Conflito no Irão já toca preço ibérico da eletricidade. Indústria mais vulnerável

Um conflito no Irão mais duradouro pode ditar um 'retorno' à crise energética que assolou a Europa entre 2021 e 2023, mas para já a gravidade é menor.

“A escalada militar no Médio Oriente está a criar uma pressão real e imediata sobre os mercados energéticos globais”, assume João Melo, co-fundador do comparador de preços de energia Manie. Os especialistas consultados pelo ECO/Capital Verde afirmam que o impacto no mercado energético vai depender da duração do conflito, e a gravidade da situação só se aproximará da última crise energética enfrentada pelo Velho Continente caso este de facto se prolongue. Ainda assim, com os preços do gás a disparar, já se sentem alguns efeitos no mercado ibérico da eletricidade, cujos preços para esta quarta-feira marcam praticamente o dobro dos do dia anterior. Neste cenário de aumento de preços, a indústria é a mais vulnerável.

O economista sénior do Banco Carregosa, Paulo Rosa, entende que, embora “estruturalmente dependente dos combustíveis fósseis”, a Europa está hoje “menos vulnerável que em 2022”. Na opinião do economista, “para gerar um choque semelhante à crise energética de 2022, seria necessário um corte prolongado e estrutural na oferta, e não apenas instabilidade pontual”.

Na mesma linha, Ugne Keliauskaite, analista e investigadora nas áreas de Energia e Clima no think tank Bruegel, afirma que a hipótese de a Europa reviver uma crise energética semelhante à de 2022, depende da duração do conflito e das restrições associadas.

Para gerar um choque semelhante à crise energética de 2022, seria necessário um corte prolongado e estrutural na oferta, e não apenas instabilidade pontual.

Paulo Rosa

Economista Sénior do Banco Carregosa

Uma diferença crucial é que, ao contrário de em 2022, “a Europa está a sair do inverno”, o que lhe dá tempo para reabastecer as reservas e reduz o risco imediato de escassez física, frisa a investigadora do Bruegel. De acordo com a base de dados de armazenamento AGSI, a 1 de março deste ano, as reservas da União Europeia para o armazenamento de gás estavam preenchidas a apenas 30% da sua capacidade.

Os Países Baixos exibem a percentagem mais reduzida, de 10,55%, enquanto Portugal se coloca no extremo oposto, com 76,72% da sua capacidade de armazenamento preenchida. Isto não significa que Portugal possa ser uma grande ajuda para os restantes Estados membros: tem reservado, ainda assim, menos de um quinto do gás natural que os Países Baixos guardam de momento, já que estes últimos têm uma capacidade de armazenamento muito superior.

 

olhando aos preços do gás, há alguns sinais de alarme. Os contratos de gás Title Transfer Facility (TTF), que são negociados nos Países Baixos e referência para a Europa, duplicaram o preço em apenas dois dias de negociação, destaca Paulo Rosa, para depois acrescentar: “Os preços do gás natural na Europa igualaram hoje os níveis de fevereiro de 2025 e de outubro de 2023. Acima destes valores, regressaríamos aos patamares de 2022, quando o TTF holandês, principal referência europeia, atingiu máximos históricos à volta dos 350 euros por MWh, em agosto desse ano, no pico da crise energética”.

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Contudo, olhando ao copo meio cheio, o TTF parte desta vez de um nível que se cifra em aproximadamente metade do observado no início da última crise, “pelo que o mercado não se encontra já sob pressão urgente”, considera a investigadora do Bruegel, a qual prevê que, se o tráfego de petroleiros através do Estreito de Ormuz for retomado rapidamente e os danos nas infraestruturas forem limitados, é provável que os preços estabilizem após o pico inicial, à medida que os receios diminuem.

No entanto, se o transporte marítimo permanecer bloqueado durante dias ou semanas, os mercados anteciparão menores exportações, oferta mais restrita e custos mais elevados de frete e seguros, o que manterá os preços em alta. O cenário mais grave, assinala a investigadora, seria a ocorrência de danos significativos nas infraestruturas de petróleo e gás no Golfo. Nesse caso, o mercado deixaria de reagir apenas ao receio e passaria a refletir uma perda efetiva de oferta.

Em suma, “uma interrupção breve provocaria provavelmente forte volatilidade dos preços, enquanto uma paragem prolongada durante a época de reconstituição das reservas poderia recriar elementos da crise de 2021–2023”, prevê Keliauskaite.

