PSI afunda 4,24% na pior sessão desde abril numa terça-feira negra nas bolsas
Os 'índices do medo' dispararam para máximos do ano, a Europa sangrou e o PSI não escapou. O conflito no Médio Oriente e a crise energética mergulharam os mercados no caos esta terça-feira.
- Os mercados financeiros enfrentaram uma queda acentuada esta terça-feira, com 83% das empresas europeias do Stoxx Europe 600 a encerrarem no vermelho.
- Os índices do medo tiveram a maior subida do ano, com o VIX a aumentar 27% e o europeu Vstoxx a disparar 31%.
- A pressionar as bolsas europeias esteve também os dados da inflação na Zona Euro, que subiu inesperadamente em fevereiro para 1,9%, criando incertezas sobre a política monetária do BCE.
Há vários dias que os mercados financeiros viviam numa espécie de calma tensa, como se soubessem que a tempestade estava para chegar. Esse dia chegou esta terça-feira em força.
O principal índice da Euronext Lisboa registou a pior sessão desde abril, com o PSI a afundar 4,24% para os 8.878,86 pontos, o nível mais baixo em quase um mês, arrastado por uma vaga de vendas que varreu todas as 16 cotadas do índice e alastrou-se por toda a Europa.
A causa imediata está a milhares de quilómetros de distância, mas os seus efeitos chegaram diretamente às carteiras dos investidores portugueses. A escalada do conflito no Médio Oriente, que se estendeu ao Qatar, à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos, funcionou como rastilho de uma crise que os mercados andavam a temer.
O pan-europeu Stoxx Europe 600 encerrou a cair 3,18%, contabilizando o pior desempenho do índice desde 9 de abril do ano passado, com mais de 83% das suas empresas a fechar no vermelho.
O Qatar, responsável por um quinto da produção mundial de gás natural liquefeito (GNL), suspendeu a produção após ataques às suas infraestruturas em Ras Laffan, desencadeando uma corrida frenética por carregamentos de combustível na Europa e na Ásia.
Os preços do TTF, referência europeia do gás natural, mais do que duplicaram em dois dias, e o Brent chegou a negociar acima dos 85 dólares por barril, numa subida de cerca de 9% numa única sessão, depois de já ter avançado 6% na segunda-feira.
Os chamados “índices do medo” disseram tudo o que precisava de ser dito. O VIX, que mede a volatilidade esperada nas bolsas americanas, chegou a disparar 27% para mais de 27 pontos, enquanto o seu homólogo europeu, o VStoxx, subiu mais de 31% para perto dos 30 pontos — um nível que não era atingido desde abril do ano passado.
Estes números não são meros indicadores técnicos: quando disparam desta forma, significam que os grandes gestores de carteiras estão a comprar proteção em massa, a preparar-se para o pior. E, desta vez, o pior tem cheiro a petróleo e a gás natural.
Pressão da família EDP atira PSI para baixo dos 9 mil pontos
Em Lisboa, a sessão desta terça-feira foi marcada a negro. Nenhuma das 16 empresas do PSI escapou ao vermelho, com a Mota-Engil a encabeçar as perdas ao mergulhar 9,57% para os 4,63 euros, na pior sessão diária da construtora desde setembro do ano passado.
A família EDP foi igualmente fortemente penalizada: a EDP Renováveis recuou 6,96% e a EDP cedeu 6,38%, contabilizando as maiores quedas desde 4 de abril e 6 de novembro de 2025, respetivamente, num sinal claro de que os investidores estão a castigar com especial dureza as empresas do setor das energias, as mais expostas a um choque desta natureza.
Por detrás da queda das cotações, há uma preocupação que vai muito além dos choques energéticos imediatos: a inflação.
O BCP não ficou de fora desta vaga de vendas. As ações do banco liderado por Miguel Maya encerraram a cair 5,04% para os 82,16 cêntimos, o valor mais baixo desde novembro, numa terceira sessão consecutiva de perdas que fazem acumular uma queda de 11% desde sexta-feira – um mergulho que ilustra bem a pressão que recai sobre o setor financeiro europeu neste momento.
No extremo oposto da tabela, Navigator e Galp Energia foram as que resistiram melhor, registando perdas mais contidas de 0,42% e 0,56%, respetivamente.
A fotografia no resto da Europa não foi mais animadora. O pan-europeu Stoxx Europe 600 encerrou a cair 3,18%, contabilizando assim o pior desempenho do índice desde 9 de abril do ano passado, com mais de 83% das suas empresas a fechar no vermelho, e com o setor das utilities e o financeiro a serem os mais penalizados, com perdas médias de 4,6% e 3,9%, respetivamente.
O índice grego ASE foi o mais castigado do continente, a ceder 5,75%, reflexo da elevada exposição da economia helénica ao setor energético e bancário, seguido do espanhol IBEX, que recuou 4,55%. O DAX alemão e o CAC40 francês perderam cerca de 3,4%, enquanto o BEL20 belga foi o menos afetado, com uma queda de 2,13%.
Pressão da inflação assusta investidores
Por detrás da queda das cotações, há uma preocupação que vai muito além dos choques energéticos imediatos: a inflação. Os dados divulgados esta terça-feira pelo Eurostat mostram que a inflação da Zona Euro subiu inesperadamente para 1,9% em fevereiro, com a inflação subjacente, que exclui energia e alimentação, a acelerar para 2,4%.
Se os preços da energia se mantiverem nos níveis atuais, o Banco Central Europeu vê-se num beco sem saída: cortar juros com a inflação em alta seria um erro grave; mas apertar a política monetária numa economia já fragilizada seria igualmente perigoso.
Os operadores de taxa de juro já atribuem 50% de probabilidade a uma subida de juros por parte do BCE ainda este ano, uma hipótese que era praticamente impensável há uma semana.
A história diz que as crises geopolíticas, por norma, não matam os mercados em alta. A exceção são os choques que danificam estruturalmente a economia, como o embargo petrolífero árabe de 1973.
O que torna esta turbulência particularmente inquietante é a velocidade com que os mercados transitaram de um cenário de resolução rápida para o de conflito prolongado.
Na segunda-feira, muitos investidores ainda seguiram o manual histórico de “comprar na queda em geopolítica”, apostando numa saída rápida da crise. Mas nesta terça-feira essa convicção evaporou-se, depois do próprio presidente Donald Trump admitir que o conflito poderá durar mais de quatro semanas.
“A inflação não está morta. Não matámos esse animal”, alertou Andrew Jackson, responsável de investimentos da Vontobel, ao Financial Times, acrescentando que a escalada dos preços do gás e do petróleo “vai piorar as coisas”.
A história diz que as crises geopolíticas, por norma, não matam os mercados em alta, com os índices a recuperarem, em média, alguns meses após o fim das hostilidades. A exceção são os choques que danificam estruturalmente a economia, como o embargo petrolífero árabe de 1973.
Mas, por agora, cada despacho que chega de Teerão, de Doha ou de Riade tem o poder de mexer com as carteiras de milhões de investidores em todo o mundo, e essa é uma incerteza que os mercados detestam mais do que qualquer outra coisa.
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