Portugal entrega lucros de 26 milhões à Mercadona. “Ganharemos como em Espanha”
Retalhista quase dobra meta de rentabilidade para a operação portuguesa, com as vendas a superarem 2.000 milhões. Há mais 12 lojas a caminho e "Portugal tem de se equipar a Espanha", avisa Juan Roig.
É apenas um grãozinho no ‘arroz’ de lucros da valenciana Mercadona, mas Portugal voltou, pelo segundo ano consecutivo, a somar resultados positivos para a gigante retalhista do país vizinho que em 2025 teve um “ano histórico” com um novo máximo de rentabilidade a nível global: 1.729 milhões de euros, 25% acima do que tinha registado no ano anterior.
Depois de em 2024, ao fim de oito anos de forte investimento, ganhar dinheiro pela primeira vez em Portugal (sete milhões de euros), a distribuidora alimentar, que reclama uma quota de mercado de 8,8% em Portugal (+0,8 pontos), viu os lucros da operação no país aumentarem para 26 milhões de euros em 2025. Isto é, quase o dobro do objetivo que tinha sido traçado há um ano pelo presidente (14 milhões).
“Temos de continuar a melhorar os lucros, mas estamos muito satisfeitos com a forma como vão as vendas e também com os 7.500 trabalhadores que temos em Portugal. (…) Estamos muito contentes de como está a funcionar” a operação portuguesa, sublinhou o presidente Juan Roig, apontando este ano a “45 a 50 milhões de lucros” no país. “Portugal está cada vez melhor e tem de se equiparar a Espanha”, frisou.
Custa muito começar uma operação num país, corrigir as coisas que não estão bem feitas, adaptar o sortido de produtos aos consumidores portugueses e encontrar bons fornecedores de frescos. Quanto tudo isso estiver feito, ganharemos o mesmo que em Espanha.
Lembrando que “até há dois anos [perdia] dinheiro, reconheceu que “custa muito começar uma operação num país, corrigir as coisas que não estão bem feitas, adaptar o sortido de produtos aos consumidores portugueses e encontrar bons fornecedores de frescos” no país. “Quanto tudo isso estiver feito, ganharemos o mesmo que em Espanha”, insistiu.
Esta quarta-feira, durante a conferência de imprensa de apresentação dos resultados anuais, o filho predileto de Valência adiantou ainda que o volume de negócios em Portugal cresceu 18% em termos homólogos. Atingiu 2.092 milhões de euros nos 69 supermercados nacionais com que terminou o ano passado – entretanto já abriu mais um em Lisboa (Quinta do Lambert), que fez questão de inaugurar ao lado do autarca Carlos Moedas.

Agora com perto de 7.500 funcionários, dos quais 500 foram recrutados em 2025, a Mercadona projeta abrir este ano 12 novos supermercados em Portugal. Inclui as estreias nos distritos de Castelo Branco, Vila Real e Beja, assim como a chegada em dose dupla ao Algarve, mas só depois do verão: vai abrir uma loja no Nova Vila Retail Park, em Portimão, e outra no Vale da Amoreira, em Faro. Madeira e Açores continuam fora do plano.
Abertura de lojas em 2026, por ordem cronológica:
- Lisboa (Quinta do Lambert)
- Viseu
- Covilhã
- Sintra (Abrunheira)
- Moita (Alhos Vedros)
- Beja
- Vila Real
- Portimão
- Faro
- Amarante
- Maia
- Esposende
Por outro lado, como resultado desta que é a sua primeira experiência de internacionalização — “não vamos para um terceiro país enquanto ainda tivermos muitíssimo trabalho em Portugal” — e onde soma também dois blocos logísticos (na Póvoa de Varzim e em Almeirim), a empresa que lidera o retalho alimentar em Espanha (quota de 28,5%) e que faturou 41.858 milhões de euros em 2025 diz que aumentou em 100 milhões as compras aos cerca de 1.000 fornecedores portugueses, para um total de 1.500 milhões.
Vender online? Em Portugal ainda temos coisas mais importantes para fazer antes. (…) Não vamos para um terceiro país enquanto ainda tivermos muitíssimo trabalho em Portugal.