Renováveis ajudam em Portugal, mas preços já aumentam

Na Europa, os preços da eletricidade negociados para esta quarta-feira, estão na generalidade mais elevados. No mapa baixo, do site agregador Energy Charts, nota-se que por exemplo o preço grossista da eletricidade na Alemanha saltou de 106,52 euros na terça-feira, e dos cerca de 93 euros do dia anterior, para 147,40 euros no dia 4 de março. Outro dos motores económicos do Velho Continente, França, subiu de 29,30 euros na segunda, para quase 60 euros na terça e na quarta marca 75,06 euros.

No mercado grossista ibérico, o preço horário atingiu esta terça-feira um pico de 150 euros por megawatt-hora (euros/MWh), para fornecimento a 4 de março, “o que sugere que parte da tensão nos mercados internacionais do gás já se está a refletir nos preços da eletricidade”, afirma o economista sénior do Banco Carregosa. Esta terça-feira, o preço médio para o dia seguinte da eletricidade no mercado grossista ibérico, em particular no polo português, marcou os 56,4 euros/MWh, quase o dobro dos 28,43 euros por MWh do dia anterior, e praticamente quatro vezes o preço negociado na sexta-feira, antes de estalar o conflito no Irão. A média de preços no mês de março está a roçar os 30 euros por MWh, quando em fevereiro se ficou pelos 10,65 euros/MWh. Em janeiro, contudo, a média era mais elevada, cifrando-se em 71,19 euros/MWh.

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Países com maior peso de renováveis e nuclear tendem a ser menos sensíveis ao preço do gás, ressalva, contudo, Paulo Rosa. Este é o caso de Portugal, cuja eletricidade é cerca de 80% proveniente de fontes renováveis. As renováveis ajudam porque o preço da eletricidade no mercado grossista, onde comercializadores compram a eletricidade aos produtores, é dado pela tecnologia mais cara à qual é necessário recorrer a cada hora e, se não for necessário recorrer a eletricidade produzida em centrais a gás, porque há renováveis suficientes para satisfazer toda a procura de eletricidade, os preços da eletricidade não serão afetados nesse momento pelos preços elevados do gás natural.

Portugal poderá registar um aumento mais limitado dos preços da eletricidade se a produção hídrica, eólica e solar for robusta, uma vez que, nesse caso, as centrais a gás serão menos frequentemente necessárias”, indica Ugne Keliauskaite. Fonte do setor realça que, em abril e maio, meses que se aproximam, o preço da eletricidade no mercado ibérico tende a afundar, já que por norma ainda não aumentou a procura (ainda não está calor suficiente para se recorrer muito a ar condicionado), começa a haver mais sol para produzir energia, e ainda há muita água nas barragens e vento considerável, o que também deixa Portugal algo protegido para esse horizonte.

Portugal poderá registar um aumento mais limitado dos preços da eletricidade se a produção hídrica, eólica e solar for robusta, uma vez que, nesse caso, as centrais a gás serão menos frequentemente necessárias.

Ugne Keliauskaite

Analista e investigadora nas áreas de Energia e Clima no think tank Bruegel

Ainda assim, os consumidores não estão a salvo, em particular os da indústria. João Melo, co-fundador do comparador de preços de energia Manie, fala de “uma provável subida do preço da eletricidade, especialmente para quem tem tarifas indexadas ao mercado grossista”. Os consumidores domésticos têm, na sua maioria, contratos a preço fixo, que não sofrem diretamente com as alterações dos mercados – mas devem estar atentos ao momento de renovação do respetivo contrato, e procurar a melhor opção disponível na altura.

"Portugal poderá registar um aumento mais limitado dos preços da eletricidade se a produção hídrica, eólica e solar for robusta, uma vez que, nesse caso, as centrais a gás serão menos frequentemente necessárias.”

Paulo Rosa

Economista Sénior do Banco Carregosa

Paulo Rosa relembra que “O setor industrial é normalmente o mais exposto a choques energéticos, porque a energia representa uma fatia relevante dos seus custos e porque muitas empresas compram gás e eletricidade a preços indexados ao mercado”. Em sintonia, Simone Tagliapietra, investigadora também no think tank Bruegel, indica que “as operações de reenchimento das reservas poderão ser perturbadas, exercendo pressão sobre os custos energéticos industriais na Europa”, tendo em conta que “preços mais elevados do gás repercutem-se nos preços da eletricidade e nas margens industriais, especialmente nos setores intensivos em gás”. “Alcançar o objetivo da Europa de reduzir os custos energéticos industriais — uma questão central nas preocupações dos líderes da UE em matéria de competitividade — poderá tornar-se mais complexo”, conclui a mesma.

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