“Se a cidade inteligente for apenas tecnologia, não vai funcionar”
A frase é de Miguel Castro Neto, diretor da NOVA IMS, que defende que os territórios devem ter uma cultura de dados para conseguirem prever o que vai acontecer, mas também medir e testar soluções.
A segunda conferência do ciclo Futuro Hiper Digital, promovido pela Vodafone Business em parceria com o ECO, aconteceu num contexto que ninguém tinha previsto quando o tema foi inicialmente escolhido: semanas marcadas por tempestades, danos e falhas em serviços essenciais. O resultado foi um debate em que o conceito de “cidades inteligentes” passou a ser, acima de tudo, uma discussão sobre capacidade de resposta e resiliência.
Na abertura, António Costa, diretor do ECO, sublinhou que a coincidência tornou o encontro “ainda mais pertinente” e “mais oportuno”, recordando “aquele trágico dia 28 de janeiro” e a sucessão de impactos. O foco, disse, não pode ficar pela qualidade de vida, mas incluir também a “resposta às populações”, com a necessidade de “reforçar muito” a capacidade de atuação “em situações normais” e, sobretudo, em alturas excecionais como as do último mês. Para uma estratégia robusta de qualquer cidade conectada, lembrou que é preciso ter “dados de qualidade, regras claras, transparência, cibersegurança e eficiência”.
As nossas torres não estão preparadas para ventos superiores a 200 quilómetros por hora. Em 33 anos de telecomunicações, nunca tínhamos visto torres destas serem arrancadas
Do lado da Vodafone Portugal, o administrador Henrique Fonseca lembrou que esta é “a segunda de um ciclo de três conferências” e que, depois da sessão dedicada à cibersegurança, a conversa sobre smart cities ganhou outra urgência. A operadora, contou, reforçou infraestruturas para aguentar falhas elétricas na sequência do apagão do ano passado, mas os eventos extremos expuseram limites físicos que até aqui não tinham sido colocados à prova. “As nossas torres não estão preparadas para ventos superiores a 200 quilómetros por hora”, apontou, sublinhando o carácter excecional destes eventos climáticos. Em 33 anos de telecomunicações, disse, “nunca tínhamos visto (…) torres destas serem arrancadas” apesar de terem “mais de dois metros” de fundações enterrados em betão.
A resposta, argumentou, passa por combinar conectividade com análise avançada e, agora, inteligência artificial. Henrique Fonseca apontou a escala da Internet of Things e do ecossistema gerido pela empresa, que inclui “mais de 230 milhões de dispositivos”, como alavanca para uma gestão mais inteligente de energia, iluminação pública, resíduos, água, segurança e mobilidade.

Para responder a estes desafios, a empresa desenhou o Vodafone Analytics, “uma plataforma que faz uma análise avançada dos dados obtidos em tempo real” a partir da rede móvel, permitindo “conhecer e prever a presença e movimentação das pessoas”, com dados “totalmente anonimizados”. O objetivo é substituir intuição por evidência. “Se passa a ter dados, passa a ter factos”, reforçou o responsável.
Sem dados não há cidade inteligente
O keynotespeach ficou a cargo de Miguel Castro Neto, diretor da Nova IMS, que procurou recentrar o conceito de “cidade inteligente” numa visão europeia, cada vez mais “focada no bem-estar e na qualidade de vida do cidadão”, e num modelo multidimensional, da governação ao ambiente, passando pela mobilidade. Mas foi na arquitetura dos dados que colocou o ponto decisivo, até porque, defende, “se a cidade inteligente for apenas uma questão de tecnologia, não vai funcionar”. É preciso esses dados, claro, para haver massa crítica, mas é preciso também haver um desenho institucional e o processo estar ao serviço das pessoas.
O académico descreveu o salto da eficiência operacional para políticas públicas “baseadas em evidências”, ilustrando com centros de coordenação e controlo, como já acontece em Cascais há vários anos, e com a evolução para modelos preditivos e simulações.
Depois do hype com a inteligência artificial, estamos a ter dificuldades em passar do que fazemos no nosso telemóvel para as nossas organizações conseguirem efetivamente mostrar como é que integramos isto e como é que muda as organizações
A evolução, explicou Miguel Castro Neto, faz-se por níveis de maturidade analítica. Primeiro, a capacidade de integrar dados dispersos numa única plataforma de gestão operacional, que permita perceber “o que está a acontecer” em tempo real. Depois, a utilização de modelos analíticos e inteligência artificial para identificar padrões, antecipar comportamentos e simular impactos. É aqui que entram ferramentas como os gémeos digitais (réplicas virtuais do território) que permitem testar decisões antes de as executar no terreno. A ambição, disse, é passar de “descrever o passado” para “prever o que é que vai acontecer”, testando cenários para apoiar decisões. Para isso, insistiu, é preciso cruzar dados.

Miguel Castro Neto alertou ainda que, apesar do avanço da Estratégia Nacional dos Territórios Inteligentes, “não há sistema de dados para territórios inteligentes” e os portais de dados abertos continuam “muito limitados”. Sem dados “que traduzam a dinâmica do que acontece no território”, avisou, não há gestão em tempo real nem planeamento robusto, uma fragilidade que, na sua leitura, ficou exposta na crise recente. “O grande problema é que ninguém tinha informação. Não conseguimos antecipar, não conseguimos gerir em tempo real e agora não conseguimos também recuperar muito bem”, assinalou.
Na segunda conferência do ciclo Futuro Hiper Digital, o debate sobre cidades inteligentes acabou, assim, por convergir na ideia de que inteligência artificial sem governação e sem interoperabilidade é apenas uma promessa. Mas, por outro lado, se existirem dados e regras, a tecnologia pode tornar-se numa poderosa ferramenta de decisão e de proteção num país cada vez mais exposto a choques.
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