Inês Bleck: “Despedi-me. Muita gente me disse que era louca. Decidi arriscar”

  • ECO
  • 9 Março 2026

Durante anos, Inês Bleck tratou do marketing de produtos com os quais nem sempre se identificava. Hoje é CEO da VeryChaga, onde vende um produto que impactou a sua vida: os cogumelos funcionais.

Inês Bleck, CEO da VeryChaga, é a 68ª convidada do podcast “E Se Corre Bem?”. Sempre soube que o marketing corporativo era a área que mais a atraía, mas foi só depois de passar por várias multinacionais que decidiu dar o passo de lançar a sua própria empresa.

Com apenas 16 anos, foi fazer um exchange student program aos EUA e, quando regressou a Portugal, entrou na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa.Eu queria mesmo o mundo das empresas porque a parte do marketing e da comunicação era algo que me atraía muito. Ainda pensei em comunicação do ponto de vista jornalístico, mas achei mais divertido e mais interessante fazer comunicação de produto”, começou por dizer.

Terminada a licenciatura, Inês Bleck começou a estagiar na Nestlé, mas acabou por não ficar lá muito tempo, uma vez que lhe surgiu uma oportunidade que lhe pareceu muito aliciante: “Na altura, a Philip Morris (Tabaqueira) estava a oferecer a pessoas licenciadas a possibilidade de ser gestor de território para depois fazer qualquer função dentro da organização. Ofereciam condições espetaculares”.

No entanto, apesar de ter um contrato “espetacular”, havia algo que lhe pesava e que acabou por ditar o seu fim naquela função. “É um negócio difícil e chato. Aliás, eu saí porque não via qualquer interesse em estar a vender tabaco. Era um mercado que tinha um fim à vista e com o qual não me identificava nada. Por mais que eu possa vender um produto que não tenha a ver comigo, não me posso desidentificar ao nível dos valores core do produto“, explicou.

Assim sendo, saiu da Tabaqueira e, curiosamente, começou a trabalhar numa empresa que, apesar de não vender tabaco, vende bebidas alcoólicas – a Diageo. Mas, à semelhança do que aconteceu na Tabaqueira, não ficou lá muito tempo e acabou por aceitar um trabalhar num projeto completamente na Johnson & Johnson, em Espanha: “Era para ser um projeto temporário, de quatro meses, mas depois fui integrada na organização espanhola e acabei por gerir um departamento e transformar outros. Fiquei em Madrid sete anos”.

De Madrid deu “o salto” para Londres, algo que sempre quis desde que entrou na Johnson & Johnson, mas que acabou por ser adiado. “Quando apareceu a oportunidade de ir para Londres, parecia que estava tudo certo porque era o posto que eu queria e as condições que eu queria. No entanto, não estava tudo certo com a paginação da minha vida pessoal. Eu não levei os meus filhos e isso teve um impacto gigantesco em mim porque eu subestimei o preço que isso ia ter no meu equilíbrio emocional“, revelou.

Mesmo assim, ainda ficou em Londres durante um ano, mas acabou mesmo por se despedir depois de 11 anos na Johnson & Johnson: “Assim que saí da Johnson & Johnson, integrei a Iswari. Eu sabia que era aquilo que queria, mas houve um choque gigante. Senti que não havia a organização, a liderança, os processos, a avaliação de performance, uma série de questões que são importantes para a engrenagem funcionar. Era uma empresa, na altura, um bocadinho anárquica nesse sentido e as próprias pessoas não tinham aquela ética profissional que eu encontrava nas multinacionais”.

“Saí da Iswari e fui para uma farmacêutica nacional, onde fiquei responsável de marketing. Era uma empresa muito gira, com produtos clássicos e ainda pequenina, mas que tinha muito potencial de se modernizar. E depois recebi um projeto para lançar uma marca na nutrição desportiva, a Bettery. Aqui tinha mesmo de lançar a marca do zero porque não havia conceito, apenas havia um objetivo, que era lançar uma marca de nutrição desportiva premium, com propriedade intelectual na área plant based em cinco segmentos diferentes e mercados. Deram-me uma tela em branco, um bom budget e eu senti que tinha de agarrar aquele comboio” continuou.

Esse “comboio” ficou na sua vida durante quase dois anos até que, por motivos pessoais, conhece os cogumelos funcionais, que viriam a mudar toda a sua vida: “Eu comecei como consumidora porque os cogumelos funcionais são adaptogénios, ou seja, é uma classe de cogumelos que oferece benefícios para a saúde pelos seus biocomponentes de interesse. De repente, deu-se ali o clique e eu pensei que tinha de falar sobre aquilo às pessoas. Finalmente tinha a certeza de que aquilo que podia oferecer era super íntegro comigo mesma. Não só eu tinha sentido na pele o efeito destes cogumelos, como comecei a investigar e a estudá-los”.

“Ainda estava na Bettery, mas aquilo começou a ser quase um hobby, uma obsessão. Então, despedi-me. Outra vez. Muita gente me disse que eu era louca porque tinha muito boas condições e o projeto estava a ter bastante sucesso, mas eu sentia que queria estar ainda mais alinhada. Eu senti que tinha de ir buscar isto à minha alma e ao meu coração para me dar o mesmo em retorno, em energia, em tranquilidade, e em sentido de propósito. Então decidi arriscar“, contou.

Decidiu arriscar e foi assim que nasceu a VeryChaga, na qual percebeu que o retorno esperado é diferente: “Eu acho que mudei a moeda de retribuição do esforço que coloco no trabalho. Ela já não é em euros, mas é em resultados da felicidade que eu consigo causar no outro. Eu acho que as marcas de wellness têm de se focar mais nesta relação contínua e não numa transação momentânea. A transação existe, mas é consequência de uma relação contínua”.

Para o futuro, Inês Bleck espera que a empresa continue a crescer, mas confessa que a prioridade está em manter o seu próprio equilíbrio. “Há uma parte de mim que quer escalar, mas a questão prende-se em perceber qual é o modelo que me faz feliz a mim também. Eu quero que a empresa tenha saúde financeira, até para eu poder fazer mais coisas interessantes e de valor acrescentado para esta comunidade, mas a máquina como eu a conheço e que sei perfeitamente manobrá-la para gerar muito dinheiro vai buscar uma parte de mim que eu não sei se é a que eu quero dar a tempo inteiro. Por isso eu ando aqui um bocadinho a fazer um compasso de espera”, disse.

Mas, independentemente do futuro, há algo que garante: “Acho que vai ser uma marca híbrida porque vai ter produtos, mas também vai ter serviços, e serviços gratuitos. Eu gostava mesmo de ter rentabilidade financeira suficiente para ter responsabilidade social, que depois me permitisse dar serviços gratuitos, que eu acredito que são sinérgicos à própria ação dos cogumelos“.

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan.

Pode assistir ao episódio completo aqui:

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