Presidente do Eurogrupo avisa que zona euro deve preparar-se “para longa instabilidade”

  • Lusa
  • 9 Março 2026

O presidente do Eurogrupo acredita que a "economia europeia tem capacidade e resiliência para absorver choques temporários".

O presidente do Eurogrupo alertou esta segunda-feira que a zona euro se deve “preparar para longa instabilidade”, que pode afetar cadeias de abastecimento e pressionar os preços da energia e a inflação, pelo conflito no Médio Oriente.

“A economia europeia tem capacidade e resiliência para absorver choques temporários, mas, ao mesmo tempo, devemos estar preparados para um período mais prolongado de instabilidade, com possíveis perturbações no transporte marítimo, aumentos nos preços da energia e implicações para a inflação”, disse Kyriakos Pierrakakis, em conferência de imprensa após a reunião dos ministros das Finanças da zona euro, em Bruxelas.

O Eurogrupo – reunido esta segunda pela primeira vez em Bruxelas desde o início da guerra iniciada por Israel e por Estados Unidos contra o Irão e marcada pela resposta iraniana – analisou os impactos económicos do conflito, ao nível energético e inflacionista. No final do encontro, o presidente do fórum informal dos ministros garantiu aos jornalistas que o organismo está “a acompanhar de perto as reações dos mercados aos desenvolvimentos no Médio Oriente, que dominam atualmente as manchetes internacionais”.

“O ano de 2025 foi positivo para a economia europeia, com um crescimento superior ao esperado, apoiado pela estabilização da procura interna, mercados de trabalho robustos e condições de financiamento favoráveis. Hoje, contudo, encontramo-nos num ambiente bastante diferente”, reconheceu Kyriakos Pierrakakis.

Teme-se na Europa que se volte à situação de crise energética de 2022, após a invasão russa da Ucrânia, já que o espaço comunitário depende fortemente das importações provenientes de mercados globais, muitos dos quais estão direta ou indiretamente ligados ao Médio Oriente. Qualquer escalada militar que afete a produção ou o transporte de energia – especialmente no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial – tende a gerar choques nos mercados energéticos internacionais e a elevar os preços.

“A energia está no centro da nossa atenção, [pois] a instabilidade no Médio Oriente e os acontecimentos globais lembram-nos de quão vulneráveis são os mercados energéticos e de como as nossas economias podem continuar expostas a choques externos”, observou o presidente do Eurogrupo.

Numa altura em que países como Portugal avançam com apoios na energia (como o desconto no ISP do gasóleo) e outros países o consideram (como Espanha), Kyriakos Pierrakakis adiantou que o Eurogrupo está “atento à pressão de subida nos preços da energia e debateu os tipos de medidas que os Estados-membros estão a considerar, bem como a necessidade de manter uma ação coordenada enquanto se monitoriza a situação no terreno”.

Bruxelas alerta para eventuais implicações profundas e de longo prazo

Já a Comissão Europeia considerou que um conflito mais alargado e duradouro no Médio Oriente poderá “ter implicações mais profundas e de longo prazo” na economia comunitária, mas destacou o “ponto de partida sólido”.

“Caso a situação se prolongue – tanto com interrupções no Estreito de Ormuz como com ataques a infraestruturas energéticas na região do Golfo –, isso poderá naturalmente ter implicações mais profundas e de longo prazo”, disse o comissário europeu da Economia, Valdis Dombrovskis.

Em conferência de imprensa em Bruxelas após a reunião dos ministros das Finanças da zona euro, o responsável apontou que “essas consequências económicas dependerão, em grande medida, da duração e da natureza do conflito”, numa alusão aos já visíveis aumentos dos preços da energia (petróleo e gás natural) dados os ataques iniciados por Israel e Estados Unidos contra o Irão e a resposta iraniana, que se alastrou a toda a região do Médio Oriente.

“Se conseguirmos evitar uma rápida escalada do conflito, também as repercussões económicas nos mercados de energia poderão ser limitadas”, apontou Valdis Dombrovskis. Para o comissário europeu da tutela, a resposta comunitária “terá de depender do cenário verificado e isso é algo que, nesta fase, ainda não se sabe”.

Valdis Dombrovskis lembrou, porém, o “ponto de partida sólido” da economia europeia, que no ano passado “surpreendeu ligeiramente pela positiva e criou condições para um crescimento modesto contínuo este ano e no próximo”.

“Ao mesmo tempo, a economia europeia continua a navegar num ambiente global altamente incerto e imprevisível. Os acontecimentos no Médio Oriente já tiveram um impacto significativo nos preços da energia, representando riscos para a economia da União Europeia em geral”, adiantou.

O comissário europeu da Economia pediu, ainda assim, que “se mantenha a calma” e se “monitorize a situação” por ser “cedo para especular sobre implicações específicas de política económica”.

Ainda esta segunda, os ministros das Finanças do G7 debateram a situação e vincaram que “nenhum esforço deve ser poupado para garantir a segurança do fornecimento de energia e a abertura do Estreito de Ormuz”, segundo Valdis Dombrovskis, numa discussão sobre utilização das reservas de petróleo, que continua na terça-feira com os governantes da área da energia.

O Banco Central Europeu, responsável pela estabilidade dos preços na área da moeda única, já veio alertar que a subida dos preços da energia pode gerar pressões inflacionistas na zona euro.

Os Estados Unidos e Israel lançaram a 28 de fevereiro um ataque militar contra o Irão, tendo matado durante a ofensiva o ‘ayatollah’ Ali Khamenei, líder supremo do país desde 1989.

 

 

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