucrânia arrasta-se sem solução à vista. E este fim de semana os EUA e Israel atacaram o Irão, numa escalada que os analistas já comparam a alguns dos momentos de rutura geopolítica mais marcantes do século XX.

Para muitos investidores, o impulso é o de correr para a saída: vender as ações que têm em carteira, comprar ouro e refugiar-se no dinheiro. É exatamente nesses momentos de pânico que a tentação de sair do mercado parece racional, mas quase sempre se revela um erro.

A edição deste ano do “Global Investment Returns Yearbook”, desenvolvido desde 2000 pelos professores Elroy Dimson (Cambridge), Paul Marsh e Mike Staunton (London Business School) para o UBS desde que há três anos integrou o Credit Suisse, tem os dados para o provar com base em 126 anos de história financeira de 35 mercados distintos (o português incluído).

Embora seja frequentemente afirmado que as ações são uma cobertura contra a inflação, descobrimos que tanto para as ações como para as obrigações, os retornos reais tendem a ser mais elevados quando o crescimento económico é mais alto e a inflação é mais baixa.

Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton

Relatório 'Global Investment Returns Yearbook 2026'

A conclusão mais poderosa da edição deste ano é também a mais simples: as ações são, de longe, o melhor ativo para quem investe a longo prazo. Os dados são impressionantes.

  • Um investimento de 1 dólar feito em ações norte-americanas em 1900 teria crescido para 124.854 dólares até ao final de 2025, em termos nominais, a uma taxa anual de 9,8%. As obrigações e os Bilhetes do Tesouro ficaram muito para trás, com rendibilidades anuais de 4,6% e 3,4%, respetivamente — e a inflação, esse inimigo silencioso, cresceu apenas 2,9% ao ano, o que significa que qualquer investidor em ações bateu em larga margem o aumento do custo de vida neste período.
  • Em termos reais, ou seja, descontada a inflação, as ações norte-americanas geraram um retorno médio anual de 6,6%, contra apenas 1,6% para as obrigações e 0,5% para os bilhetes do tesouro.

No índice mundial, que agrega 90 países, o desempenho das ações foi de 5,3% ao ano em termos reais nos últimos 126 anos, face a 1,7% das obrigações. “A superioridade das ações não é apenas um fenómeno norte-americano. O Anuário mostra que as ações foram a classe de ativos com melhor desempenho em todos os 21 países do Anuário com histórias de investimento contínuas.”

Esta realidade é também verdade em períodos mais curtos, como os últimos 50 e 20 anos. A única exceção é Portugal nas últimas duas décadas, com as ações a contabilizarem uma rendibilidade média anual de 1,8% entre 2006 e 2025 face a um desempenho de 2,5% das obrigações.

A análise dos dados aponta também para um inimigo silencioso que os pequenos investidores frequentemente subestimam: a inflação. Mesmo num dos países com menor inflação histórica do mundo — os EUA, com uma taxa média de 2,9% ao ano desde 1900, 1 dólar em 1900 tem hoje o mesmo poder de compra que 38 dólares. Para Portugal e outros mercados europeus com historial inflacionista mais pesado, o efeito corrosivo é ainda mais dramático.

A análise de Dimson, Marsh e Staunton vai mais longe e desmonta um mito muito enraizado entre os investidores: a ideia de que as ações protegem os investidores automaticamente contra a inflação.

Concentrar toda a poupança num único mercado — seja o português, o europeu ou mesmo o americano — representa um risco desnecessário que a história demonstra ser claramente evitável.

“Embora seja frequentemente afirmado que as ações são uma cobertura contra a inflação, descobrimos que tanto para as ações como para as obrigações, os retornos reais tendem a ser mais elevados quando o crescimento económico é mais alto e a inflação é mais baixa“, referem os autores.

Esta é uma mensagem de enorme relevância no contexto atual. Num cenário em que as pressões inflacionistas continuam presentes, alimentadas em parte pelos custos das tensões geopolíticas, das cadeias de abastecimento perturbadas e do aumento das despesas de defesa na Europa, a escolha dos ativos certos e a gestão cuidada da carteira tornam-se ainda mais decisivas para preservar o poder de compra das poupanças.

É nesse ponto que cabe a importância de os investidores serem capazes de diversificarem o seu portefólio. “Apesar dos desafios, a diversificação continua a ser valiosa. Quando o risco cambial foi coberto, os investidores na grande maioria dos mercados ficaram em melhor situação ao investir globalmente do que domesticamente”, escrevem Dimson, Marsh e Staunton na edição deste ano do “Global Investment Returns Yearbook”.

Contudo, alertam que a diversificação das carteiras está a tornar-se cada vez mais difícil de conseguir em função da maior concentração dos índices em poucas empresas. A edição deste ano do relatório do UBS salienta que, no final do ano passado, a concentração do mercado acionista americano atingiu o ponto mais alto em pelo menos 100 anos, com um punhado de gigantes tecnológicos — Nvidia, Apple, Microsoft, entre outros — a representar uma fatia desproporcional do valor global. Ao mesmo tempo, as correlações entre mercados desenvolvidos e emergentes, e entre ações e obrigações, têm aumentado.

