Especialistas propõem integrar o bem-estar na estratégia empresarial para garantir a igualdade real

  • Servimedia
  • 9 Março 2026

Embaixadoras da Fundação Mundial da Felicidade afirmam, por ocasião do 8 de março, que medir e estruturar o bem-estar nas organizações é fundamental para avançar em direção à igualdade sustentável.

O avanço rumo à igualdade real entre homens e mulheres exige ir além da representação e das políticas formais. Por ocasião do Dia Internacional da Mulher, especialistas ligadas à Fundação Mundial da Felicidade colocam o foco em um elemento estrutural: a integração do bem-estar na estratégia empresarial como condição necessária para consolidar uma igualdade sustentável.

A abordagem parte de uma premissa clara: a igualdade formal não garante ambientes de trabalho saudáveis nem desenvolvimento profissional em condições equilibradas. Persistem dinâmicas de stress estrutural, incerteza e dificuldades de conciliação que impactam significativamente o mercado de trabalho como um todo e, de forma particular, as mulheres, especialmente as gerações mais jovens.

Neste contexto, a jornalista, presidente da Fundação Diversidade e embaixadora da Fundação Mundial da Felicidade, Teresa Viejo, adverte que os avanços normativos nem sempre se traduzem em mudanças reais dentro das organizações: «a igualdade formal abre a porta, mas não garante o percurso nem a ascensão, porque a lei por si só não modifica a cultura, os preconceitos ou os critérios de promoção», salienta. Na sua opinião, existe o risco de avançar para uma igualdade declarativa, enquanto continuam a ser penalizados fatores como a maternidade ou a flexibilidade laboral.

Nesta perspetiva, a igualdade sustentável requer uma revisão do desenho organizacional. Integrar o bem-estar como eixo transversal implica abordar a cultura corporativa, a liderança, os processos internos e os sistemas de avaliação de desempenho. O bem-estar deixa de ser entendido como uma política isolada de recursos humanos para se tornar uma variável estratégica ligada à competitividade, retenção de talentos e sustentabilidade empresarial.

A Fundação Mundial da Felicidade promove em Espanha ferramentas destinadas a estruturar esta integração, entre as quais a Certificação de Bem-estar Laboral desenvolvida em parceria com a AENOR. Este modelo propõe avaliar a incorporação do bem-estar na estratégia, nas operações e na cultura organizacional através de padrões mensuráveis e verificáveis. O objetivo é transferir o bem-estar do âmbito declarativo para o âmbito estrutural.

Neste contexto, a consultora e diretora do Mestrado em Bem-estar em Ambientes Corporativos da Fundação Mundial da Felicidade, Noelia Romero, considera que avançar para a igualdade real também exige rever os indicadores com que se mede o sucesso profissional: «em vez de avaliar as mulheres apenas pela sua capacidade produtiva, o Happytalismo propõe reconhecê-las através de indicadores muito mais humanos e transformadores: bem-estar, liberdade, crescimento pessoal e contribuições que fortalecem comunidades prósperas», explica.

No âmbito empresarial, a consultora Raquel Valero sublinha que integrar o bem-estar na estratégia implica tratá-lo como um indicador-chave do negócio: «significa que o bem-estar é um KPI, tal como podem sê-lo os resultados financeiros ou os indicadores de produção», explica a também embaixadora da Fundação. Na sua opinião, isso requer a introdução de métricas relacionadas com a rotatividade, o absentismo ou o clima de trabalho e associar a gestão do bem-estar aos objetivos da liderança.

A abordagem enquadra-se no conceito de «Happytalism», que propõe integrar a felicidade, a consciência e a dignidade humana como dimensões legítimas do progresso económico e social. Sob este paradigma, o desenvolvimento empresarial não é medido apenas pelos resultados financeiros, mas também pela capacidade de gerar ambientes onde as pessoas possam desenvolver-se de forma plena e sustentável.

Noelia Romero sublinha que esta mudança de paradigma abre novas possibilidades para o desenvolvimento do talento feminino: «quando a felicidade e a qualidade de vida se tornam métricas fundamentais, e não apenas o crescimento económico, surgem formas de liderança mais inclusivas, colaborativas e orientadas para o bem-estar coletivo», afirma.

A profissionalização do bem-estar corporativo constitui outro dos eixos destacados neste contexto. Segundo Raquel Valero, as organizações precisam de perfis especializados capazes de integrar o bem-estar na arquitetura da empresa. «Não se trata de organizar workshops pontuais, mas sim de conceber sistemas que integrem o bem-estar nos processos e permitam demonstrar o seu impacto em indicadores-chave, como a produtividade sustentável ou a rotatividade», afirma.

As especialistas também alertam para o impacto que a normalização do stress e da incerteza profissional pode ter no desenvolvimento do talento feminino, especialmente entre as gerações mais jovens. Teresa Viejo adverte que, quando as novas gerações percebem que o sistema exige uma disponibilidade constante em troca de um reconhecimento limitado, o compromisso é afetado: «Se as mulheres jovens sentem que, para avançar, é preciso resistir demasiado e confiar muito pouco, tendem a proteger-se. O resultado é uma desconexão emocional com a liderança e o abandono precoce”, explica.

Na mesma linha, Raquel Valero salienta que as novas gerações questionam cada vez mais a cultura do desgaste profissional: «A nossa geração normalizou o «aguentar», mas as jovens veem o stress crónico como uma falha do sistema, não como uma medalha de honra», afirma.

Nesta perspetiva, Noelia Romero destaca que a liderança feminina pode desempenhar um papel decisivo na transformação cultural das organizações: «A liderança feminina transforma as organizações não só porque há mais mulheres em cargos de direção, mas porque modifica a própria forma de entender o poder, a cultura e as relações dentro da empresa», afirma.

Nesse cenário, o debate do 8M amplia o seu alcance. A conversa sobre igualdade não se limita ao acesso a cargos de liderança, mas incorpora a análise das condições estruturais que sustentam esse acesso.

Para as especialistas, o bem-estar feminino tornou-se um indicador-chave da saúde do sistema laboral. Como afirma Raquel Valero, a questão fundamental já não é se as mulheres estão preparadas para assumir cargos de liderança, mas se o modelo organizacional atual é compatível com uma vida sustentável: «o problema já não é a falta de talento feminino, mas sim o facto de muitas profissionais perceberem que o modelo de sucesso vigente é incompatível com uma vida digna», conclui.

Nas palavras de Noelia Romero, avançar para uma igualdade real exige rever as estruturas que continuam a perpetuar as disparidades: «Que estruturas estamos preparados para desmantelar para que a igualdade deixe de ser um objetivo e se torne uma consequência natural do sistema?», questiona.

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