Portugal já não importa gás do Médio Oriente desde 2020
No ano passado, os principais (e praticamente únicos) fornecedores de gás natural a Portugal foram a Nigéria, os Estados Unidos e a Rússia.
Numa altura em que se adensam preocupações em torno do estreito de Ormuz, na sequência do ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão, o fornecimento de gás natural para Portugal não está sob “fogo cruzado”: os parceiros comerciais que alimentaram as necessidades de gás do país em 2025 foram sobretudo a Nigéria, os Estados Unidos e a Rússia. A última vez que Portugal recebeu gás do Médio Oriente foi em 2020, quando o Qatar enviou parte dos volumes.

No ano passado, de acordo com os dados provisórios relativos a 2025 que são divulgados pela Direção Geral da Energia e Geologia, a maioria das importações de gás recebidas por Portugal tiveram como origem a Nigéria, cerca de dois milhões de metros cúbicos normais (Nm3).
O segundo maior parceiro português neste campo foram os Estados Unidos, que “enviaram” até terras lusas 1,6 milhões de Nm3 de gás natural. Em terceiro lugar, Portugal aceitou 269 mil Nm3 provenientes da Rússia, aos quais se seguem 24 Nm3 com origem num país não especificado, os quais vieram ‘à boleia’ de camião cisterna, enquanto os restantes chegaram à costa portuguesa de barco.
O ano de 2020 surge como o último no qual Portugal recebeu volumes de gás natural do Médio Oriente. Do Qatar, também ‘a bordo’ de um barco, chegaram 129 mil Nm3. Já nesse ano a Nigéria era o parceiro com a contribuição mais relevante, de 2,9 milhões de Nm3, seguido dos Estados Unidos, que entregaram 1,1 milhões de Nm3.
Rússia e Argélia, por esta ordem, posicionavam-se no início desta década ainda à frente do Qatar em termos da dimensão da sua contribuição, sendo que também Angola, Argélia, Guiné Equatorial Trinidad e Tobago e Noruega eram fontes de fornecimento, com quantidades que rondavam os 80 mil Nm3.
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Percebe-se, desta forma, que em 2025 o grupo de fornecedores não foi particularmente diversificado, mas as respetivas rotas desenhavam-se por águas menos ameaçadas do que as do Médio Oriente.
“Não é preocupante a questão das quantidades [que chegam ao país]. Até porque, com relativa facilidade, seria possível reforçar um pouco gás proveniente dos EUA, embora este contexto possa criar algum stress a nível do mercado internacional“, afirma Nuno Ribeiro da Silva, consultor na área da energia e ex-CEO da Endesa em Portugal. Considera apenas “problemático” que exista ainda a receção de gás russo, que é “gás a cheirar a sangue”, na medida em que as receitas obtidas com a venda deste recurso sustentam a guerra na sequência da invasão da Rússia à Ucrânia.
Contudo, apesar de os volumes recebidos por Portugal, à partida, estarem seguros, cerca de 20% do GNL mundial passa pelo Estreito de Ormuz e uma suspensão prolongada ou encerramento total aumentaria a concorrência global por outras fontes de gás, fazendo subir os preços a nível internacional.
Preços estão salvaguardados
Os preços dos contratos de gás natural dos Países Baixos, que são referência na Europa, disparam quase 50% esta segunda-feira após a QatarEnergy, importante exportadora de gás natural liquefeito (GNL), ter anunciado que interrompeu a produção devido a ataques lançados pelo Irão. O Qatar, que em breve consolidará o seu papel como o segundo maior exportador mundial de GNL, atrás apenas dos Estados Unidos, desempenha um papel importante no equilíbrio da procura de GNL nos mercados asiático e europeu. “A logística do gás natural é mais frágil e menos diversificada que a do petróleo”, nota Ribeiro da Silva.
Parte do gás natural que é importado para Portugal, e que entra no terminal de Sines, é reexportado para Espanha, mas estes números já descontam esses volumes que não ficam por cá. Assim, dizem respeito a todo o gás que é usado em Portugal para consumos domésticos, industriais, mas também nas centrais de ciclo combinado, que ‘transformam’ o gás em eletricidade.
O aumento dos preços de mercado do gás natural poderia, neste sentido, ser muito relevante mas, à partida, não será tão impactante assim. Isto porque os contratos de fornecimento de gás natural são contratos firmes, com horizontes temporais largos e com preços definidos. Estes preços, explica Nuno Ribeiro da Silva, podem ter alguns ajustes previstos consoante a evolução do preço de mercado, e podem existir compras também fora destes contratos, mas o impacto acaba por ser limitado.
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