Investidores em pânico destroem mais carteiras do que a guerra
O conflito no Médio Oriente sacudiu os mercados mundiais, mas os especialistas são unânimes em afirmar que as decisões tomadas por medo custam mais caro do que qualquer queda das bolsas.
Há eventos que mudam tudo de repente. O ataque dos EUA e de Israel ao Irão no sábado foi um desses momentos. Nos dois dias que se seguiram, as principais bolsas mundiais reagiram em força.
Entre segunda e terça-feira, as bolsas europeias registaram perdas acentuadas, com o PSI a cair num só dia 4,3%, na pior sessão desde abril, e o Stoxx Europe 600 resvalou mais de 3% num só dia, enquanto a cotação do Brent subiu mais de 12% para mais de 80 dólares e o preço do gás disparou 70% em dois dias, e o popular “índice do medo” (VIX) chegou a escalar quase 30% num só dia. A guerra no Médio Oriente voltou a testar os nervos de milhões de investidores.
Para os pequenos investidores que assistem à sua carteira de investimentos a minguar no ecrã do smartphone à velocidade que o escalar do conflito entra pela televisão, o impulso natural é vender tudo e aguardar que a tempestade passe. Mas essa é precisamente a decisão que, na maioria dos casos, se revela um erro.
Em períodos marcados por choques geopolíticos e volatilidade energética, a prioridade não deve ser efetuar o ‘timing do mercado’, mas preservar a coerência da estratégia.
Esta não é a primeira vez que as bolsas reagem desta forma a choques geopolíticos, e também não será a última. O que a história mostra, de forma consistente, é que correções motivadas por eventos deste tipo tendem a ser rápidas, violentas e, na maioria das vezes, temporárias — desde que não se traduzam num colapso económico real.
Pedro Barata, diretor-executivo da CFA Society Portugal, lembra um estudo recente do Morgan Stanley que analisou todas as guerras ocorridas após 1950 que concluiu que o índice norte-americano S&P 500 valorizou, em média, 5,9% seis meses após o início do conflito e 8,4% ao fim de um ano.
O “Global Investment Returns Yearbook 2026”, desenvolvido com base em 126 anos de história financeira de 35 mercados distintos, vai mais longe: ao usar uma regressão simples dos retornos futuros do índice mundial contra um índice de ameaça geopolítica, os autores não encontraram qualquer relação entre ambos. A questão não é se as bolsas vão recuperar, mas se o investidor consegue aguentar o caminho sem tomar decisões que o prejudiquem a longo prazo.
Disciplina estratégica em tempos de guerra
Em períodos como o atual de forte volatilidade, a tendência é olhar para o curto prazo e reagir às notícias que entram pelos olhos a toda a hora. Mas os especialistas ouvidos pelo ECO são unânimes em considerar que a disciplina estratégica vale mais do que qualquer reação tática.
João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa, lembra que “em períodos marcados por choques geopolíticos e volatilidade energética, a prioridade não deve ser efetuar o ‘timing do mercado’, mas preservar a coerência da estratégia“. Para investidores de longo prazo, ajustes pontuais podem fazer sentido se a exposição for excessiva ou concentrada, mas abandonar o plano durante picos de volatilidade raramente produz bons resultados.
Existindo um perfil de risco adequado e mantendo-se o racional subjacente às decisões de investimento, o ideal poderá ser fazer como o urso: hibernar a visualização da performance da sua carteira.
O problema é que a emoção é difícil de travar. Quando se vê a carteira a cair a pique, o cérebro desata a procurar saídas. É aqui que João Queiroz aponta para uma solução prática: transformar certas regras em automatismos. “Rebalanceamentos periódicos, investimentos programados e limites claros de exposição por setores, temas e geografias ajudam a reduzir a interferência emocional”, diz.
Há decisões que, em dias de turbulência, devem ser simplesmente evitadas: vender ativos de qualidade após quedas abruptas, alterar drasticamente a alocação estratégica ou reagir a manchetes de curto prazo. “Em mercados voláteis, a gestão do comportamento é tão importante quanto a gestão do capital”, sublinha João Queiroz.
Emília Vieira, CEO da Casa de Investimentos e gestora do fundo Save & Grow PPR, partilha a mesma leitura, mas com uma perspetiva ainda mais direta. Para a gestora, manter o rumo não é apenas a opção mais racional, mas a única que faz sentido para quem investe com um horizonte temporal de longo prazo.
Os investidores devem pensar como donos de um negócio e não especular no que poderá acontecer no curto prazo. Muitas vezes no investimento a melhor decisão é não fazer nada.
“A volatilidade é o preço a pagar por bons retornos. Só deve investir em ações quem tem um horizonte de longo prazo e o temperamento adequado para suportar as oscilações de mercado“, diz. O desafio, refere, é que perante um evento inesperado, como uma guerra que domina as manchetes durante dias seguidos, a tendência natural é reagir emocionalmente e desviar do plano traçado. E é exatamente nesse momento que a maioria dos erros acontece.
