Portugal é o país europeu com maior percentagem de mulheres inventoras. “É encorajador, mas não suficiente”

  • Joana Abrantes Gomes
  • 3 Março 2026

Num contexto em que a disparidade de género na Europa diminui apenas ligeiramente, o desempenho português destaca-se como um indicador relevante da capacidade competitiva e inovadora da economia.

Portugal ocupa o primeiro lugar no que toca aos níveis de participação feminina no processo de patentes. Entre 2018 e 2022, a proporção de mulheres inventoras em território nacional atingiu os 29,3%, aumentando 2,4 pontos percentuais face aos 26,9% registados no período de 2013 a 2017.

Estes dados constam de um estudo divulgado esta terça-feira pela Organização Europeia de Patentes (OEP), que também destaca Portugal com o segundo maior crescimento na participação de mulheres na atividade inventiva, apenas atrás da Turquia, cuja subida foi de 4 pontos percentuais.

Em entrevista ao ECO, Cristina Margarido, coordenadora do estudo e examinadora de patentes na OEP, sublinha que a evolução, tanto ao nível nacional, como ao nível europeu, “embora seja encorajadora, não é suficiente: mesmo que continuemos a evoluir da maneira que temos evoluído até agora, eventualmente um dia chegaremos à paridade, mas é tão no futuro que quase nem vale a pena pensar nisso”.

Olhando para a média dos 22 países europeus analisados (por terem tido, pelo menos, mil inventores naquele período), a percentagem de mulheres que figuram entre os inventores nos pedidos de patente aumentou apenas de forma marginal nos últimos anos: de 13% em 2019, para 13,8% em 2022. Isto significa que a participação feminina nesta atividade em Portugal é superior em 15,5 pontos percentuais à média europeia.

Segundo o relatório elaborado pelo Observatório de Patentes e Tecnologia da OEP, embora as mulheres estejam cada vez mais presentes em equipas de inventores, continuam a ser muito menos designadas como inventoras individuais, o que evidencia a persistência de barreiras estruturais.

Citado em comunicado, o presidente da OEP, António Campinos, realça que “há um ganho evidente para a Europa em reforçar a participação das mulheres” no setor, apontando a diversidade não como um elemento acessório, mas como “combustível” para a inovação disruptiva.

“Este estudo expõe os obstáculos que ainda persistem no nosso caminho para o progresso, para que a Europa possa desbloquear todo o seu potencial de inovação na investigação, no patenteamento e no empreendedorismo”, afirma.

António Campinos assinala que, neste momento, cerca de um quarto dos examinadores de patentes da OEP são mulheres, um número que aumenta todos os anos graças aos esforços ao nível do recrutamento: só em 2025, 31% dos novos examinadores recrutados foram mulheres, e a proporção de mulheres no programa “Jovens Profissionais” tem-se mantido acima dos 50%.

Só Espanha supera Portugal nas fundadoras de startups com pedidos de patente

O estudo da Organização Europeia de Patentes revela também que a disparidade de género é mais evidente nas startups com atividade de patentes, em comparação com a academia e a indústria. No contexto europeu, apenas 13,5% das startups com patentes incluem uma mulher fundadora, com os Países Baixos, a Áustria e a Alemanha a registarem as taxas mais baixas.

Haver mais mulheres inventoras é mais benéfico para a sociedade: traz melhores invenções e traz mais invenções que afetam toda a gente em vez de apenas afetarem uma parte da população.

Cristina Margarido

Coordenadora do estudo e examinadora na Organização Europeia de Patentes

em Portugal, essa percentagem sobe para 15,7%, o que deixa o país em segundo lugar, somente atrás de Espanha (19,2%), no que diz respeito à participação feminina entre os fundadores de startups com atividade de patenteamento – valores que, embora “ainda muito baixos”, representam uma “evolução positiva” face ao estudo anterior, realça Cristina Margarido. Além disso, 22,9% das startups portuguesas com pedido de patente incluem pelo menos uma mulher entre os seus fundadores.

Não obstante, as startups recém-criadas estão a tornar-se, aparentemente, mais diversas, já que os dados do estudo apontam para que estas apresentem uma maior proporção de mulheres fundadoras na Europa (14% nas empresas mais jovens versus cerca de 5,9% nas empresas com mais de 20 anos).

Os maiores desafios para as startups cofundadas por mulheres surgem, por seu lado, ao nível da sua expansão, com a representação feminina a diminuir nas rondas de financiamento mais avançadas. “Quanto mais a empresa se desenvolve, mais há falhas de financiamento”, assinala Cristina Margarido, que destaca esta questão como “a falha mais gritante” no setor.

As universidades e as organizações públicas de investigação apresentam, de longe, a maior proporção de mulheres inventoras (24,4%), enquanto as pequenas e médias empresas (PME) e os requerentes individuais registam as taxas mais reduzidas de participação feminina.

“Se queremos que haja mais mulheres inventoras, por vários fatores que o tornam mais benéfico para a sociedade — porque isso traz melhores invenções e traz mais invenções que afetam toda a gente em vez de apenas afetarem uma parte da população —, vamos ter de fazer alguma coisa. Um dos pontos que realmente salta à vista é a falta de investimento nas startups fundadas por mulheres, e se calhar é por aí que se pode começar”, aponta a coordenadora do estudo ao ECO.

Há mais mulheres inventoras na indústria farmacêutica, biotecnologia e química alimentar

Outro aspeto destacado no relatório da OEP diz respeito à sub-representação das mulheres entre os doutorados com atividade de patentes, apesar da sua forte presença ao nível do doutoramento, em resultado de uma “persistente ‘fuga de talentos'” (leaky pipeline) que é “particularmente visível quando os investigadores avançam para a comercialização das suas invenções“.

Contudo, o estudo conclui que “a investigação conduzida por mulheres apresenta potencial inventivo comparável ao dos homens”, o que sugere que a menor participação feminina no patenteamento “não se deve à falta de resultados científicos de elevada qualidade, mas a fatores sociais, institucionais e económicos que moldam as oportunidades de carreira”.

A participação feminina destaca-se, sobretudo, em domínios das ciências da vida, nomeadamente na indústria farmacêutica (34,9%), na biotecnologia (34,2%) e na química alimentar (32,3%). Isto contrasta com outros domínios, em particular nas engenharias, em que os níveis são mais baixos: máquinas-ferramenta (5,7%), processos básicos de comunicação (5,5%) e elementos mecânicos (4,9%).

Ao ECO, Cristina Margarido reconhece ainda que a maior participação feminina na atividade de patenteamento traz “efeitos positivos” para a economia, além de que as equipas diversas (que juntam homens e mulheres) “também trazem melhores resultados tanto para as empresas, como em termos de produtos postos à venda para a sociedade”.

Cristina Lopes Margarido, coordenadora do estudo e examinadora de patentes da OEP

O relatório revela, por fim, que as mulheres estão também cada vez mais presentes nas profissões que sustentam o sistema de inovação, representando atualmente 29,2% dos mandatários europeus de patentes.

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