“Temos de ser mais portugueses e conhecer melhor a realidade, incluindo os fornecedores. Estamos a conhecer cada vez mais [sobre o país], mas ainda nos falta muitíssimo. (…) Estamos a tratar de saber tanto de Portugal como os portugueses sabem de Espanha”, referiu Juan Roig, salientando que todos os diretores que trabalham no país são portugueses.
A retalhista contabiliza já ter investido 1.230 milhões de euros em Portugal, dos quais 140 milhões só no ano passado. Para este ano projeta mais 150 milhões. Por outro lado, a sociedade portuguesa Irmãdona Supermercados, que tem sede em Vila Nova de Gaia, “contribuiu com 273 milhões de euros em impostos” durante o último exercício. E desde que em 2019 abriu a primeira loja em Vila Nova de Gaia, totaliza 879 milhões de euros em contribuições fiscais.
Por conta dos resultados obtidos no último exercício, a Mercadona avançou com a distribuição de 25 milhões de euros aos trabalhadores em Portugal, que incluem o pagamento de prémios anuais e de gratificações extra, ambos por objetivos. Por outro lado, o salário base no país foi aumentado este ano em 2,2% e os funcionários passam a poder gozar “até 29 dias úteis” de férias.
A 31 de dezembro, no final de um ano em que realizou 43 aberturas, 45 encerramentos e 14 remodelações a nível ibérico, a Mercadona tinha um total de 1.672 lojas. As vendas online, para já apenas disponíveis em Espanha — “em Portugal ainda temos coisas mais importantes para fazer antes”, assumiu –, valeram 1.061 milhões de euros, isto é, 2,5% do total. Uma “operação rentável”, como frisou Juan Roig, antecipando para este ano um sétimo armazém logístico dedicada a este canal digital, na região de Madrid.
Dos preços a subir ao IVA Zero que “encantaria”
Durante a conferência de imprensa, Juan Roig destacou que “ganhar dinheiro é bom, necessário e obrigatório, senão não se pode reinvestir e repartir” — e 80% dos lucros estão a ser reinvestidos na empresa, calculou. No entanto, apesar de ser “uma coisa muito, muito boa”, o histórico empresário espanhol advertiu que “não é saudável uma empresa perseguir apenas lucros”.
Perspetivando o exercício de 2026, traçou como objetivo atingir vendas globais de 43.200 milhões de euros (+3,5% em termos homólogos) e “consolidar os lucros espetaculares” que teve no ano passado, assim como manter o nível de investimento em torno dos 1.000 milhões de euros, somando mais um milhar de trabalhadores ao efetivo em Portugal e em Espanha.
Sobre o impacto do ataque ao Irão, o líder da Mercadona começou por responder que “o futuro é incerto” e que “os empresários têm de se adaptar” ao contexto geopolítico. Ainda assim, reclamou que “os preços sobem e descem por causa [da flutuação] das matérias-primas” e que isso “não depende de nenhum distribuidor” do ramo alimentar.
Já sobre a possibilidade do regresso do IVA Zero num cabaz de produtos alimentares, como implementado na sequência da guerra na Ucrânia em ambos os lados da fronteira da Península Ibérica, o empresário respondeu que ficaria “encantado se os governos de Portugal e Espanha o decretassem amanhã”. “Mas isso não depende de nós”, completou Juan Roig.

Em termos estratégicos, a maior novidade é o investimento de 3.700 milhões de euros com que vai avançar “nos próximos anos” para transformar os seus supermercados em Loja 9, que apresentou como um “modelo organizado por processos em vez de por negócios, com mais espaço para produtos frescos e que facilita uma compra mais ágil e simples [para os clientes], aumentando a produtividade, a rentabilidade e a eficiência”.
Entre outras inovações, detalhou que este novo modelo de supermercado, que vai também ser implementado em Portugal, pretende “otimizar os processos de corte, de cozedura e de embalar, unificando-os numa única zona denominada Cozinha Central, o que irá gerar uma poupança de 10% em energia e de 40% em água”.
(O jornalista viajou para Espanha a convite da Mercadona)
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