Câmara de Cascais não afasta interdição do Autódromo do Estoril, apesar de ser parte da agenda de eventos para 2026
Autarca assegura ter investidores para requalificar o autódromo, caso este lhe seja concessionado pela Parpública. Câmara pode interditar o circuito por incumprimento das normas de insonorização.

A Câmara de Cascais não desiste de tomar controlo do Autódromo do Estoril, mas também não afasta a possibilidade de vir a interditar a estrutura, para a qual já tem agendados vários eventos (ver abaixo), num alinhamento que prevê a presença de mais de um milhão de visitantes.
“O Estado, a Parpública e o Circuito do Estoril têm uma sentença judicial que os obriga a fazer uma série de investimentos, nomeadamente em barreiras acústicas, que continuam sem fazer. Se calhar, um dia destes, o próprio município de Cascais tem que interditar o circuito porque não está a ser cumprida a lei do ruído”. Em conversa com o ECO/Local Online no dia da apresentação do plano de eventos do município para 2026 – nos quais se esperam mais de um milhão de visitantes – o autarca cascalense assegura que este “é um circuito que, hoje, não tem as mínimas condições para receber pilotos, equipas e o público. Tenho poucas dúvidas de que, a continuar a ser gerido da forma que tem sido gerido nas últimas décadas, não terá qualquer futuro”.
A autarquia pretende negociar um direito de superfície a favor do município, de até 75 anos, com uma renda total de 12,5 milhões de euros. “Durante esses 75 anos, o município ficava responsável pela gestão daquele ativo estratégico, mantendo o compromisso para com o Estado de que a vocação motor continua a ser a prioridade”, afirma Nuno Piteira Lopes.
Segundo o autarca, há deficiências um pouco por toda a infraestrutura. “A bancada A está interditada porque a pala corre o risco sério de colapsar, e não se ver um euro de investimento por parte de quem gere o ativo na recuperação ou na colocação de uma nova pala não me parece que seja uma boa gestão”.
O circuito do Estoril é um circuito que, hoje, não tem as mínimas condições para receber pilotos, equipas e o público. Tenho poucas dúvidas de que, a continuar a ser gerido da forma que tem sido gerido nas últimas décadas, não terá qualquer futuro.
Adicionalmente, “chove dentro das boxes” e as instalações sanitárias “não têm condições dignas para receber provas nacionais e internacionais”, nota, acusando o Estado de deixar ao abandono a infraestrutura.
Com a requalificação, o município quer juntar um kartódromo, uma escola profissional para restauro de clássicos, uma garagem-museu com a dupla função de guarda de viaturas de colecionadores e mostra destas ao público e até um novo chamariz para diversão noturna.
“Temos a grande ambição de, por baixo das bancadas A e B, aproveitar todo esse espaço para fazer um grande hub de diversão noturna. É mítico o [bar] 2001, mas temos espaço para fazer vários 2001”, diz Piteira Lopes.
Depois de, no final do ano passado, numa entrevista ao Jornal de Negócios, ter avançado com um valor de 150 milhões de euros para a grande renovação do autódromo inaugurado em 1972, o autarca prefere, agora, fugir aos valores envolvidos nesta requalificação, embora assegure ter garantido o apoio de investidores nacionais com fundos não portugueses.
A bancada A está interditada porque a pala corre o risco sério de colapsar, e não se ver um euro de investimento por parte de quem gere o ativo na recuperação ou na colocação de uma nova pala, não me parece que seja uma boa gestão.
“Gostava muito de lhe responder, mas a última vez que respondi a essa pergunta, aquilo que foi a interpretação por parte da Parpública é que ‘se há pessoas interessadas em investir esse valor, eles que invistam connosco’”.
A Câmara, garante, “tem os parceiros privados, mais do que um, que estão disponíveis para, em conjunto com a Câmara, fazer os investimentos necessários”.
Piteira Lopes considera que o Autódromo onde o piloto brasileiro Ayrton Senna alcançou a sua primeira vitória de sempre na Fórmula 1 “é um ativo que há muito tempo deixou de ser estratégico para o Estado, caso contrário, o Estado não continuava a investir num autódromo privado, como é o de Portimão, quando tem um autódromo que é dele”. Para o presidente da autarquia, seria “a mesma coisa de, em vez de investirmos na nossa casa, estarmos a investir na casa do vizinho”.

