Na despedida, Marcelo anuncia fim da intervenção política. Montenegro aposta que não

  • Joana Abrantes Gomes
  • 5 Março 2026

Luís Montenegro “desconfia” que será difícil para o ainda chefe de Estado “resistir à tentação” de intervir publicamente após passar a pasta a António José Seguro. Marcelo recusa “empecilhar”.

É mesmo o fecho da intervenção política“. Depois de discorrer sobre a carreira de jornalista (e o “muito mais difícil” exercício da profissão nos dias de hoje), de governante e de comentador, Marcelo Rebelo de Sousa terminou as suas declarações à comunicação social, no final da reunião do Conselho de Ministros a que presidiu esta quinta-feira de manhã, anunciando que, ao fim de várias décadas, vai dedicar-se “a outras atividades, que também são civicamente importantes, mas não são políticas”.

A poucos dias de abandonar o Palácio de Belém, o chefe de Estado revela, assim, que não pretende intervir mais publicamente. “Há momentos na vida em que temos de fazer opções. Foram 60 anos a intervir. Não foi só na Presidência da República, foi no Governo, no Conselho de Estado, como [deputado à assembleia] constituinte, como líder partidário, como autarca, também na comunicação social. E há um momento em que, de facto, deve saber-se sair de cena. Talvez seja a coisa mais difícil no mundo“, afirmou, já em resposta aos jornalistas presentes em São Bento.

Mas aí “não pode haver meio-termo“. O ainda Presidente da República considera que, se depois de 9 de março – dia em que António José Seguro tomará posse – aparecer esporadicamente a comentar assuntos da vida política, “cria-se uma situação equívoca que é negativa para todos”.

Marcelo revelou, por conseguinte, ter aprendido uma coisa enquanto Presidente da República: “Aprendi a admirar os meus antecessores ainda mais do que já admirava. Aprendi a dificuldade que é ser-se Presidente da República. Aprendi quantas vezes eu não agradeceria não ter ex-presidentes a intervir na vida política”.

Como tal, tem agora “a obrigação de ter aprendido a lição”, isto é, “não empecilhar, nem em relação ao Presidente da República, nem em relação ao Governo, nem em relação à Assembleia da República”.

O Conselho de Estado, do qual deverá fazer parte durante o mandato de António José Seguro, por ter sido Presidente da República, é o único sítio onde admite intervir, “se for adequado”. “Mas, fora isso, deve abster-se de intervenção política”, sublinha, elencando a educação, a cultura ou a prestação de serviços sociais como exemplos de domínios onde poderá “falar de outras coisas”.

Não obstante, Marcelo assumiu que será difícil essa abstenção. “Veremos. O primeiro-ministro desconfia, diz que a tentação vai ser muito grande“, afirmou, entre risos, sentado lado a lado com Luís Montenegro. “Mas há que resistir à tentação, por uma questão que considero que é de princípio, é salutar para as instituições. Portanto, vou experimentar contribuir para a saúde das instituições dessa maneira”, concluiu.

Para definir os quase dois anos de coabitação com o atual primeiro-ministro, Marcelo Rebelo de Sousa recorreu à expressão que tinha usado para se referir aos oito anos da sua presidência que coincidiram com a governação de António Costa – “éramos felizes e não sabíamos. “Fomos felizes e sabíamos”, descreveu o chefe de Estado, vincando que foram “duas situações complementares, ambas gratificantes”.

“Fomos felizes e fomos eficazes”

Antes da despedida de Marcelo, o líder do Executivo deixou elogios ao “espírito de colaboração” e à “cooperação institucional” – “pessoal também” — com o Presidente da República. “Nestes quase dois anos em que convivemos nestas funções, teve um contacto permanente comigo e com todo o Governo, com espírito de serviço nacional, proteção, salvaguarda, preservação do interesse do país e dos interesses dos cidadãos que vivem em Portugal e sempre também cuidando dos interesses dos portugueses que vivem fora do território nacional”, apontou Luís Montenegro.

Brincando com o facto de Marcelo já ter caracterizado “outros momentos da sua relação com outros governos e outros primeiros-ministros”, o chefe de Governo afirmou: “Fomos felizes e fomos eficazes, porque convivemos com espírito de amizade, solidariedade, de serviço à nossa pátria e à nossa nação e, ao mesmo tempo que promovíamos essa relação, em termos próximos, fomos resolvendo todos os problemas que tínhamos de ultrapassar e fomos muitas vezes antecipando os problemas para os resolver muitas vezes antes de eles serem problemas”.

Para Montenegro, “esse é um espírito que pode fazer escola e pode marcar os exercícios de magistratura da Presidência da República“.

Por outro lado, elogiou ainda o facto de Marcelo “estar sempre por dentro dos assuntos todos, de estudar com profundidade todo o alcance das decisões políticas e a análise da situação política nacional e internacional”.

Não raras vezes me socorri do seu conhecimento técnico-jurídico, do seu conhecimento da realidade concreta dos temas que era importante tratar“, confessou.

Por fim, e “enquanto português”, o primeiro-ministro social-democrata agradeceu os 10 anos de Marcelo no Palácio de Belém, marcados por “constantes desafios e superações, de cruzamento com realidades não antecipáveis, mas sempre com o espírito que caracteriza a sua presidência, de proximidade, afeto, conhecimento, acompanhamento, que vai desde o topo dos órgãos de soberania até ao cidadão comum“.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Na despedida, Marcelo anuncia fim da intervenção política. Montenegro aposta que não

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião