BRANDS' ECOSEGUROS Poupança e Mercados de Capitais em Portugal
José Gonçalves, CFO da PRÉVOIR, traça o cenário da poupança e dos Mercados de Capitais em Portugal.
A taxa de poupança das famílias portuguesas recuperou para níveis historicamente elevados, atingindo cerca de 12% do rendimento disponível entre 2024 e 2025. Esta evolução cria condições favoráveis para reforçar soluções de poupança de médio e longo prazo, essenciais num país com envelhecimento acentuado da sua população e desafios de sustentabilidade do sistema público de pensões.

Poupança para a Reforma: PPR e PEPP
Os PPR mantêm-se como o instrumento fiscalmente mais atrativo:
- Dedução automática de 20% das entregas anuais, com limites de 400€ (<35 anos), 350€ (35-50 anos) e 300€ (>50 anos);
- Tributação reduzida no resgate quando cumpridas as condições legais, tornando-os superiores a produtos tradicionais como depósitos a prazo ou certificados de aforro.
O PEPP (Produto Individual de Reforma Pan‑Europeu), recentemente regulamentado em Portugal, introduz:
- Conceito de Portabilidade do produto dentro da UE;
- Regras harmonizadas de encargos e informação aos aforradores;
- Supervisão articulada entre ASF, Banco de Portugal e CMVM;
- Tratamento fiscal alinhado ao dos PPR nacionais.
Estes produtos alargam alternativas de poupança e reforçam a competitividade do 3.º pilar das pensões.
Mercados de Capitais: Porquê Importam para a Poupança
O desenvolvimento do mercado de capitais é crucial para transformar poupança em investimento produtivo. Estudos da CMVM identificam que melhorar o acesso de empresas e famílias ao mercado promove inovação, produtividade e crescimento económico.
A nível europeu, a União dos Mercados de Capitais (UMC) e o novo “Listing Act” simplificam a admissão à negociação e reduzem custos de financiamento, abrindo espaço para maior receita de investimento para instrumentos de reforma e fundos diversificados.
Capital de Risco: Motor de Inovação e Complemento ao Investimento de Longo Prazo
O ecossistema português de capital de risco tem crescido:
- €10,3 mil milhões em ativos sob gestão (+11%);
- 348 OIA de capital de risco ativos (+23%);
- Investimento de €2,08 mil milhões em empresas seed e early stage.
Apesar do Banco Português de Fomento, através do FdCR e programas de co-investimento, ter vindo a ampliar a oferta de fundos especializados, aumentando o acesso a capital de risco quer a empresas e projetos de investimento, quer a investidores, Portugal permanece abaixo da média da UE (a média UE é, por si só, bastante baixa em comparação com outras geografias) em volume de capital investido (0,068% do PIB vs. 0,132% UE), exigindo reforço de incentivos.
Incentivos Fiscais, Legislação e Supervisão
A Lei n.º 31/2024 reforçou a dinâmica do mercado de capitais ao:
- Alargar o regime fiscal do art.º 23.º do EBF a Organismos de Investimento Alternativo (OIA);
- Clarificar isenções e regimes aplicáveis a fundos de capital de risco e fundos de créditos;
- Harmonizar regras e reduzir incerteza fiscal para investidores.
A CMVM continua a reforçar supervisão sobre transparência, value‑for‑money e práticas sustentáveis, tentando, desta forma, aumentar a confiança dos investidores e qualidade da oferta. É, porém, necessário encontrar soluções mais adequadas para a dinamização da oferta de produtos de investimento, nomeadamente sob a forma de seguros, destinados a pequenos investidores e que também incentivem o reforço do 2º pilar do sistema de pensões que é, historicamente, muito pouco dinâmico em Portugal.
Conclusão
Portugal tem hoje condições reforçadas para transformar a poupança das famílias em investimento produtivo. Todavia, existem ainda barreiras para que essa transformação possa contribuir, de forma relevante e decisiva para a dinamização da economia nacional, de entres as quais, do meu ponto de vista, merecem especial destaque:
- Maior literacia financeira. Falta formação nas escolas e mais proatividade das instituições financeiras nesta área;
- Mercados de capitais reduzido, de acesso caro e muito pesado burocraticamente;
- Ecossistema de capital de risco exíguo devido ao excesso de complexidade existente e caro devido, em parte, aos custos subjacentes a essa complexidade;
- Receio por parte das empresas de diversos sectores que se deparam com mais do que um organismo de Supervisão, quer na criação de soluções de poupança, quer no que respeita a mecanismos de financiamento de ideias, projetos novos e empresas em fase de arranque.
O desafio central continua a ser o mesmo: canalizar mais poupança para instrumentos de longo prazo, promovendo simultaneamente melhores condições de reforma e maior crescimento económico sustentável.
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