Para os pequenos investidores, a lição é prática: concentrar toda a poupança num único mercado — seja o português, o europeu ou mesmo o americano — representa um risco desnecessário que a história demonstra ser claramente evitável. E os números dão força ao argumento: uma carteira com a combinação clássica de 60% em ações e 40% em obrigações nunca perdeu num ano mais de 50% do seu valor em termos reais ao longo de mais de um século de história — mesmo atravessando duas guerras mundiais, uma Grande Depressão, crises petrolíferas e pandemias –, enquanto carteiras exclusivamente concentradas em ações ou obrigações perderam, em várias ocasiões, mais de 70% por ano em termos reais.

Investir com estilo pode fazer a diferença

O estudo analisa também o chamado factor investing — estratégias que apostam em determinadas características das ações, como o momentum (a tendência de as ações que já subiram continuarem a subir), o valor (value), o tamanho das empresas ou a baixa volatilidade. Os resultados históricos são expressivos.

O fator momentum ofereceu o desempenho mais forte e persistente no longo prazo. Gerou um prémio de 7,7% ao ano nos EUA e, nas 24 décadas-país analisadas, o prémio de momentum ficou em primeiro lugar em 13 delas”, apontam os professores Dimson, Marsh e Staunton. Porém, advertem que em 22% das décadas analisadas, estes prémios de fatores foram negativos, salientando claramente que não há estratégia que funcione sempre e em todos os mercados.

O factor investing pode melhorar os resultados ao longo do tempo, mas não é uma fórmula mágica nem elimina o risco. Para quem investe através de fundos cotados em bolsa (conhecidos como exchange-traded funds — ETF) temáticos ou fundos de gestão ativa com determinada filosofia, perceber em que fatores se está a apostar é tão importante quanto escolher o ativo certo.

O ouro é amplamente percebido como uma cobertura contra a inflação. No entanto, a relação entre o ouro e a inflação é fraca. Dos 28 anos em que a inflação ultrapassou 3%, o ouro teve retornos negativos em 13 deles.

Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton

Relatório 'Global Investment Returns Yearbook 2026'

Igualmente relevante na construção de uma carteira de investimento é a mensagem que os especialistas deixam sobre o ouro, particularmente no período atual, marcado por um escalar das tensões geopolíticas, exponenciado a tentação de comprar ouro como um ativo de refúgio.

O metal precioso é amplamente visto como um ativo de proteção para tempos de guerra e incerteza, mas os autores do “Global Investment Returns Yearbook 2026” lançam um aviso frio, baseado em mais de um século de dados: a relação entre o ouro e a inflação é, na melhor das hipóteses, fraca.

“O ouro é amplamente percebido como uma cobertura contra a inflação. No entanto, a relação entre o ouro e a inflação é fraca. Dos 28 anos em que a inflação ultrapassou 3%, o ouro teve retornos negativos em 13 deles”, lê-se no relatório do UBS. Dito de outra forma: em quase metade dos anos com inflação acima de 3%, o ouro perdeu valor.

Desde 1900, o preço real do ouro em dólares subiu apenas 5,2 vezes, um retorno anualizado de 1,3% ao ano, muito abaixo dos 6,6% reais das ações americanas no mesmo período. No período pós-Bretton Woods (após 1971), o desempenho do ouro melhorou, chegando aos 4,7% ao ano nos EUA em termos reais, mas continua longe de ser a proteção mágica que muitos imaginam.

O ouro pode ter o seu lugar numa carteira verdadeiramente diversificada, mas apostas concentradas no metal, motivadas pelo medo do momento, são raramente justificadas pelos dados históricos.

Há ainda uma última lição do “Global Investment Returns Yearbook” deste ano que merece destaque, precisamente num momento em que o mundo parece virado do avesso: ao longo dos 126 anos estudados, o risco económico revelou-se historicamente mais determinante para os mercados do que o risco geopolítico.

“Na maior parte do tempo, os investidores estariam corretos em ignorar o ruído da geopolítica. Usando uma simples regressão dos retornos futuros do índice mundial contra um índice de ameaça geopolítica, não encontrámos qualquer relação, quer olhemos um mês ou um ano à frente”, refere os autores.

Na apresentação do estudo aos jornalistas, Paul Marsh deu como exemplo o impacto das tarifas comerciais anunciadas por Donald Trump em abril do ano passado. O professor da London Business School notou que esse episódio “teve um impacto imediato nos mercados, mas que foi ultrapassado num espaço curto de tempo.”

Isso não significa que as guerras não importam. A Primeira e a Segunda Guerras Mundiais e o choque petrolífero de 1973-74 estão entre os piores episódios de sempre para os mercados acionistas globais. Mas a regra geral, sustentada por mais de um século de dados, é que os mercados tendem a absorver os choques geopolíticos, desde que não se traduzam em colapso económico.

É uma distinção que qualquer investidor deve ter presente nas próximas semanas, enquanto os noticiários continuarem a mostrar imagens perturbadoras do Médio Oriente e os comentadores multiplicarem as previsões de catástrofe.

A história não repete os seus capítulos à letra, como lembrou Paul Marsh citando uma frase que Shakespeare escreveu em “A Tempestade” que está gravada no edifício dos Arquivos Nacionais em Washington: “O que passou é prólogo.” Contudo, a história oferece um mapa para navegar em tempos perigosos. E esse mapa, construído com 126 anos de dados e 35 mercados, aponta sempre na mesma direção: paciência, diversificação e ações.

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