Gás na Europa já custa 6 vezes mais do que nos EUA e a diferença está a crescer
Em seis dias de guerra, o preço do gás europeu disparou mais de 100% contra 20% nos EUA, quase duplicando o spread de preços, expondo a vulnerabilidade energética da Europa e de Portugal.
- O preço do gás natural na Europa disparou 110% em apenas seis dias, atingindo valores recorde devido ao conflito no Médio Oriente.
- A Europa enfrenta uma dependência crítica de importações de gás, enquanto os EUA, autossuficientes, apresentam aumentos de preços muito mais moderados, criando um diferencial de custos significativo.
- A pressão sobre a competitividade da economia europeia e portuguesa poderá aumentar, refletindo-se em inflação e custos elevados para famílias e empresas.
Bastaram seis dias para o fosso energético entre os dois lados do Atlântico atingir uma dimensão sem precedentes recentes com consequências diretas sobre a competitividade europeia.
Desde o primeiro ataque dos EUA e de Israel ao Irão, a 28 de fevereiro, o preço spot do gás natural na Europa disparou 110%, com os contratos de futuros de primeiro vencimento no hub TTF a chegarem a negociar nos 69,5 euros por megawatt hora (MWh) esta segunda-feira, o valor mais alto desde janeiro de 2023.
Já nos EUA, o aumento foi muito mais contido, com os preços a aumentarem apenas 20%, para os atuais 2,90 euros por MMBTU (ou 9,9 euros por MWh).
O resultado desta dinâmica de preços é um diferencial que aumentou 1,6 vezes em menos de uma semana e que hoje faz o gás europeu custar cerca de 6,3 vezes mais do que o americano, quase o dobro da média registada nos 12 meses anteriores a 27 de dezembro de 2025, quando essa proporção era, em média, de 3,2 vezes.
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A explicação para esta assimetria reside na estrutura de cada mercado.
- Os EUA são autossuficientes em gás natural e exportadores líquidos de GNL (gás natural liquefeito), pelo que os seus preços internos refletem fundamentalmente a dinâmica doméstica.
- A Europa, pelo contrário, depende em larga medida de importações, sendo o GNL a sua principal alternativa desde que o fornecimento russo foi interrompido após a invasão da Ucrânia.
A guerra no Médio Oriente veio agora atacar precisamente esse ponto fraco: o Estreito de Ormuz, por onde passa uma fatia significativa do GNL mundial, está praticamente paralisado, e o Qatar, o maior exportador de GNL do mundo declarou force majeure aos seus compradores europeus, incluindo a italiana Edison e a polaca Orlen, após suspender a produção na central de Ras Laffan.
Pressão sobre o preço do gás deverá persistir
A escolha de Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo iraniano assassinado, para suceder ao pai afastou qualquer perspetiva de uma resolução rápida do conflito. O novo líder supremo é considerado um “linha-dura”, o que, combinado com a hipótese de Donald Trump enviar forças terrestres para a região, alimenta os receios de um conflito prolongado.
“O mercado está lentamente a acordar para a realidade de perturbações prolongadas em toda a cadeia de valor energética”, referiu Florence Schmit, estratega de energia do Rabobank, à Blomberg, que antecipa interrupções no fornecimento durante cerca de três meses.
Atualmente, o mercado de GNL está mais tenso, os stocks pós-inverno são mais baixos e a cadeia de fornecimento está sob pressão simultânea de múltiplas frente.
Os analistas do Société Générale, numa nota enviada aos clientes do banco francês, apontam dois fatores para uma prolongação da pressão sobre os preços do gás:
- Procura: um aumento da procura de GNL de cerca de 200 mil toneladas, sobretudo no Egito e Jordânia
- Oferta: uma redução de cerca de 2,4 milhões de toneladas na oferta proveniente do Catar e dos Emirados Árabes Unidos.
Para a Europa, o momento não poderia ser mais inoportuno, com o continente a emergir do inverno com reservas de gás em níveis abaixo da sua média histórica e inferior ao antecipado em outubro pela Rede Europeia dos Operadores das Redes de Transporte de Gás (ENTSOG).
Esta situação significa que os países da União Europeia (Portugal incluído) terão de comprar volumes significativamente maiores de GNL ao longo do verão para reabastecer os armazéns antes do próximo inverno, e fá-lo-á em concorrência direta com os compradores asiáticos, num mercado onde a oferta está a escassear.
Na semana passada, numa nota enviada aos seus clientes, o Goldman Sachs deu nota de uma revisão em alta de 40% da sua previsão de preço do gás europeu para o segundo trimestre, de 45 para 63 euros por MWh, assumindo que as exportações catarianas permanecem a zero até ao final de março, com uma recuperação gradual ao longo de abril.
Portugal não escapa à pressão dos preços
O impacto desta escalada de preços não se fica pelos mercados financeiros. Na Alemanha, a associação da indústria química VCI já avisou que as empresas do setor vão ser obrigadas a repercutir os maiores custos de energia nos preços ao consumidor, o que deprimirá a procura numa altura em que a maior economia europeia tenta recuperar o fôlego.
É um sinal do que pode estar à espera de toda a Europa: inflação importada pela via energética, perda de competitividade da indústria face aos concorrentes americanos e asiáticos — que pagam pelo gás uma fração do que custa na Europa — e pressão crescente sobre os rendimentos das famílias.
O atual diferencial de preços Europa versus EUA de cerca de 22 vezes não é apenas um número, mas a medida exata da desvantagem estrutural com que as empresas europeias chegam às cadeias de valor globais.
Se o diferencial transatlântico se mantiver ou aprofundar, a pressão sobre a competitividade da economia europeia, e portuguesa, será uma das consequências mais duradouras desta guerra.
Contudo, é importante também colocar este movimento em perspetiva, considerando, desde logo, que os cerca de 61 euros por MWh a que negocia atualmente o gás europeu estão ainda muito longe dos mais de 300 euros/MWh atingidos no pico da crise energética de 2022, o que dá margem para agravamento adicional caso o conflito se prolongue além do esperado.
Mas há uma diferença fundamental entre 2022 e agora: nessa altura, a Europa tinha ainda reservas estratégicas mais elevadas e alternativas de fornecimento, que, entretanto, foram-se esgotando ou tornando mais caras.
Atualmente, o mercado de GNL está mais tenso, os stocks pós-inverno são mais baixos e a cadeia de fornecimento está sob pressão simultânea de múltiplas frentes — da guerra em si, do fecho de Ormuz e da ausência de Catar como fornecedor de referência.
Portugal não escapa a esta equação. O país importa a quase totalidade do gás que consome, sendo o GNL uma componente crescente dessa fatura.
Num cenário de preços elevados persistentes, os impactos poderão fazer-se sentir tanto nas tarifas de eletricidade — cujo preço grossista no mercado ibérico continua a ser influenciado pelo gás enquanto tecnologia marginal — como nos custos das empresas industriais com maior intensidade energética.
Se o diferencial transatlântico se mantiver ou aprofundar, a pressão sobre a competitividade da economia europeia, e portuguesa, será uma das consequências mais duradouras desta guerra que começou há dez dias e que os mercados já não tratam como episódio passageiro.
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