Para Emília Vieira, a forma de contrariar esse impulso passa assim por uma mudança de perspetiva: deixar de olhar para a carteira como um conjunto de preços que sobem e descem e começar a pensar como um dono de negócio. “Os investidores devem pensar como donos de um negócio e não especular no que poderá acontecer no curto prazo. Muitas vezes no investimento a melhor decisão é não fazer nada.”
A referência a Benjamin Graham, o pai do investimento em valor e mentor de Warren Buffett, surge naturalmente no seu discurso: “o ‘Sr. Mercado’ existe para servir o investidor, não para o guiar”. Quando a bolsa cai por razões emocionais e não por deterioração real dos fundamentos, o investidor disciplinado não foge: fica, ou aproveita para comprar.
Liquidez em mãos: esperar ou aproveitar a queda das bolsas?
Pedro Barata, diretor-executivo do CFA Society Portugal, traz para a equação um elemento muitas vezes ignorado: a frequência com que o investidor olha para a carteira.
O especialista refere que há evidência empírica de que quanto mais vezes o investidor consulta os seus investimentos, pior tende a ser a sua performance, porque fica mais exposto emocionalmente aos movimentos adversos de curto prazo. Por isso, recomenda aos investidores seguirem o comportamento dos ursos. “Existindo um perfil de risco adequado e mantendo-se o racional subjacente às decisões de investimento, o ideal poderá ser fazer como o urso: hibernar a visualização da performance da sua carteira.“
No centro das dúvidas de muitos investidores está também a indecisão sobre se devem aproveitar a janela de “saldos” para ir às compras. A resposta depende, em boa medida, da leitura que cada um faz do contexto macroeconómico e geopolítico gerado pela guerra no Médio Oriente.
Diogo Telhado, analista da Sixty Degrees, explica que um investidor que acredite que as tensões no Médio Oriente se irão prolongar além do que o mercado espera poderá optar por aguardar porque, “caso esse cenário se concretize, as bolsas, especialmente a europeia, poderão sofrer mais, registando mais dias de forte volatilidade ou quedas acentuadas, como aconteceu nos dias 2 e 3 deste mês.”
Para quem, pelo contrário, já estiver totalmente investido, o analista considera que “a melhor estratégia, neste momento, é esperar que a tendência de longo prazo volte a ser dominante.”
Tentar acertar no momento certo para entrar ou sair, acaba muitas vezes por se aproximar mais de um jogo de azar do que de uma estratégia consistente.
Para quem pretende aproveitar as quedas para entrar na bolsa, a metodologia prudente é fazê-la por tranches, refere João Queiroz, recomendando dividir o capital disponível em três ou quatro partes e aplicá-las ao longo de semanas ou meses, ajustando gradualmente a exposição à medida que o mercado confirma — ou não — uma fase de estabilização.
Os sinais a observar para seguir esta estratégia passam pela “estabilização da volatilidade, recuperação gradual da amplitude do mercado, normalização dos spreads de crédito e maior consistência nas revisões de resultados das empresas”, defende. Não há atalhos nem fórmulas mágicas, mas método.
O risco maior para os pequenos investidores, paradoxalmente, não está em entrar na bolsa num momento difícil. Está em tentar adivinhar o momento certo para o fazer.
Peter Lynch, um dos gestores de fundos mais bem-sucedidos de todos os tempos, deixou-o escrito de forma lapidar: “Muito mais dinheiro foi perdido por investidores a tentarem antecipar correções do que nas próprias correções.”
Diogo Telhado acrescenta uma dimensão igualmente importante: ao tentar acertar no timing, muitos investidores acabam por ficar de fora precisamente nos dias de maior recuperação, que tendem a concentrar uma parte significativa dos ganhos totais. “Tentar acertar no momento certo para entrar ou sair, acaba muitas vezes por se aproximar mais de um jogo de azar do que de uma estratégia consistente”, diz.
A diversificação — por instrumentos financeiros, setores, temas e geografias — continua a ser o amortecedor mais eficaz que qualquer pequeno investidor tem ao seu dispor para atravessar períodos como este. Não protege contra uma crise sistémica, mas minimiza o impacto dos choques que, como a guerra no Médio Oriente, surgem sempre sem aviso.
No fim do dia, o que separa o investidor que sai ileso de uma crise do que o que sai a perder não é a capacidade de prever o futuro, mas a forma como reage quando ele não corresponde ao esperado.
As bolsas já sobreviveram a guerras, pandemias, crises financeiras e colapsos geopolíticos, e a história mostra que o tempo é, invariavelmente, o melhor aliado de quem sabe esperar. É por isso que Emília Vieira considera que “a volatilidade deve ser vista como uma oportunidade e não como um risco”, salientando que enquanto “o investidor de curto prazo vê riscos, um investidor de longo prazo vê oportunidades.”
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