Utilizadores tentam boicotar ChatGPT. Anthropic perde contrato, mas ganha subscrições

Um acordo entre a OpenAI e o Pentágono está a gerar descontentamento, levando utilizadores a cancelar subscrições do ChatGPT e a migrar para plataformas de IA alternativas. Saiba o que está em causa.

Um contrato entre a OpenAI e o Pentágono nos EUA está a provocar uma onda de descontentamento entre os utilizadores do ChatGPT, levando muitos a abandonar a popular plataforma de inteligência artificial (IA) em busca de alternativas, como a da concorrente Anthropic. O boicote está na base da subida do Claude ao topo da loja de aplicações dos iPhones.

Na origem deste movimento está um contrato de 200 milhões de dólares, inicialmente negociado entre a Anthropic e o Departamento de Guerra norte-americano, que caiu por terra depois de a empresa liderada por Dario Amodei ter impedido os EUA de usarem a sua tecnologia em ações de vigilância doméstica em larga escala, assim como em armas autónomas sem supervisão humana.

A posição da Anthropic caiu mal junto do Governo de Donald Trump, que acusou o CEO da Anthropic de “egoísmo”. O Presidente dos EUA decidiu, assim, cancelar as negociações e decretou um período de seis meses para que todas as agências dos EUA migrem dos modelos de IA da Anthropic para os da sua nova parceira tecnológica — precisamente, a OpenAI.

A empresa criadora do ChatGPT passará, assim, a fornecer os seus modelos de IA àquele Departamento norte-americano, seguindo termos altamente confidenciais. A substituição da Anthropic, que permaneceu fiel aos seus valores, pela OpenAI, motivou explicações de Sam Altman, fundador da empresa, que veio garantir os mesmos “princípios” defendidos pela sua concorrente.

Dois dos nossos princípios de segurança mais importantes são a proibição da vigilância doméstica em massa e a responsabilidade humana sobre o uso da força, incluindo no que diz respeito a sistemas de armas autónomas”, escreveu o líder da OpenAI na rede social X.

“O Departamento de Guerra concorda com estes princípios, reflete-os na lei e na política, e incorporámo-los no nosso acordo. Construiremos também salvaguardas técnicas para garantir que os nossos modelos se comportam como devem — algo que o Departamento de Guerra igualmente desejava”, assegurou Sam Altman.

Esta terça-feira foi ainda noticiado que a OpenAI decidiu alterar esta semana os termos do contrato assinado com o Pentágono na última sexta-feira, com Altman a admitir que o mesmo pode ter passado uma imagem de “oportunismo”, segundo o Financial Times. O fundador da OpenAI disse ainda ter defendido junto da Administração norte-americana os mesmos termos para a sua concorrente Anthropic.

Apesar do recuo de Altman, o mal está feito. Perante a situação, e a rapidez com que o acordo entre o Pentágono e a OpenAI foi celebrado, muitos utilizadores do ChatGPT com reservas éticas e morais decidiram boicotar este serviço, cancelando as suas subscrições e optando pelo rival Claude. O movimento foi particularmente visível nas redes sociais, nomeadamente no LinkedIn, onde várias pessoas avançaram estar a trocar o ChatGPT pelo Claude.

Considerado por muitos como o melhor modelo de IA para programadores, através do Claude Code, o assistente da Anthropic deverá sair reforçado desta polémica, ainda que a empresa tenha abdicado de um contrato de 200 milhões de dólares ao recusar ceder às exigências do governo de Donald Trump e o preço pode ser um fator decisivo.

O Claude Pro custa 18 euros por mês, enquanto o ChatGPT cobra 23 euros mensais, o que representa uma poupança anual de cerca de 60 euros para quem optar pelo chatbot da Anthropic. Para empresas, a diferença é ainda mais expressiva: o Claude custa 16,83 euros por mês, contra mais do dobro no caso do ChatGPT na versão business, com um preço de 34 euros mensais.

Debandada de aplicações não é novidade

Os boicotes a produtos e serviços são um fenómeno antigo, mas exacerbado nos últimos anos pelas redes sociais. Por exemplo, em 2022, o Spotify viu-se no centro de uma tempestade quando o músico Neil Young exigiu que a plataforma escolhesse entre a sua música e o podcast de Joe Rogan, acusado de difundir desinformação sobre a Covid-19. O movimento #DeleteSpotify rapidamente ganhou força nas redes sociais, arrastando outros artistas para o protesto.

No mesmo ano, a compra do Twitter por Elon Musk desencadeou uma vaga de abandonos em direção ao Mastodon e, mais tarde, ao Bluesky, motivada por mudanças na moderação e pelo regresso de contas controversas à plataforma. Já em 2021, bastou uma alteração na política de privacidade do WhatsApp para que milhões de utilizadores migrassem em massa para o Signal e o Telegram numa única semana.

Ultimamente, também a Tesla tem sido pressionada pela aproximação de Musk ao Presidente dos EUA, Donald Trump. A entrada do sul-africano na política norte-americana tem sido usada para explicar o facto de a fabricante de carros elétricos estar a perder o lustro na Europa, tendo já sido ultrapassada pela rival chinesa BYD.

O padrão é recorrente e, quando uma empresa compromete os valores que a tornaram popular, os utilizadores procuram alternativas. Uma decisão polémica, uma opção disponível e uma comunidade ativa nas redes sociais bastam para desencadear um êxodo dos utilizadores ou clientes.

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