Petróleo nos 147 dólares? Tudo depende de quando voltar a passar pelo Estreito de Ormuz

Conflito na região introduz incerteza extrema quanto à segurança do abastecimento de petróleo. Caso a disrupção seja prolongada, os preços da matéria-prima poderão tocar novos máximos.

O encerramento do Estreito de Ormuz, devido ao conflito no Médio Oriente, acelerou uma escalada dos preços do petróleo nos últimos dias, levando as cotações a negociar acima dos 83 dólares por barril no mercado londrino. Em caso de disrupção prolongada, os preços poderão superar os 100 dólares, ou mesmo bater o máximo histórico de 147,47 dólares, registado em plena crise financeira de 2008, antecipa a Coface. Um cenário que, diz, poderia refletir-se numa nova vaga de subida de preços e levar os bancos centrais a voltar a subir juros.

Com a guerra no Médio Oriente a entrar no sexto dia, os principais receios mantêm-se em torno dos preços da energia, num momento em que os preços do petróleo continuam a disparar. O Brent, negociado em Londres, seguia esta quinta-feira nos 83,12 dólares por barril, impulsionado pelo fecho do Estreito de Ormuz, um canal por onde é transportado 20% do petróleo consumido a nível global e que representa cerca de 30% das exportações marítimas de crude.

Sem alternativa para o transporte da matéria-prima por outra via, o impacto nos preços dependerá do tempo que vai durar o conflito. A Coface estima que “interrupções prolongadas ou repetidas poderão empurrar o Brent para valores acima dos 100 dólares por barril, com a possibilidade de ultrapassar o pico de fevereiro de 2022 (122 dólares) ou mesmo o recorde de 2008 (147 dólares)”.

Interrupções prolongadas ou repetidas poderão empurrar o Brent para valores acima dos 100 dólares por barril, com a possibilidade de ultrapassar o pico de fevereiro de 2022 (122 dólares) ou mesmo o recorde de 2008 (147 dólares).

Coface

Um conflito limitado a alguns dias ou semanas – o cenário atualmente mais provável – deverá ter um impacto reduzido. No entanto, se o conflito se prolongar, o seu impacto macroeconómico poderá ser significativo e ir muito além da questão dos preços da energia”, realça Ruben Nizard, diretor de investigação setorial da Coface, numa análise.

A seguradora lembra que antes desta escalada, o mercado petrolífero encontrava-se com excedente. “A oferta abundante, impulsionada por produtores fora da OPEP+ e por uma reposição rápida de stocks, mantinha os preços sob pressão (média de 68 dólares por barril em 2025)”, explica. Contudo, o conflito na região “altera este equilíbrio, reintroduzindo uma incerteza extrema quanto à segurança do abastecimento”.

Com mais de três milhões de barris por dia produzidos pelo Irão e mais de 1,5 milhões exportados, sobretudo para a China, uma paragem desta oferta obriga os compradores – em particular na Ásia – a recorrer a alternativas mais dispendiosas, o que aumenta a pressão sobre os preços, explica a Coface

Caso o Irão ataque infraestruturas petrolíferas noutros países do Golfo, a situação poderá ainda agravar-se. “O impacto dependerá então da extensão dos danos e da duração da interrupção, num contexto em que a capacidade excedentária da OPEP+ (4 a 5 milhões de barris/dia) permanece limitada e concentrada sobretudo na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, onde os fluxos logísticos poderão ser perturbados”, nota a mesma análise.

“Outros pontos estratégicos, como Bab el-Mandeb ou o Canal do Suez, poderão também ser afetados em caso de escalada regional, aumentando os custos de transporte e os prémios de seguro marítimo“, acrescenta a seguradora.

Preços mais altos, inflação e… maiores juros

Para a Coface, “um cenário extremo, com preços do petróleo acima dos 100 dólares por barril durante um período prolongado, desencadearia uma nova vaga inflacionista global e poderia obrigar os bancos centrais a inverter a sua estratégia, passando de um ciclo de flexibilização monetária para um novo ciclo de aperto”.

Um cenário extremo, com preços do petróleo acima dos 100 dólares por barril durante um período prolongado, desencadearia uma nova vaga inflacionista global e poderia obrigar os bancos centrais a inverter a sua estratégia, passando de um ciclo de flexibilização monetária para um novo ciclo de aperto.

Coface

A seguradora calcula que um aumento prolongado de 15 dólares no preço do Brent poderia reduzir o crescimento global em 0,2 pontos percentuais e acrescentar 0,5 pontos percentuais à inflação.

Neste contexto, avisa, “o risco de estagflação – combinação de baixo crescimento e inflação elevada – voltaria a ser uma ameaça credível para a economia mundial, com consequências sérias para as empresas e para o comércio internacional”.

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