Tempestade no crédito privado bate à porta da Blackrock, a maior gestora do mundo

Com 1,2 mil milhões de dólares em pedidos de resgate parcialmente bloqueados, a Blackrock acende mais um sinal de alerta no universo do crédito privado que acumula crescentes episódios de fragilidade.

ECO Fast
  • O fundo HLEND, que gere cerca de 26 mil milhões de dólares, viu pedidos de reembolso equivalentes a 9,3% do seu valor líquido global no primeiro trimestre, levando a Blackrock a limitar os resgates.
  • Jamie Dimon, CEO do J.P. Morgan alerta que os preços dos ativos estão elevados e muitos problemas no crédito só se verão numa recessão.
  • Lloyd Blankfein, o antigo presidente executivo do Goldman Sachs que liderou o banco durante a crise de 2008, considera inclusive que "há sinais de que a economia está cada vez mais próxima de um crash".
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A maior gestora de ativos do mundo fechou parcialmente a porta a investidores que queriam sair de um dos seus fundos. A BlackRock confirmou esta sexta-feira que vai limitar os levantamentos do seu fundo de crédito privado HPS Corporate Lending Fund, conhecido como HLEND, após ter recebido pedidos de resgate superiores ao dobro do que é habitual.

A notícia, avançada pelo Financial Times e confirmada pela gestora norte-americana, acende mais um sinal de alerta num mercado que, nos últimos meses, tem acumulado episódios que levantam dúvidas sobre a sua solidez.

O HLEND, que gere cerca de 26 mil milhões de dólares em ativos, recebeu no primeiro trimestre pedidos de reembolso equivalentes a 9,3% do seu valor líquido global, cerca de 1,2 mil milhões de dólares. No entanto, a gestora de Larry Fink decidiu satisfazer apenas metade, pagando 620 milhões de dólares, correspondentes a 5% do valor líquido do fundo.

Este limiar é precisamente o patamar a partir do qual a BlackRock, por contrato, pode restringir levantamentos adicionais. Dito de outra forma: a lei da casa permite travar a saída quando a pressão ultrapassa um certo nível… e foi exatamente isso que aconteceu.

Quando se vê uma barata, há provavelmente mais. Os preços dos ativos estão elevados e muitos problemas no crédito só se verão numa recessão.

Jamie Dimon

CEO do J.P. Morgan

A justificação avançada pela HPS Investment Partners, adquirida pela BlackRock por 12 mil milhões de dólares no ano passado, é de natureza estrutural. “Sem este mecanismo, existiria um desfasamento estrutural entre o capital dos investidores e a duração esperada dos empréstimos de crédito privado em que o HLEND investe”, explicou a gestora numa carta enviada aos subscritores do fundo.

Em causa está uma característica intrínseca a este tipo de veículos: o dinheiro dos investidores fica comprometido em ativos ilíquidos, que não podem ser vendidos de imediato. Quando muitos querem sair ao mesmo tempo, o fundo simplesmente não consegue acompanhar o ritmo.

Perante esta realidade, a HPS invocou a proteção coletiva dos investidores para justificar a decisão. “No nosso entendimento, preservar o capital disponível do fundo para aproveitar este conjunto de oportunidades percebidas, enquanto asseguramos liquidez aos acionistas segundo os parâmetros definidos, é do interesse do fundo como um todo”, lê-se na carta enviada aos subscritores.

A gestora sublinhou ainda que a limitação dos levantamentos é uma característica “fundamental” do fundo e não uma medida de emergência, mas um mecanismo de defesa sempre previsto. Porém, o mercado não parece ver da mesma forma. As ações da Blackrock negoceiam atualmente a cair quase 7% na bolsa de Nova Iorque, num sinal de que os investidores encaram a limitação dos levantamentos como algo mais do que um procedimento de rotina.

Mas o caso do fundo da BlackRock não surge isolado. Nas últimas semanas são vários os episódios que fizeram disparar os alarmes no universo do mercado de crédito privado:

  • Esta semana, a rival Blackstone viu-se obrigada a satisfazer pedidos de resgate correspondentes a um recorde de 7,9% das suas unidades de participação no principal fundo de crédito privado, elevando temporariamente o limite habitual de 5% para 7%. Para conseguir responder a todos os pedidos, a empresa mobilizou mais de 25 quadros superiores que injetaram cerca de 150 milhões de dólares dos seus próprios bolsos, numa medida inédita que não passou despercebida nos mercados.
  • Em janeiro, a Blue Owl Capital, outra sociedade gestora, permitiu que investidores de um fundo focado em tecnologia resgatassem apenas cerca de 527 milhões de dólares, equivalente a 15% dos ativos líquidos do veículo.
  • Antes destes episódios de liquidez, o mercado tremeu em setembro com as falências da financiadora de automóveis Tricolor Holdings e da empresa de componentes automóveis First Brands, dois casos que expuseram práticas de concessão de crédito privado questionáveis e que chamaram a atenção das autoridades norte-americanas.

