Uma carta de amor ao IVA que 40 anos depois ainda é um “imposto giríssimo”

No dia em que Paula Franco completou oito anos à frente da Ordem dos Contabilistas Certificados, debateu-se o (consensual) imposto que mais receita gera para o Estado e "um fenómeno tributário".

O dia foi de festa dupla na Avenida Barbosa do Bocage, em Lisboa, onde esta quinta-feira se sopraram as velas de dois bolos: o dos oito anos de Paula Franco à frente da Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC) e o dos 40 anos do IVA em Portugal. Na casa dos técnicos da contabilidade, escreveu-se uma autêntica carta de amor a um imposto que dificilmente poderia ser mais consensual.

Entre múltiplos elogios a uma “história de sucesso” de uma taxa que uniu mais de uma centena de países em todo o globo, partilharam-se também ideias para os próximos tempos deste que é um “imposto giríssimo” – nas palavras dos vários intervenientes na conferência da OCC. A bastonária Paula Franco confessou que este é o “imposto mais giro” de se trabalhar e a sua implementação em Portugal foi “um marco importantíssimo”.

Intitulada pela audiência como “apóstola do IVA”, Clotilde Celorico Palma ousou ‘mudar’ as siglas do imposto para IVA – Isto Vai Animar. “Seduziu o mundo (está mais de 170 países) e é um fenómeno a nível tributário. É um imposto muito bom no sentido de angariar receita tributária, sendo o que mais contribui para a receita do Estado, e considerado uma história de sucesso”, por não causar distopias na economia e ser “bem aceite pela população”, sintetizou Clotilde Celorico Palma, professora do ISCAL.

Volvidos 40 anos desde a criação do IVA, o presidente do Instituto de Direito Económico Financeiro e Fiscal (IDEFF), Eduardo Paz Ferreira, recordou que à época “houve muita gente pessimista a pensar como seria”. No entanto, “correu bem do ponto de vista técnico, embora se possa colocar a questão político-social sobre se não é um imposto regressivo ou não aumenta a regressividade do sistema fiscal”. O professor catedrático garante que este é um imposto que “faz parte do futuro da União Europeia” (UE).

Um futuro que rima com tecnologia. O académico e advogado Daniel Radu, da Lobo, Carmona & Associados, chamou a atenção para o desenvolvimento da inteligência artificial (IA): “O que vai acontecer ao IVA na era da tecnocracia e dos algoritmos?”, questionou-se sobre o assunto. “Temos de o repensar, fora desta ideia clássica, porque vamos continuar a precisar do IVA para captar receita e ganhar eficiência”, disse Daniel Radu, citando ainda a revista francesa Le Point que o caracterizou como “o Santo Graal da fiscalidade”, um imposto que se “gere a si próprio sem grandes custos administrativos”.

Paula Franco, bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, defendeu que “a harmonização do IVA é algo extremamente positivo porque traz consistência ao nível da UE e princípios sólidos.”

A advogada Raquel Montes Fernandes, associada principal na Deloitte Legal Telles e árbitra do CAAD, alertou que o “sistema do IVA esteve, durante algum tempo, ultrapassado pelos modelos de negócio” que nasceram da economia ‘Uber e Netflix’ e fizeram aparecer novos produtos, entre as quais “economias colaborativas e plataformas digitais”.

Acho que há um orgulho de quem trabalha no IVA que não vejo noutros impostos, mesmo com a complexidade técnica que nunca deixou de ter. Houve uma altura em que estava bastante desfasado da realidade económica, mas acho que hoje em dia fez algum catch up.

Raquel Montes Fernandes

Deloitte Legal Telles

Segundo a jurista da Deloitte Legal Telles, esse desenvolvimento foi possível graças a um conjunto de medidas dentro da comunidade única, nomeadamente a introdução da reformista estratégia de BEPS – Base Erosion and Profit Shifting. “É sempre uma avaliação casuística, mas parece-me que houve uma evolução jurisprudencial mais recente no sentido de trazer mais para o sistema do IVA esse tipo de realidades”, referiu.

Tempo real vai ser “uma das maiores revoluções”

Cidália Lança, jurista na Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), defendeu que o futuro do IVA vai implicar “mecanismos comuns de controlo, mais harmonização e adaptação a novas realidades económicas”. Então, faz sentido criar um novo modelo do IVA? “A reflexão está a ser feita ao nível da UE”, garantiu a especialista em IVA, a propósito das discussões que decorrem no contexto do ViDA – VAT in the Digital Age (“O IVA na Era Digital”).

Por exemplo, debate-se a hipótese de alargar a faturação eletrónica e reporte em tempo real às transações B2B (entre empresas) em vez de apenas B2C (entre empresas e consumidores), no âmbito deste pacote europeu ViDA. Para Raquel Montes Fernandes, “uma das maiores revoluções que aí vem será, provavelmente, o real-time reporting” (envio de faturação em tempo real).

Já Eduardo Paz Ferreira deixou em cima da mesa a possibilidade de um ‘IVA verde’ para criar taxas reduzidas para energias renováveis, que considera “interessante mas complicado” implementar.

Eduardo Paz Ferreira, professor catedrático e presidente do IDEFF

Em debate estive ainda o papel dos profissionais dentro do ecossistema IVA, que se tornaram autênticos “gestores de risco devido à incerteza jurídica e à realidade económica”. Questionado sobre se os consultores já conseguem fazer deste imposto uma oportunidade de negócio, o contabilista António Nabo, membro da Assembleia de representantes da OCC, referiu apenas que a consultoria, atualmente, requer “dimensão, massa crítica e especialização para uma boa prestação de serviços”. Um trabalho que caberá, certamente, ao contabilista 3.0.

Daniel Radu, advogado e professor na FDL, Cristina Flora, juíza conselheira do Supremo Tribunal Administrativo, e Raquel Reis, juíza do Tribunal Tributário de Lisboa

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