“A Parpública e o circuito do Estoril já têm, da parte da Câmara, todos estes compromissos assumidos, e por escrito, e está do lado da Parpública tomar uma decisão, que tarda, e que não se percebe o porquê de não existir. Mesmo que seja um não”, insta.
Sobre os usos inscritos em PDM a dar ao circuito e ao terreno onde se encontra, Piteira Lopes é claro: “enquanto eu for presidente da Câmara Municipal de Cascais, prevê apenas e exclusivamente uma estrutura desportiva ligada ao motor”.
Esta não é a primeira vez que Cascais manifesta a intenção de tomar o controlo sobre o autódromo. Em outubro, após uma reunião com o Governo, a autarquia, à data ainda liderada por Carlos Carreiras, ainda falava numa aquisição, processo que chegou a ser acelerado na década passada, por um valor de cinco milhões de euros, mas que acabaria chumbado pelo Tribunal de Contas, em 2015.
Mais de um milhão de visitantes esperados com o calendário de eventos

A presença do piloto Miguel Oliveira na prova do Mundial de Superbikes, na sua primeira época nesta categoria após vários anos a correr na categoria rainha (Moto GP), é um dos grandes atrativos da agenda de Cascais para 2026. A prova decorrerá, precisamente, no Circuito do Estoril, de 9 a 11 de outubro.
Num investimento da Associação de Turismo de Cascais, com as receitas da taxa turística transferidos pela Câmara, este calendário de eventos durará até à passagem de ano. Em 2026, a autarquia aumentou o valor da taxa turística, esperando obter, este ano, um total de 10 milhões de euros, mais de 50% de acréscimo face aos seis milhões de euros encaixados em 2025.
Também ao autódromo acorrerá, a 14 de maio, o campeonato Caterham, e, de 18 a 20 de setembro, automóveis clássicos de corridas, no Estoril Classics, prova que em 2025 reuniu 40 mil pessoas em torno das 254 equipas, com 344 pilotos de 21 nacionalidades. No mês seguinte, de 20 de outubro a 1 de novembro, o Porsche Sprint Challenge Ibérica colocará dezenas de pilotos em mais de uma dezena de corridas. Ainda nos motores, o histórico Rallye das Camélias concentrará os carros de corrida nos Jardins do Casino do Estoril, antes de partirem para as estradas a 25 e 26 de abril. No mês seguinte, o Rally de Lisboa vai realizar um momento de espetáculo com a city stage na Marina, nos dias 28, 29 e 30.
Em ritmo mais calmo, as motos serão estrela na The Distinguished Gentleman´s ride, a 17 de maio, e, de 18 a 21 de junho, e na concentração de motos Harley-Davidson, com dezenas de milhares de pessoas esperadas para ver a reunião de motos da marca norte-americana. Ausente de Cascais desde 2019, esta é a terceira vez que o evento europeu se desloca ao município. No programa está incluído um desfile ao longo de 32 quilómetros.
Com outros sons, a música passa pelo Ageas Cooljazz, durante todo o mês de julho, pelo Cascais Ópera (29 de maio a 7 de junho), pelo Cascais Atlantic Sunsets (1 a 22 de agosto), pelas Festas do Mar, em agosto, e ainda pelo Festival Coala (30 e 31 de maio no Hipódromo Manuel Possolo) e pelo Festival Art Explora (22 a 28 de junho na marina, com concertos e DJ sets e a presença de um barco museu).
O calendário terá ainda os tradicionais eventos desportivos ligados ao hipismo, ténis e vela, neste caso beneficiando das novas instalações do Clube Naval de Cascais. Este ano, o Estoril Open muda de data e passa para de 18 a 26 de julho, com o interesse adicional de subir de estatuto com o regresso ao ATP 250 – contudo, ainda se terá de esperar por uma próxima edição para a prova se mudar para as novas instalações.
No lado do exercício físico, a Maratona EDP vai sair de Carcavelos a 11 de outubro, com a ambição de crescer quase 50% no número de participantes, para 20 mil, enquanto o duro Iron Man, que já tem mais três anos assegurados neste município e será realizado a 17 de outubro, conseguiu esgotar as inscrições em apenas 13 dias.
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