Foi precisamente após estes colapsos que Jamie Dimon, o poderoso presidente do J.P. Morgan, lançou um alerta que ecoou por toda Wall Street: “Quando se vê uma barata, há provavelmente mais. Os preços dos ativos estão elevados e muitos problemas no crédito só se verão numa recessão”, disse Dimon numa chamada com investidores em outubro.

O economista Mohamed El-Erian, conselheiro económico-chefe da Allianz, foi ainda mais direto em fevereiro, quando a Blue Owl suspendeu os reembolsos num dos seus fundos de crédito privado. Na sua análise, El-Erian classificou a decisão como um potencial “canário na mina de carvão” – expressão usada para descrever sinais precoces de perigo – e alertou para riscos que vão além de cada caso individual.

“Há também a questão do ‘elefante na sala’ relativamente a riscos sistémicos muito maiores. Uma correção de avaliação significativa está iminente para determinados ativos“, escreveu o economista numa publicação no LinkedIn, embora ressalvando que a dimensão dos riscos está longe da crise financeira de 2008.

O episódio envolvendo o fundo HLEND da Blackrock serve de lembrete de que os mercados privados, por definição, não têm a liquidez dos mercados cotados em bolsa.

A voz mais recente, e, talvez, a mais carregada de simbolismo histórico, a juntar-se a este coro de alarme é a de Lloyd Blankfein, o antigo presidente executivo do Goldman Sachs que liderou o banco durante a crise de 2008.

Numa entrevista ao podcast Big Take da Bloomberg, divulgada no início desta semana, Blankfein não usou meias palavras. “Temos de nos preocupar com ativos opacos onde existe iliquidez. Estamos a aproximar-nos do fim das fases tardias deste ciclo, e estamos em dívida com uma espécie de acerto de contas.”

O ex-banqueiro disse também questionar a existência de alavancagem oculta no sistema, notando que esse era precisamente o sentimento durante a crise do subprime, afirmando inclusive que “há sinais de que a economia está cada vez mais próxima de um crash“, uma formulação que, nas últimas décadas, raramente é usada levianamente por quem passou a vida nos corredores de Wall Street.

Alavancagem e bloqueio de resgates

O que está em causa é uma tensão fundamental no modelo de negócio do crédito privado: os investidores, cada vez mais provenientes do retalho, têm a expectativa de poder sair dos fundos com relativa facilidade, mas o dinheiro está investido em empréstimos a empresas que podem durar anos. Quando a confiança treme e muitos querem sair ao mesmo tempo, os fundos ficam encurralados.

Acresce que o setor enfrenta crescentes preocupações sobre a exposição a empresas que poderão ser perturbadas pela inteligência artificial, um risco que o banco suíço UBS estimou poder fazer disparar as taxas de incumprimento até 15% num cenário adverso.

O mercado de crédito privado, avaliado em 1,8 biliões de dólares globalmente, atravessa um momento de maior escrutínio após anos de crescimento acelerado e de promessas de retornos superiores aos ativos tradicionais. A BlackRock, que apostou forte neste segmento com a compra da HPS, está agora no centro de um debate mais amplo sobre se as estruturas destes fundos são adequadas para o perfil de risco dos investidores que atraíram.

O episódio envolvendo o fundo HLEND serve de lembrete de que os mercados privados, por definição, não têm a liquidez dos mercados cotados em bolsa. A HPS foi clara ao reafirmar que o mecanismo de limitação dos levantamentos “não é uma novidade” nem uma decisão de emergência, mas sim uma proteção estrutural inscrita no prospeto do fundo desde o início.

A questão que fica no ar, e que reguladores, investidores e gestoras terão de responder, é se essa proteção é suficiente para conter a ansiedade que, de forma crescente, se apodera de um setor que até há pouco parecia imune a qualquer turbulência.

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