UE escuda-se com renováveis, mas preço grossista da eletricidade ainda dispara
Energias renováveis sustentam metade da geração da eletricidade na UE, que tem fatia acima da média global, dos EUA e da China. Ainda assim, preços grossistas disparam perante conflito no Irão.
Numa altura em que o conflito no Irão faz disparar os preços do petróleo e gás, assim como os receios no universo da energia, a União Europeia ‘levanta’ um escudo contra a volatilidade dos preços da eletricidade: as energias renováveis, que já sustentam metade da geração da eletricidade no bloco. A UE tem uma fatia de renováveis acima da média global e de geografias como os Estados Unidos e a China, e a tendência deverá manter-se até 2030.
A percentagem de energia renovável na geração de eletricidade, na União Europeia, no final de 2024, era de 48%. Esta informação consta do tracker que acompanha o último relatório da Agência Internacional de Energia focado nas renováveis, o Renewables 2025, lançado no passado mês de dezembro. Já olhando a tecnologias de renováveis “variáveis”, isto é, cuja geração não é previsível e controlável como a das barragens – essencialmente, solar e eólica –, a percentagem colocava-se nos 28%. As previsões da Agência Internacional de Energia apontam para que ambas as percentagens subam: em 2030, 63% da eletricidade na UE deverá ter por base fontes renováveis e 46% do total virá de fontes variáveis, como energia solar e eólica.
A percentagem de energia renovável na geração de eletricidade, na União Europeia, no final de 2024, era de 48%. Em 2030, deverá subir para 63%, nas previsões da AIE.
A União Europeia compara bem com a média mundial, que fica nos 32%, assim como a da China, que se coloca nos 34% e com a dos Estados Unidos, que não ultrapassam os 23%. Portugal é um caso bem sucedido dentro do bloco, com a eletricidade de fonte renovável a ocupar uma fatia de 86% da eletricidade total produzida em 2024.

“O aumento da capacidade solar fotovoltaica deverá mais do que duplicar nos próximos cinco anos, dominando o crescimento global das energias renováveis”, escreve a AIE, e a União Europeia não é exceção, com mais de metade das adições de capacidade previstas até 2030 a virem de uma combinação da instalação de centrais solares e de solar distribuído.

Tal como o ECO/Capital Verde havia notado no início do conflito, a guerra rapidamente chegou aos preços da eletricidade do Velho Continente, já que o preço da eletricidade no mercado grossista, onde comercializadores compram a eletricidade aos produtores, é dado pela tecnologia mais cara à qual é necessário recorrer a cada hora, e em várias das horas ainda é necessário recorrer às centrais a gás para produzir eletricidade suficiente para responder à procura. Ainda assim, “países com maior peso de renováveis e nuclear tendem a ser menos sensíveis ao preço do gás”, ressalva Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, uma vez que as renováveis são mais baratas e, quanto mais forem utilizadas, menos se recorre ao gás, cujos preços têm disparado.
Enquanto a 27 de fevereiro os preços do contrato de gás natural que é referência na Europa, o TitleTransferFacility, estavam nos 31,96 euros por megawatt-hora (MWh), ao dia de hoje estão nos 53,39 MWh. No mercado de eletricidade, nas previsões de preços para o dia 10 de março, Portugal apontava para um custo médio da eletricidade grossista de 131,43 euros por MWh, Espanha nos 136,86 euros, França nos 125 euros e Alemanha nos 139,92 euros. Todos acima de 100 euros, a roçar os 130 euros. Estes preços comparam com, respetivamente, com 21,10 euros, 20,10 euros, 12,70 euros e 64,92 euros que se registavam, em cada um destes países europeus, no dia 27 de fevereiro, antes de estalar o conflito no Irão.
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Preços grossistas da eletricidade na Europa no dia 10 de março. Fonte: Energy-Charts -
Preços grossistas da eletricidade na Europa no dia 27 de fevereiro, antes do conflito. Fonte: Energy-Charts
Renováveis crescem, mas falham metas
A União Europeia deverá adicionar mais de 400 gigawatts (GW) de nova capacidade renovável até 2030, o que significa passar de uma capacidade instalada de 683 GW em 2024 para 1.123 GW no final da década. “Contudo, este aumento substancial fica aquém das metas de capacidade renovável do REPowerEU para 2030”, nota a AIE. O RepowerEU, o programa que surgiu na sequência da invasão da Ucrânia pela Rússia com o objetivo de diminuir dependência do gás russo importado e reforçar a segurança energética, através da implementação de energias renováveis, estabeleceu uma meta de 1.236 GW de capacidade renovável até 2030. No entanto, o cenário principal traçado pela AIE prevê que a capacidade instalada da UE fique 12% aquém desta meta.
"Conseguir uma expansão mais célere exigirá melhorar o quadro dos leilões para proporcionar segurança de receitas a longo prazo, aumentar a flexibilidade do sistema elétrico, simplificar o licenciamento e reduzir as filas de espera para as ligações à rede.”
A ‘travar’ a concretização plena do objetivo do Repower está, por um lado, a ambição curta dos Planos Nacionais de Energia e Clima (PNEC) entregues pelos Estados-membros. Em junho de 2024, os Estados-membros submeteram as atualizações aos respetivos PNEC e a Comissão Europeia calcula que, no seu conjunto, atinjam apenas uma quota de 40% de renováveis no consumo final bruto de energia (e não na geração de eletricidade) – ficando 2,5 pontos percentuais abaixo da meta vinculativa da UE e cinco pontos percentuais abaixo da ambição do REPowerEU. “Conseguir uma expansão mais célere exigirá melhorar o quadro dos leilões para proporcionar segurança de receitas a longo prazo, aumentar a flexibilidade do sistema elétrico, simplificar o licenciamento e reduzir as filas de espera para as ligações à rede”, remata a Agência Internacional de Energia.
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